A exibição do documentário Todo Mundo Tem Sua Cachaça, na última segunda-feira (2), durante a 9ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, foi provavelmente a única que o filme terá em festivais pelo Brasil. Ao menos essa é a intenção atual do diretor João Dumans, que só escolheu se inscrever na mostra mineira por acreditar que teria sentido exibir o média-metragem para as pessoas daquela região.

Dumans passou a infância em Ouro Preto e só saiu da cidade no final da adolescência, quando foi estudar na capital mineira. Durantes os anos de juventude, ele acompanhou de perto a paixão de seu pai, Dimas Guedes, pela fotografia. “Fui criado em meio a lentes e câmeras. A parede de nossa casa (em Ouro Preto) é ainda hoje cheia de fotos do meu pai, então de certa forma isso formou o imaginário dos meus irmãos e de mim”, contou o diretor ao Cine Festivais durante a 9ª CineOP.

O ingresso de Dimas Guedes na área da fotografia se deu no fim dos anos 60, quando entrou em contato com jornalistas e fotógrafos do Jornal do Brasil que estavam em Ouro Preto de passagem. De posse de uma câmera, ele chegou a vender fotos da região para publicações da imprensa, mas não chegou a se tornar um profissional.

Os cliques em suas máquinas fotográficas, entretanto, nunca cessaram, e o trabalho de algumas décadas teve a sua primeira grande exposição em Belo Horizonte no primeiro semestre deste ano, no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia. Organizador dessa mostra, o filho e cineasta João Dumans percebeu que as fotos traziam personagens cujas histórias eram conhecidas por Dimas. Veio daí o documentário Todo Mundo Tem Sua Cachaça.

“Meu pai tem uma memória muito boa e sempre conta histórias sobre esses personagens que fotografou. O vídeo surgiu quase como um complemento a essa exposição que fizemos em Belo Horizonte. Passamos as fotos e ele vai comentando as histórias daquelas pessoas; disso vão surgindo micronarrativas. Cada uma dessas vidas tem um drama em potencial, quase um esboço de ficção”, diz Dumans.

O rosto de Dimas Guedes só aparece no final do documentário, quando uma fotografia dele com uma câmera na mão é mostrada. Durante todo o filme, há apenas uma imagem panorâmica da cidade de Ouro Preto que é seguida pela exibição de uma série de fotos que Dimas realizou naquela região. Além do fotógrafo, podem ser ouvidas as vozes de Cláudia Guedes, da cineasta Marília Rocha e do próprio Dumans.

Sobre o título escolhido para o filme, o diretor explica que ele pode ter dois sentidos: “O fator alcoolico é uma característica ouro-pretana e também é algo muito forte na vida dos personagens retratados no filme. Alguns deles morreram por complicação de bebida ou tiveram a vida desarrumada por causa dela. Por outro lado, o título também tem a ver com essa coisa de que cada um dos personagens tem uma historia. Por mais simples que sejam as suas vidas, elas sempre têm uma particularidade”.

 

* O repórter viajou a convite da 9ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto

 

Foto: Leo Lara/Universo Produção