A fronteira entre a ficção e o documentário é um assunto recorrente no cinema atual e tem sido, cada vez mais, objeto de reflexão nos festivais de cinema nacionais. Na obra do brasileiro Gustavo Vinagre, a questão ganha uma cor particular: “Meu interesse está naquele momento em que o documentário se mistura com a ficção através dos sonhos reais das pessoas. Mais do que só observar o cotidiano de um personagem, eu gosto de observar os desejos, as fantasias que existem ali”, explica o diretor.

Gustavo se formou em Letras pela Universidade de São Paulo e foi estudar Roteiro na EICTV – Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba. Filmou ficções, como o curta-metragem Pérolas, mas logo buscou um cinema documental centrado em personagens fortes. 

Filme para Poeta Cego (que você pode assistir aqui) mostra as ideias, sensações e fetiches que o poeta Glauco Mattoso expõe em jogo sadomasoquista com o próprio Gustavo. Já o recente La Llamada é sobre o cubano Lázaro Escarze, um revolucionário de 87 anos que terá seu telefone instalado pela primeira vez na vida.

No média-metragem Nova Dubai, Gustavo se baseia no seu retorno a São José dos Campos, onde morou durante a adolescência, para abordar a destruição de um espaço afetivo, agora ameaçado pela especulação imobiliária.

O filme, que está no 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, foi financiado por meio de um projeto de crowdfunding no site Catarse. O média-metragem, seus temas e subtemas e seu processo de produção foram os principais assuntos da conversa entre Gustavo e o Cine Festivais.

Confira abaixo os principais pontos da entrevista.

 

Cine Festivais: Como foi o retorno a São José dos Campos e como isso influenciou a realização de Nova Dubai?

Gustavo Vinagre: Quando voltei de Cuba, não tinha mais onde ficar em São Paulo e voltei a morar com a minha mãe em São José dos Campos, onde passei minha adolescência. Foi um choque estar na casa da minha mãe, estar nesse lugar que mudou muito enquanto eu estava fora. Não conhecia mais ninguém, basicamente ficava na internet o dia inteiro. Fiquei meio imerso, tentando refazer amizades e contatos que eu tinha no Brasil, descolar trabalhos. Acho que isso influenciou muito na estética do filme, nas histórias que vão se alternando. É a questão do hiperlink; essa coisa meio infinita da internet, de você poder navegar por vários assuntos.

 

CF: A especulação imobiliária é um tema forte no cinema nacional recente. Em Nova Dubai ela é a grande vilã.

GV: Acho que o filme é sobre muitas coisas que de uma maneira não óbvia acabam se relacionando. Tem muito a ver com as relações de hoje em dia, com a internet, com os aplicativos, tem a ver com um espaço virtual em contraste com os espaços físicos de convivência, que estão ficando mais restritos, cheios de regras e com papéis pré-definidos. Com isso, o espaço virtual é mais presente, é onde existe mais liberdade.

 

CF: Na descrição do projeto para o Catarse você define o filme como um drama “pornoterrorista”. De onde veio esse conceito?

GV: É uma história engraçada. Eu me interesso por teoria de Cinema Queer [movimento cinematográfico de combate à heteronormatividade dominante no cinema]. Evito ler porque não quero que meu cinema seja de discursos, pautado em teorias. Mas esse amigo que edita sempre os meus filmes [Rodrigo Carneiro] lê e gosta. E ele falou: “ah, isso é pornoterrorismo!”. Então a equipe e eu pensamos que também seria algo mais marqueteiro, para ajudar a vender o filme. Acabamos incluindo essa palavra e fizemos um teaser “palhaço”.

 

CF: O filme mostra relações homoafetivas e tem cenas de sexo explícito. Quais eram as expectativas de recepção do público em relação a essas questões e como elas vêm repercutindo nos lugares onde o filme é exibido?

GV: Eu tinha muito medo no começo, ficava bem apreensivo, mas no Brasil as reações me surpreenderam muito. Em geral o filme foi bem recebido, as pessoas ficaram até o fim, vieram falar comigo. A sessão de Nova York foi ótima. Teve uma sessão na Itália, no Festival de Torino, que foi muito boa também. Mas as recepções são diversas.

No Brasil as pessoas ficam muito quietas e apreensivas. Na Itália as pessoas riram do começo ao fim, umas risadas nervosas, histéricas, mas permaneceram. Para minha surpresa, no Festival de Roterdã, 70% do público foi embora na primeira sessão. Eu esperava que as pessoas fossem mais abertas num país como a Holanda. E, afinal, a sinopse do filme e o catálogo dos festivais indicam que há sexo explícito. Mesmo assim as pessoas vão e saem do nada. Talvez se o sexo fosse heterossexual as pessoas se sentissem mais familiarizadas. E também é um filme que está sempre quebrando expectativas, talvez o espectador demore um pouco para entender a lógica do filme. Mas, no geral, a recepção está sendo muito melhor do que eu imaginava.

 

O diretor Gustavo Vinagre

O diretor Gustavo Vinagre

 

CF: Na campanha para o crowdfunding, você anunciou que Nova Dubai seria um curta-metragem de até 20 minutos. O resultado final foi um média-metragem de 50 minutos. O que aconteceu?  

GV: Não sei por que achei que ia ser um curta, foi inocência minha. Desde o roteiro dava pra sentir que ia ser maior. Nova Dubai é quase um longa. Se eu esticasse 15 minutos, 12 minutos, talvez considerassem um longa, não sei. Na edição, muita gente falava “ai, estica!”, ou então “corta!”…Não seria o mesmo filme, perderia força. Eu vejo muitos filmes bons mas com um tempo inapropriado; médias que foram alongados para caber nesse formato do longa e acabam ficando arrastados, chatos. Uma coisa é o filme ter um “tempo lento”, ao qual ele se propõe dentro de uma linguagem, outra é um tempo lento artificial, que está ali só para preencher uma minutagem. Eu acredito muito que um filme deve durar o que tem que durar e as janelas que devem se adaptar: os festivais, as televisões, etc.

 

CF: E qual tem sido a resposta dos festivais à duração do filme? 

GV: O filme já está circulando há uns 8 meses e eu me surpreendi muito, pois ele já passou em muitos festivais onde eu não esperava estar. Entrou como curta-metragem em Roterdã, ganhou um prêmio na Espanha (IBAFF – Festival Internacional de Cinema de Múrcia) de Melhor Primeiro Longa e já passou como média-metragem mesmo em alguns festivais. Então ele é meio que um coringa, ele foi se adaptando.

 

CF: Ou seja, foi o contrário de uma expectativa convencional: ao invés de não se adequar a nenhuma programação, coube em todas. 

GV: Pois é, minha expectativa era a de que o filme não ia passar. Agora ele foi para Nova York [no Festival Art of the Real, do Film Society Lincoln Center], por exemplo, num festival só de documentário, sendo que deve ser o filme mais fictício que já fiz. Na verdade, creio ser uma tendência, os festivais começarão a se adaptar. O Festival de Brasília estar aceitando médias-metragens pela primeira vez é prova disso.

 

CF: No Catarse vocês pediam R$7.000 (atingiram R$8.270), uma quantia modesta mesmo para a produção de um curta-metragem. Foi a única fonte de financiamento? 
 
GV:  Sim. Claro, foi feito com amigos e o valor do filme é muito maior se colocássemos os cachês que deveriam ter sido pagos. Aliás, tivemos um acidente no último dia de filmagem. As filmagens passaram um pouco do previsto e o motorista da produção teve que ir embora, mas nos emprestou o carro dele para continuarmos. Terminamos tarde da noite e acabamos batendo o carro. Gastamos o dobro do dinheiro para pagar o conserto, daria pra ter feito outro Nova Dubai só com esse dinheiro.

Sessões de Nova Dubai no 4º Olhar de Cinema:

- 14/6/2015 – 21h45 – Itaú (Sala 1) – Curitiba

- 15/6/2015 – 21h15 – Itaú (Sala 2) – Curitiba

 

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