Quem assistir a Urutau, primeiro longa-metragem de Bernardo Cancella Nabuco, poderá se recordar do filme americano O Quarto de Jack, que rendeu recentemente o Oscar de Melhor Atriz para Brie Larson. Ambos lidam com personagens sequestrados que vivem por anos em cárcere privado, mas a opção do cineasta brasileiro é por uma abordagem seca, sem trilha sonora e com pouquíssimos planos, sempre fixos, ao longo dos 70 minutos de projeção.

Bernardo ainda não assistiu ao “primo rico” de seu filme, mas pretende fazê-lo em breve. Formado em Direito, ele é funcionário público concursado e tinha até pouco tempo o cinema como um hobby. Isso começou a mudar quando entrou em um curso de formação na área. O trabalho de conclusão, que usualmente é um curta, acabou se tornando este longa.

Urutau fez a sua estreia na Semana do Realizadores, no Rio de Janeiro, no ano passado. Em seguida, participou da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes na seção Transições, e também foi exibido na edição paulistana do evento.

O Cine Festivais conversou com Bernardo sobre sua transição do Direito para o cinema. Leia a seguir os principais pontos da conversa.

 

Cine Festivais: Como se deu a sua relação com o cinema até realizar esse primeiro longa-metragem?

Bernardo Cancella Nabuco: Me formei em Direito na UERJ, e desde aquela época já gostava muito de cinema e tinha vontade de algum dia estudar o tema mais a fundo. Logo que saí da faculdade fui trabalhar com Direito, o que na verdade faço até hoje, mas paralelamente a isso resolvi, em 2010, estudar cinema de forma mais técnica e me formei aqui no Rio na Escola Darcy Ribeiro em 2013.

A escola exigia que o aluno formado em direção apresentasse um curta-metragem como trabalho de conclusão de curso, mas optei por fazer algo maior, sentia que a história que eu queria contar precisava de mais tempo para discutir todos os elementos que eu queria apresentar, então acabei fazendo um longa, o Urutau.

O cinema hoje tem funcionado como uma grande transformação na minha vida, porque cada vez mais estou mergulhando nesse mundo e deixando o mundo do Direito de lado.

 

CF: Essa relação com o Direito tem alguma coisa a ver com a escolha temática?

BCN: Acho que tem um pouco a ver com o tema sim, porque quando você lida com Direito acaba de certa forma lidando com conflitos humanos, com relacionamento entre pessoas, intervindo nesses conflitos para tentar dirimi-los.

A minha formação, mais do que pelo tema, me ajudou muito na forma do filme. Sempre optei por fazer um filme que tivesse um rigor formal, que fosse bem homogêneo, harmônico, e acho que o estudo do Direito me deu esse norte, de fazer uma coisa bem amarrada. Acho que Urutau é um pouco assim, segue uma formalidade rigorosa, principalmente na concepção dos planos e na ideia toda da estrutura.

 

CF: A escolha por planos fixos e longos estão relacionados à ideia da claustrofobia, ou havia outra intenção? Você se inspirou em algum diretor?

BCN: A opção pelos planos mais alongados e os enquadramentos fixos tem a ver com isso do confinamento, da claustrofobia, de pensar de alguma forma aprisionar o espectador dentro daquele ambiente junto com o personagem do Fernando.

Sempre gostei muito de assistir a filmes e tive algumas referências, principalmente do cinema do Leste Europeu, que é mais cru, seco, direto nessa concepção de linguagem. O cinema da Romênia, principalmente, foi uma grande fonte de inspiração.

Além dele, gosto muito do Béla Tarr, que também tem essa coisa de distensão do tempo, de tornar o próprio tempo distendido em um elemento intrínseco à narrativa do filme. Gosto também muito do Michael Haneke, talvez por causa dessa questão da violência da natureza humana como algo natural, isso de certa forma também está presente no comportamento do Josias, personagem do Urutau.

 

CF: Gostaria que você comentasse a opção por explorar elementos do fora de quadro em diversos momentos do filme.

BCN: Eu gosto muito de trabalhar com um espectador que participa da narrativa do filme, não gosto que ele simplesmente seja passivo. O fora de quadro nesse sentido é uma provocação ao espectador, até porque eu acho que a nossa mente pode às vezes imaginar coisas muito piores que estariam acontecendo do que as que de fato estão.

Essa opção vem para ressaltar um pouco essa clausura do Fernando, mas também para trazer o espectador para participar do filme, no sentido de atiçar a imaginação dele e tornar a realidade que estou representando no filme ainda mais dura.

 

CF: Como foi para você a entrada nesse universo do cinema através da participação em festivais?

BCN: Estou muito feliz e cada vez mais certo de que o cinema vai acabar preponderando sobre o Direito na minha vida. Venho de uma formação muito tradicional, estudei em colégio católico a vida inteira, tive uma vida muito dentro da fôrma nesse sentido, mas sempre tive essa inquietação dentro de mim e percebi que o Direito não estava me tornando plenamente satisfeito do ponto de vista profissional. Aí o cinema, que até então era para mim uma grande paixão, começou a se tornar também profissão, conhecimento libertador.

Considerei a recepção na Mostra de Tiradentes muito boa. Foi a segunda exibição do filme, pois ele havia estreado na Semana dos Realizadores, mas em Tiradentes teve outra dimensão, o festival é muito maior. Achei muito importante conversar com pessoas sobre o filme, discutir os elementos que o filme traz, se questionar. Então estou em buscada dessa liberdade, em certa medida assim como o personagem do filme.

 

CF: Você já está trabalhando em novos projetos?

BCN: Tenho projetos em mente. Estou começando a desenvolver, ler um material para tentar embasar mais as minhas ideias, porque acho que um bom filme começa por um bom roteiro. Então, sempre tenho cuidado de antes de qualquer projeto ler muito sobre o tema que pretendo descobrir.

Estou nessa fase de leitura, mas já com algumas ideias na cabeça. Está sendo tudo muito rápido, mas a ideia de fazer um segundo projeto no cinema é muito presente, é o que vou buscar.

Tenho alguns temas sobre os quais estou pensando em tratar. Um deles é a anorexia. Estou lendo a respeito para ver se minhas ideias batem com o que vou aprender sobre o tema ao pesquisá-lo mais profundamente, mas tenho uma ideia nesse sentido, de trabalhar um problema que aflige muitas pessoas e que às vezes a gente prefere deixar de lado, mas que precisa ser discutido para tentar melhorar e ajudar as pessoas que sofrem desse mal.