Da leva de longas-metragens que já foram exibidos (O Processo, de Maria Augusta Ramos) ou ainda serão lançados (projetos de Petra Costa e Anna Muylaert/Lô Politi)a respeito do processo de impeachment de Dilma Rousseff, o do carioca Douglas Duarte é aquele cuja equipe mais cedo chegou ao Congresso Nacional. Excelentíssimos, que na sua gênese falaria sobreo funcionamento do poder legislativo federal, virou “filme do impeachment” quando, em dezembro de 2015, mesmo mês planejado para as primeiras filmagens, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aceitou a tramitação daquele processo.

Ao contrário de Maria Augusta, que retrata o impedimento pelo ponto de vista da defesa de Dilma no Senado, com poucas inserções de imagens de fora da casa legislativa, Douglas Duarte joga luz ao trâmite na Câmara dos Deputados, mas também recorre a imagens de arquivo e entrevistas para traçar o caminho que, em seu ponto de vista, começou após as eleições de 2014 e culminou na deposição da governante petista pelo Congresso.

Em entrevista ao Cine Festivais após a exibição de estreia de Excelentíssimos no 51º Festival de Brasília, Douglas falou sobre o processo de montagem e a respeito das escolhas narrativas tomadas para retratar o principal fato recente da política brasileira.

 

Cine Festivais: Em uma entrevista recente que fiz com a cineasta argentina Laura Citarella ela questiona o impacto que um tempo prolongado de produção tem sobre o ímpeto inicial de um realizador que deseja fazer um filme. Claro que os documentários são diferentes das ficções, mas no seu caso a primeira ideia era fazer um filme sobre o Congresso Nacional, e depois ele se tornou um filme sobre o impeachment, tendo que escolher uma entre as diversas formas de abordagem. Como esse ímpeto inicial variou durante todo esse processo?

Douglas Duarte: Acho que existiram diversos ímpetos. O primeiro era de fazer um retrato do Congresso. A gente escreveu o projeto com esse ímpeto, ganhamos o dinheiro do filme com esse ímpeto. Mas depois tem um segundo ímpeto, igualmente forte, quando você se dá conta do que o filme pode ser. Quando a gente se toca que o filme foi sequestrado e que ele é um filme do impeachment, não adianta você segurar as rédeas e impedir que ele seja o que o material é. Então isso criou pra gente um ímpeto muito forte. Quando a gente terminou de filmar, falamos assim: “cara, é sem dúvida um filme do impeachment!”

Eu acho que a gente se amarra, por razões boas e más, a uma certa maneira de abordar documentário no Brasil. Se prendia; acho que a gente cada vez se prende menos. Mas durante muito tempo ficamos num apego muito grande, que se deve só à genialidade do Coutinho, de uma relação muito câmera-objeto, câmera-objeto, e a gente intervém apenas falando. E a montagem tem que ser o mais transparente possível, menos perturbadora do objeto filmado possível, mais limpa possível, mais pura possível. Houve essa pressão no começo do filme, de a gente fazer um filme que fosse cinema direto, de seguir certos cânones do que é um filme político que não é um panfleto.

A gente ouviu de críticos e curadores de cinema, quando falávamos sobre a preparação: “Não faça entrevistas.” “Mas, por quê?” “Não precisa fazer entrevistas.” “Não sei, qual é o problema de fazer entrevistas?” Isso vindo de pessoas que às vezes nunca fizeram um filme. Então acho que no Brasil a gente vive uma ilusão, como se essas formas estabelecidas - o cinema direto, o filme de entrevistas – fossem as mais avançadas e as mais certas para fazer um documentário. E na verdade não são formas novas, elas já têm meio século. São formas já super questionadas nos lugares onde elas nasceram: isso é realmente um purismo? Se elas são realmente um caminho mais direto para o objeto, para o mundo. E a gente viveu muito esse debate.

A minha sensação no início é que esse filme tinha muitas peças que faltavam e pontes que deviam ser ligadas. Eu já tinha superado as minhas próprias barreiras de ligação com a obra mais purista do Coutinho e do cinema direto, essa coisa mais rígida. E eu tinha vontade de falar. Não me parecia um problema ter trilha. Não me parecia um problema mudar de registro e ter partes observacionais e partes com entrevista ou arquivo. Mas ficou um cabo de guerra durante muito tempo sobre qual é a forma certa de se fazer um documentário, e não existe isso.

O Excelentíssimos foi bom pra mim para eu entender isso. Não existe forma certa de fazer documentário e não existe forma que sirva para todo tipo de filme. Um filme de cinema direto, eu acho, no ambiente em que eu encontrei, não seria um bom filme. Mesmo! E eu não acho que por ser cinema direto ou por ter um filme com narração, trilha, arquivo, entrevista, observação, ele é mais distante e representa pior o mundo a priori.

Então, acho que existe, como a Laura comentou na entrevista que você fez com ela, um novo cânone que está se formando, que não se assume como cânone, mas que é tão escola de belas artes, tão parnasiano quanto já foi em certo momento o próprio parnasianismo. A gente precisa quebrar essas coisas, os documentários precisam ser mais livres aqui. Por n razões. É bom que o artista se sinta livre enquanto cria. A gente tem um mercado de documentário que precisa desesperadamente chegar aos olhos das pessoas. Não é ter bilheteria, porque ter bilheteria não é o mais importante. Mas precisa chegar às pessoas, e os nosso filmes não chegam. E eu acho que eles não precisam ser iguais. E não sendo iguais eles têm mais chances de chegar nas pessoas. Além de todas as questões de distribuição e mercado que eu não preciso esmiuçar, mas que são obviamente importantes.

 

E com relação aos outros filmes que estavam sendo produzidos paralelamente: o da Maria Augusta ramos, o da Petra Costa, o da Lô Politi. Você teve algum tipo de contato com esses filmes, no sentido de saber para onde os outros filmes estavam caminhando, para se distanciar ou se particularizar?

Olha, a gente chegou antes dessas outras produções. Então filmamos boa parte do nosso material sem ninguém lá. Eu fui ao congresso pela primeira vez em dezembro de 2015, antes de estar claro que o impeachment estava rolando. Em março de 2016, quando a gente começa a ver as outras equipes chegando, a gente começa a encontrar uma equipe filmando que a gente não sabe de quem é, e é uma equipe da Petra. E eu encontro a Guta (Maria Augusta Ramos) lá filmando… é um encontro que é curioso, porque você trabalha muito junto, às vezes a gente filmava ombro a ombro, com os diretores de fotografia filmando a mesma coisa. Mas ao mesmo tempo são cabeças muito diferentes. Eu sabia que o meu filme não seria igual ao filme da Guta. E imaginava que meu filme não seria parecido com o da Petra, porque somos diretores muito diferentes. E por esse lado eu acho muito bom que existam olhares diferentes para processos similares.

Dito isso, apesar de a gente ocasionalmente ter tido uma sobreposição, de estar nos mesmos lugares, depois de ter visto O Processo percebi que o filme da Guta começa onde o meu termina, se centra muito no Senado, eu me centro muito na Câmara, são personagens completamente diferentes, e a gente escolheu ter acesso a universos muito diferentes. A Guta ficou muito na defesa da Dilma, mostrando também os pontos de vista dos ataques à Dilma. E eu fiz um filme muito centrado na oposição. Decidi filmar o inimigo. Entre muitas aspas, mas o inimigo. Encontrei com gente da equipe da Petra aqui que me disse que para além da fruição do filme ficou muito aliviado que O Processo é um filme, Excelentíssimos é um filme, e o da Petra, quando estiver pronto, será outro filme também. Então eu acho ótimo.

A gente vive um processo brutal, que precisa ser retratado por quantos olhos puderem ser retratados. Eu prefiro isso do que uma exclusividade de estar lá sozinho, ser o único conduíte para aquela realidade. Eu penso, por exemplo, que maravilha teria sido ter tanta gente boa olhando pro impeachment do Collor. É, na verdade, um período muito rico, e a gente tem muita sorte de, no meio dessa maré de merda que a gente está vivendo, de ter gente olhando e conseguindo documentar o que aconteceu. Daqui a 10 anos a gente vai sentir muita diferença de poder olhar pra trás e poder ver o que aconteceu.

 

Eu queria que você falasse dessa experiência de falar sobre o filme quando ele não estava pronto. Você falou em mesas na CineBH e aqui no Festival de Brasília no ano passado. Foi uma coisa de elaborar muito sobre o filme quando ele ainda talvez não tivesse tomado o caminho que ele tomou agora. Como você sentiu isso?

Eu confesso que fiquei dividido quanto aos dois convites. Ao mesmo tempo que a gente está sempre buscando qualquer janela para falar de filmes, de documentários, e especificamente dos nossos documentários – a gente tem tão poucas janelas que se me chamarem para subir na mesa desse café para falar do filme, eu vou, eu sempre vou e sempre irei. Ao mesmo tempo eu me sentia uma farsa, porque estava falando de uma coisa que não existia… na época de BH e Brasília foi depois da primeira de três fases de edição que tivemos. Então acho que foi ruim para todo mundo, exceto pra mim. Porque para mim foi ótimo ouvir em voz alta o que eu estava pensando sobre o filme e poder processar isso, de uma maneira que a gente faz na ilha e trocando ideias com amigos, mas é bom fazer isso em público também. Entender o que você mesmo pensa, em voz alta. Então, apesar de me achar uma farsa, acho que a experiência foi positiva.

 

A Julia Murat, produtora do seu documentário, tem um filme (Operações de garantia da Lei e da Ordem) que trata do processo que desembocou no impeachment, talvez, que é o processo de 2013. Queria que você falasse como que as reflexões produzidas por aquele filme influenciaram na narrativa do seu filme.

Eu não acho que 2013 esteve na origem do impeachment. Eu acho que o impeachment tem uma participação popular de proveta, então acho que buscar as raízes do impeachment da Dilma num movimento que, na saída, era profundamente democratizante, reformista, progressista, de esquerda, feminista, popular, horizontal, é um erro enorme de avaliação.

Só tenho essa visão porque, entre outras coisas, meu envolvimento com 2013 é profundo. Eu, no dia 17 de junho, estava apanhando da polícia na rua e tomando gás. Fundei um canal chamado Tomada TV, que fazia cobertura das manifestações, um canal de mídia livre. Foi inclusive por causa dessa experiência que a Julia me chamou para ajudá-la a pensar em Operações…a partir de tudo que a gente estava vendo, porque era um canal que além de produzir vídeos monitorava e reunia os vídeos, um pouco para você saber o que estava acontecendo. Mas 2013 eu acho que foi muito pedagógico para todo mundo ao ensinar o que é rua, o que é política. Devo a 2013 esse olhar um pouquinho mais agudo sobre o que é o processo político. Exatamente por ter vivido 2013 a fundo que eu olho para uma passeata do MBL e sei o que tem e o que não tem ali, sabe?

 

Mas acho que o seu filme talvez seja aquele que complexifica mais os discursos sobre essas passeatas, não fica restritoa um sentido de que eles são manipulados e acabou. Acho que você cria várias camadas, se aproxima mais das pessoas, dá uma cara maior a elas. Então eu não vejo, nesse sentido, que o seu filme feche o sentido nessa coisa de que foram manifestações exclusivamente manipuladas por pessoas alienadas. Como você pensou sobre isso na montagem?

Quando você faz um filme, faz o filme que é capaz de fazer. Queria ter mais das manifestações. Acho que a gente mostra a rua bem no dia da votação, mas eu queria ter mostrado mais antes. A gente filmou diversas passeatas, a gente correu da polícia bastante em Brasília, foi para passeatas dos dois lados.

É importante a gente entender como foi a participação popular, é importante complexificar isso, porque se a gente cair no mecanismo de “ah, eram todos manipulados”, a gente deixa de perguntar por que é que eles foram manipulados, como que eles foram manipulados. Eu discordo em quase tudo de uma pessoa que foi pra rua atrás do pato da Fiesp, de camisa da seleção, mas eu consigo entender uma certa revolta com tudo o que está acontecendo, e acho que essa revolta foi muito manipulada sim, mas eu não acho que todo mundo que botou uma camisa amarela e foi pra Avenida Paulista agora está querendo que o Bolsonaro se eleja, ou queria um governo como o do Temer. Ou queria sequer botar o PMDB e o PSDB no poder.

Acho que houve um erro brutal de avaliação deles e informações que estavam propositalmente escamoteadas para eles não entenderem o que estava acontecendo. Porque, na verdade, eles estavam enchendo uma passeata, dando um número para uma passeata, berrando contra a corrupção, para manter os corruptos de sempre nas posições deles. Qualquer processo que grite contra a corrupção e bote Romero Jucá no timão do governo ou está mal informado ou é mal dirigido ou é uma empulhação. Então, é importante a gente ter gradações do que é o quê. Acho muito ruim que seja um documentário a ter essa tarefa, mas a gente lida com os tempos, com as mídias e com as ferramentas que a gente tem. Isso devia estar nos jornais, mas não está. E aí fica a pergunta de por que não está.

 

Queria falar agora da narrativa do filme. Ele começa com uma espécie de câmera trôpega, com a Dilma saindo, um dos últimos atos públicos dela, à noite. Me parece que é um filme que já começa baqueado por aquilo que aconteceu, mas depois disso, desse primeiro plano, é um filme que, principalmente na primeira hora, vai ao ataque. No sentido dos recursos narrativos que usa, de uma linguagem de thriller. Eu queria que você falasse da primeira parte do filme e sobre essa escolha de dividir o filme em capítulos que lá pra frente desaparecem.

Esses capítulos do filme são basicamente todos os capítulos desfeitos: a eleição desfeita, a aliança desfeita, o ministro desfeito. Eles são essencialmente um prólogo, porque a sensação que eu tive quando voltei de Brasília e vi o material é que a história não começava quando a gente começou a rodar. Quando a gente começou a se importar publicamente com o impeachment, as rodas já estavam girando. E a história, para mim, não estaria completa se a gente fizesse um documentário do tipo “ah, chegamos no impeachment e tudo que está aqui se dá a ver e é suficiente.” Poderia ser um filme? Poderia. Seria um filme mais voyeurístico, de teatro, de gestual, que é igualmente importante, não é menor. Mas eu queria ter essas coisas no filme.

A gente precisava concatenar o material de uma maneira que sim, mostrasse as informações dele, dosasse essas informações para que não fosse muita informação, tipo “dia tal aconteceu tal coisa”, e isso se tornasse uma sopa de datas e virasse um organograma. Isso é um texto, não um filme. Queria que a gente tivesse um índice informativo e também a dramaticidade que alguns daqueles materiais têm.

Acho que ter um ex-presidente que diz que impeachment é uma bomba atômica, mas que eles provavelmente vão usar, e ter um outro dizendo “muito em breve não seremos mais oposição, mas seremos governo”, estando a três anos da próxima eleição, tem uma dramaticidade, uma cara de pau que me impressionava muito. Eu recomendo que todo mundo vá lá no site do Instituto Fernando Henrique Cardoso e veja esse vídeo inteiro. Há um clima de chá das cinco, de “isso é tranquilo de se falar”, que é muito impressionante, como tom. Ver um cara que já foi presidente falando desse jeito e sobre essas coisas, um cara que vai se tornar ministro, que é senador, falando essas coisas, como se estivessem na sala de casa. E tem repórteres, grandes nomes do jornalismo ali na platéia. E eles não tem pejo de falar essas coisas.

Então acho que essa montagem que usa todos os recursos, como você falou, tenta manter o informativo e a dramaticidade dos dois. Foi uma das coisas que mais demorou para a gente achar o tom, e teve uma hora em que finalmente falei “cara, eu não posso simplesmente justapor esses materiais e não intervir, porque essa intervenção é minha. Sou eu que estou ligando esses pontos.” Claro que num filme sou sempre eu que estou ligando os pontos, mas quero que isso fique patente. Então é a minha voz, aquele computador em que aparece as telas são os pontos que eu estou pensando, os pedaços de texto que eu estou selecionando. Então, ao mesmo tempo que esse filme tem uma cara informativa, é muito pessoal. O que não significa que seja só opinião e adjetivo, mas é muito pessoal. A ligação é de fatos, mas a ligação dos fatos é minha. E eu preferi ser franco e aberto nessa relação.

 

Eu queria falardesses dois personagens, não sei se centrais, mas importantes no filme, que são o Silvio Costa e o Carlos Marun. O filme consegue encontrar humanidade naquele caos. Acho que a figura do Silvio Costa passa uma ingenuidade, defendendo que não há votos para o impeachment. E o Marun tem outro tipo de abertura, que também a gente não costuma ver. Por que a escolha desses dois especificamente?

Eu não queria fazer um filme de entrevistas, isso eu sabia, exatamente porque um dos meus impulsos foi ir pra lá e entender o que acontecia quando o Jornal Nacional cortava. Quando terminava aquela frase de 15 segundos, o que acontecia? Então eu sabia que não ia ser só um filme de entrevista. Ao mesmo tempo, quando eu conheci esses dois caras, que eu não fazia a menor ideia de quem eram, eles chamaram a minha atenção como deputados que ao mesmo tempo que sinalizavam o que um deputado é, eram abertos, o que é uma coisa que os deputados geralmente não são.

Uma coisa eu aprendi fazendo o meu filme anterior, o Sete Visitas. Você não precisa conversar com ningm para saber com quem você está falando. A sua entrevista começa de boca fechada. E eles foram dois caras que me chamaram atenção desde cedo. O Silvio Costa eu demorei a entender que era pró-governo. Porque você associa aquele jeitão à direita, e não, ele é um cara profundamente comprometido com ideias de esquerda. E é um puta personagem.

Eles foram me chamando a atenção: gente, quem é esse Silvio Costa que está fazendo piada no meio da confusão toda? Daí eu comecei a reparar nele e falei: “podemos seguir o senhor um pouco?” E a coisa foi se abrindo. Marun foi mais ou menos a mesma coisa, mas ele acabou se revelando um personagem para onde a imprensa vai sempre conseguir uma frase; ele é o cara da franqueza, um sincericida, e tudo o que você precisa num filme é ter um sincericida, alguém cuja superfície se pareça com a essência. Eu acho que os dois têm isso.

 

Tem uma entrevista que fiz com o João Moreira Salles em que ele falava da admiração que o Coutinho conseguia ter por certos personagens, por exemplo o Silas Malafaia.Coutinho via um talento genuíno, uma espécie de talento artístico ali. Eu acho interessante enxergar certa humanidade nessas pessoas que a gente desaprova moralmente, politicamente, etc. Tem uma cena que me tocou muito nesse aspecto que é a do Rogério Chequer em cima de um carro de som ao lado do Kim Kataguiri. Ele está esperando pra falar, com as pernas abertas, calça jeans, parecendo um astro de rock. Aquele é o grande momento da vida dele, e você conseguiu captar aquilo…

Eu acho que a gente cai muito na tentação de falar desses caras como abcessos da sociedade brasileira, e eu não sei se a gente se dá conta de que aqueles abcessos tiveram mais gente votando neles do que criticando eles. A gente acha que é ponto pacífico que eles são execráveis, mas obviamente teve quem votou neles. A compra de votos não é direta, eles convenceram pessoas a votarem neles para estar lá. Então, certo tipo de parlamentar que a gente abomina tem muita gente que gosta. A prova é que muitos deles se elegeram em 2016, muitos vão se reeleger. A culpa da máquina partidária vai até um certo ponto, mas na ponta – e isso ficou muito claro pra mim – tem uma economia de carisma ali na Câmara dos Deputados que é muito real. São pessoas acima da média de carisma do mundo. Claro que tem gente que você olha e pensa “nossa, mas por que essa pessoa se elegeu? Quem votaria nessa pessoa?” Mas é assim, é humano. Ver momentos como esse que você reparou do Rogério Chequer, entrever o ego dessas pessoas ali, como elas se veem. A Camila Freitas, diretora de fotografia do filme, se odeia por ter feito aquele plano do Chequer porque ela acha que aquele plano engrandece eles, como se eles fossem grandes revolucionários, o que não são.

 

E por que o plano ficou na montagem?

Porque eu acho que o plano é isso, mas é mais coisas além disso. O plano é isso, sem dúvidas. Por falta de alternativa, engrandece eles. Estamos lá no chão, eles estão em cima de um carro de som, tem um monte de gente prestando atenção. E realmente eles são astros de rock naquele momento. Mas o filme tem uma estrutura que desmonta isso e te dá recursos para você olhar para aquele plano e falar “ok, parece um show de rock, mas será que show de rock é a melhor maneira de a gente conduzir a política?” Leva a perguntas. Acho que aquele plano está problematizado lá, por isso que ele fica.

 

A cena de convocação do líder da Contag para uma CPI marca uma guinada narrativa no filme.É o primeiro momento em que Bolsonaro vira um personagem. Vocês terminaram a montagem em abril, quando ele tinha de 10 a 12% das intenções de voto. De alguma maneira, o filme antevê um crescimento maior que ele viria a ter. Então eu queria que você falasse sobre isso: como lidar com um personagem como esse? Você achava que a um mês da eleição ele estaria liderando as pesquisas?

Não sei se há muito mérito meu em ver isso. Acho que é uma coisa que seria percebida por qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade, tendo acompanhado o que estava acontecendo nas ruas, principalmente ali de Brasília, onde a turma do Bolsonaro era muito forte em 2016 e continua sendo.

A gente pegou o lançamento da candidatura dele, o que foi legal. Mas a coisa era principalmente estar na rua, ver aquelas pessoas que nem aparecem tanto no filme, mas são pessoas que veem passar quatro universitários e xingam eles de maconheiros, baitolas e comunistas. E que são as pessoas que andam com uma caixinha de som e microfone dizendo “Dilma, eu vou te machucar!” E são aquelas pessoas que, durante o voto do Jean Wyllys, xingam ele de “bichona” e fazem assim, como quem vai bater nele. Então é basicamente entender: esse ímpeto encontrou um representante.

E não era 10%, estava claro desde aquela época. Uma coisa que se tornou clara desde o dia de exibição é “como a gente flagra, com algum sucesso, a subida dessa onda fascistóide, de ódio pelo que é diferente de você, que o Bolsonaro representa”. A gente não tinha números pra saber a relevância dela, mas ela é muito patente. Como equipe, a gente se olhava: “Cara, o que está acontecendo? Que porra é essa?” Quando você filma um homem negro xingando uma mulher negra de “lixo, bandida”. Quando você vê um grupo de pessoas rindo quando Jandira Feghali está votando, chamando ela de sapatona. Quando você vê esse mesmo grupo chamando o Jean Willys de bicha preta, dizendo que vai dar porrada, há uma processo ali que você vê e fala “cara, eu não achava que isso fosse possível acontecer hoje em dia.” E é.

Então tem uma mão na luva. O Bolsonaro tem que entrar daquele jeito porque a galera já está daquele jeito, e aquilo foi uma força muito grande do impeachment, aquele ódio todo, o vácuo que acontece com toda essa articulação política, que o PSDB não colheu os frutos dela. O que eles conseguiram foi esvaziar o campo para um cara como o Bolsonaro estar a dois passos da presidência. Então a gente acabou retratando isso. Espero que não seja profético.

 

Eu queria que você falasse do outro momento do Bolsonaro no filme, que é o momento da votação do impeachment. Claramente há uma centralidade dele naquele momento na narrativa do filme. Então, queria que você falasse sobre duas questões que devem ter passado pela montagem: como mostrar aquela votação, tão presente na memória coletiva, e como situar o Bolsonaro no meio dela?

Bolsonaro tem um talento enorme, que a gente precisa reconhecer. Ele entende de comunicação de uma maneira animal, no sentido instintivo e espontâneo da coisa. Ele sabia, pois se relaciona com os deputados, que eles iam falar bestialidades em seus votos, e ele, não sei nem se conscientemente, achou uma bestialidade maior do que todos os outros pra comentar naquele dia. Ele sabia que a média ia ser “pela minha família, pela minha avó, pelo meu cachorro, pela igreja”. Ele sabia que aquilo ia acontecer e pensou: “como eu me sobressaio diante disso?” Elogiando um torturador. Existe um talento amoral pra comunicação no Bolsonaro. E não à toa o voto dele está no filme junto com outros que acho importante, para se contrapor.

Um dos desafios era como não perder as pessoas que acompanharam o processo político e viram aquele dia. Enfim, eles já viram aquele dia, é dolorido para qualquer pessoa com um mínimo de consciência progressista no Brasil hoje. Então, como é que a gente não perde aquelas pessoas que estão com a gente, que vão dizer “ai, que saco, já vi isso”, e ao mesmo tempo mantém um registro que é muito necessário para quem hoje tem 14 anos e vai querer entender que merda aconteceu com o país em 2016.

E como é que a gente faz uma coisa artisticamente interessante, que eu acho que é a hora do canhão de confete do Wladimir Costa. Aquela é a hora daquele pirlimpimpim fascista que transforma tudo. Na cabeça do filme, que às vezes nem é a minha, aquilo ali é a hora em que se consuma que a democracia virou fumaça, virou um bando de confetinho indo embora. Tá todo mundo perdido naquele delírio louco. Essa sequência deve mundo a uma estética de videoclipe, de banda de rock, foi chupado de uma música do REM.

 

Por que não aparece o cuspe do Jean Wyllys no Bolsonaro?

O cuspe do Jean até onde eu tenho claro não aparece no material da TV Câmara. A gente poderia ter pego no material dos Bolsonaros, mas na época em que a gente estava montando o cuspe do Jean estava sendo usado contra o Jean. Embora eu não tenha cuspido no Bolsonaro, eu entendo todas as razões do Jean ter cuspido no Bolsonaro. Não tenho a menor vontade de expor o Jean naquele momento. Botando o Jean cuspindo no Bolsonaro eu ia botar dois deputados se cuspindo, em vez de dar espaço para a articulação mental e para a cabeça política que o Jean tem. Então é uma opção, acho que há outras opções igualmente certas.

 

Queria falar da cena da CPI, que me parece uma cena chave. Vejo como a cena da imobilidade da esquerda. Uma cena em que a derrota está consumada e a pessoa tem que ficar ali ouvindo quieta, de cabeça baixa, a todas aquelas barbaridades que eles estão falando. É para mim um ponto de guinada narrativa no filme. Comparando com O Processo, a partir dali os dois filmes se aproximam. É quando Excelentíssimos volta para a defensiva, assume o discurso da derrota…

Não vejo como a gente poderia terminar um filme de maneira vitoriosa nessas circunstâncias. Não tem vitória, não tem final feliz. Sobre a CPI: a sua visão não está errada e a minha não estará certa. Mas, como eu vejo aquela cena, me parece brutal que os deputados que foram eleitos pelo povo tenham um poder de convocar uma pessoa, poder inclusive de prender o Aristides se eles quisessem. Aquele cara da Contag poderia sair dali algemado pra cadeia, não fosse o habeas corpus. Eu acho brutal ver deputados levantando a vida de um cara, sabendo a placa do carro, sabendo o endereço dele. Aquilo ali não é coisa de deputado, aquilo ali é coisa de policial, aquilo ali é coisa de milícia. A brutalidade do que eles fazem com o cara só porque ele subiu no palco e falou: “estávamos comentando na passeata dias atrás que se continuar assim a gente vai invadir o gabinete deles.” E eles falarem aquilo, apontando na cara dele, “você é bandido, aparece na minha frente que eu vou te dar um tiro!”

Acho que as explicações não se excluem, mas enquanto você vê essa coisa da gente de cabeça baixa e ele dizendo “não, vou me declarar”, eu vejo um cara se defendendo com a única arma que ele tem, falando assim: “se eu falar qualquer coisa aqui, esses caras vão me crucificar”, e esses caras estão com sangue nos olhos. Aquela turma passa pano pra quem mata índio, invade reserva…

Se eu precisasse resumir o Excelentíssimos a uma cena, eu acho que é aquilo ali. O nosso Congresso é aquilo ali. E num certo momento essa cena já foi muito maior. Aqueles 13/15 minutos excruciantes daquela cena foram uma hora e meia daquele cara dizendo: “por instrução dos meus advogados eu não vou me declarar!”, e os caras falando aquelas barbaridades pra ele. Uma coisa que em teoria não tinha a ver com o impeachment. Mas tem. Porque tudo tinha.

 

A conclusão do filme é bem parecida com a de O Processo, enxergando a prisão de Lula e o impedimento de ele se candidatar como último ato daquele processo. Você enxerga assim?

Eu acho que é o último ato daquele processo; quer dizer, não é o último porque aquele processo não acabou. Mas eles tomaram todas as providências para que eles ganhassem em 2018. Eles criaram um governo fantoche do PMDB, que usariam como trampolim, e o Temer ficaria ali esquentando a cadeira pro Aécio, e aí o Aécio dá no que dá, e o Alckmin dá no que dá.

Eles tomam todas as providências. Primeiro tiram a Dilma para criar esse governinho fantoche para chegar bem nessa eleição, e não dá certo. Acham que com um bando de denúncias sobre o Lula ele vai perder intenção de voto: não dá certo. Botam ele na cadeia e a gente tá sabendo hoje em dia que não dá certo. Enfim, acho que não tinha muito fecho pra esse filme. São várias providências que eles tomam pra poder tirar a oposição do caminho. O que a gente tá vendo é isso. E tudo sempre com uma retórica legalista, de “estamos fazendo cumprir a lei”. Daqui a pouco eles vão arrumar uma lei para queimar a Constituição.

Não estou dizendo que Lula é um santo. Ele claramente não é um santo. Não acho que o que ele fez é grave numa democracia. Se você for ver, nos EUA, o dinheiro que os ex-presidentes arrumam para suas bibliotecas e arquivos e fundações, o dinheiro que o próprio Fernando Henrique tem para o Instituto dele não é nada muito diferente do que aconteceu com o Lula para criarem esse forró que se criou em torno da figura dele.

 

Durante o mandato da Dilma houve uma repressão muito forte aos protestos e movimentos sociais, inclusive com a aprovação da lei antiterrorismo. Nesse sentido, fico incomodado com a sugestão que tanto O Processo – de maneira mais explícita – quanto o seu filme fazem de que houve uma grande insurreição popular contra o governo Temer, sem contextualizar uma repressão anterior.

Os filmes podem lidar com um conjunto limitado de coisas. Nesse filme, e é com alguma auto-ironia que eu vejo isso, eu retrato como vítimas pessoas que em 2013 eram algozes: Dilma e José Eduardo Cardoso comandaram uma repressão brutal contra algumas pessoas específicas no Rio de Janeiro, para que eles servissem de exemplo e parassem de encher o saco de um aliado político que é o Sérgio Cabral. Inclusive estou aqui em Brasília começando a abrir uma série sobre esse processo.

É difícil, isso não fica totalmente claro no filme, essa contextualização de que o feitiço virou contra o feiticeiro. Não sei também como eu conseguiria deixar claro, acho que eu teria que retroceder mais nesse tempo e falar “olha, que ironia, o que está acontecendo com vocês foi a mesma coisa que vocês fizeram dois anos atrás, e logo vocês, logo contra quem vocês fizeram.” Vou ter que me haver com isso.

 

Outra coisa que me incomoda em O Processo, e aí não tem tanto a ver com o seu filme, porque você foi à Câmara, é como os filmes ignoram o fato de ter havido uma segunda votação no Senado, em que foram mantidos os direitos políticos da Dilma…

Mas isso se deve à noção que os próprios políticos têm de que o que eles estão tocando adiante é uma farsa. “A gente sabe que pedalada não é bem uma razão para destituir a Dilma, mas vamos deixar os direitos dela.” De gambiarra em gambiarra a gente vai dando diversas rasteirinhas no sistema, mas a gente aplaca um pouco a coisa.

 

Mas é justamente essa complexidade que eu acho que poderia resultar em um bom material cinematográfico. É uma coisa que tensiona o discurso dos dois lados. Quem acha que o impeachment seguiu estritamente as normas jurídicas diz que foi ali que a Constituição foi rasgada; é uma ironia que poderia ter sido explorada. Eu fico muito interessado em saber como se deu essa negociação.

Aí acho que você teria que fazer um filme sobre um dos maiores e mais centrais personagens da nossa política recente, que é o Renan Calheiros. Alguém que consiga fazer um documentário entrando na cabeça de Renan Calheiros e alguém que consiga fazer um documentário entrando na cabeça de Romero Jucá vai entender o que é a política do Brasil no último meio século. Mas acho impossível que esses documentários sejam feitos.

 

*O repórter viajou a convite da organização do 51º Festival de Brasília