A safra recente do cinema paranaense tem retratado com alguma constância a questão dos expatriados. Nas ficções, esse foi o caso de um haitiano em O Estacionamento (direção: William Biagioli) e de um chinês em A Canção do Asfalto (direção: Pedro Giongo). Pela via documental, o filme A Casa de Lucia, dirigido por João Marcelo e Lucia Luz, trata da vida de uma refugiada síria sem associar esta temática a questões como a pobreza e o subemprego.

O documentário fez a sua estreia mundial durante o 6º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba – e será exibido neste domingo (25), às 19h, no CIneSesc, em São Paulo, como parte da mostra “Olhares sobre o Refúgio”, promovida pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

No filme, Lucia registra sua ida ao Kuwait para reencontrar os pais após dois anos sem vê-los. As imagens captadas mostram momentos de intimidade com a família. “Ela é uma estudante de arquitetura, é linda, tem uma família super feliz, aparece super produzida nas festas… E você fala: ‘como assim essa pessoa é uma refugiada?’”, comenta o diretor João Marcelo, que desde o começo do projeto tinha a intenção de fugir de estereótipos.

Na entrevista a seguir, concedida ao Cine Festivais durante o 6º Olhar de Cinema, o diretor João Marcelo falou sobre o processo de produção de A Casa de Lucia.

 

Cine Festivais: A Lucia ficou conhecida por ser a primeira refugiada a conseguir transferência e concluir o curso em uma universidade brasileira, mas seu filme só cita isso no final e não a coloca como alguém especial por causa disso. Como você entrou em contato com ela e por que teve essa opção de não dar relevo a esse fato?

João Marcelo: Em 2010 eu fiz um curta-metragem sobre refugiados, chamado Vidas Deslocadas, que era sobre um casal de palestinos que mora no Rio Grande do Sul. A partir daí passei a pesquisar sobre o assunto e montei um projeto para uma série documental a respeito de refugiados no Brasil. Pesquisando o assunto eu dei de cara com a história da Lucia, e achei interessante essa questão de ela ter conseguido transferência para uma universidade daqui (UFPR) e isso ter dado início a um programa oficial de recebimento desses estudantes refugiados.

Ao longo de 2015 a gente se encontrava pelo menos uma vez por mês, e eu fui tentando entender quem ela era, de onde veio, como que eles estavam se adaptando aqui. A questão de ela ser estudante de arquitetura tinha nessa pesquisa um certo peso; eu imaginava que poderia haver situações interessantes para serem filmadas na faculdade.

Aí veio a questão da viagem dela, que foi algo muito repentino. Um dia, em um almoço, a Lucia veio falar comigo que precisava ir para o Kuwait, se não iria perder o visto de entrada lá. Eu não entendi nada, porque ela nunca tinha mencionado que nasceu no Kuwait e que os pais moravam lá. Em um domingo ela falou comigo, e no sábado seguinte ela já tinha embarcado.

Eu achei que isso poderia ajudar a contar a história dela. Tive alguns dias para me programar e traçar um plano A e um plano B. O plano A era eu ir junto com ela, o que não aconteceu porque não consegui o visto. O plano B era que ela mesma se filmasse, e essa saída foi me interessando cada vez mais. Fui entendendo que poderia ser um caminho melhor.

 

Como acha que o filme seria se você tivesse conseguido o visto?

Se eu fosse para o Kuwait acho que haveria uma narrativa mais tradicional, porque eu teria o controle um pouco mais em minhas mãos. Quando fomos para o plano B eu conversei bastante com ela falando sobre os momentos-chave que eu achava que deveriam ser registrados. Essa pegada foi me agradando mais, já que estando lá eu seria um completo estranho para a família dela.

 

E como foi a relação da família com a ideia do documentário?

A família nunca se opôs a nada em nenhum momento da filmagem. Depois que houve a filmagem feita pela Lucia no Kuwait, a gente sentou para assistir a uma primeira montagem bem bruta do material. Estava também presente o Abed, marido da Lucia, e nessas conversas havia um desejo, que também era meu, de que a realidade deles em Curitiba fosse introduzida.

No processo de montagem nós sentamos para ver o filme com a Lucia e o Abed algumas vezes, até chegarmos ao corte final. Não era uma coisa de aprovação, mas havia toda uma questão ética envolvida. Eles já estão em uma situação delicada, então eu não iria colocar coisas que efetivamente pudessem prejudicá-los, mas, por outro lado, eu tinha que ter um filme.

Houve algumas coisas que eu não abri mão, e em outros casos topei amenizar questões, mas acho que no fim o filme revela muitas coisas importantes. As discussões não eram só sobre coisas maiores. A cena da Lucia se filmando com a irmã, na qual elas estão cantando, eu achava importante por mostrar uma relação de intimidade que só se poderia se dar entre elas. Sobre questões políticas, houve coisas que tive que negociar. Havia, por exemplo, um incômodo grande com o fato de o Kuwait não ter apoiado os refugiados sírios.

 

Seu documentário foge dessa associação imediata entre o tema dos refugiados e a questão da pobreza. Isso foi pensado?

Foi uma coisa que eu sempre quis para o filme. A Lucia tinha uma vida muito boa antes do conflito. A Síria era um país que dava boas condições de vida para a maioria dos habitantes, e com eles não era diferente. Ela é uma menina de classe média alta, teve boa educação, continuou estudando quando chegou ao Brasil… Claro que aqui em Curitiba a vida não é fácil, mas eles não têm uma condição de grande dificuldade.

A palavra “refugiado” traz uma carga muito grande. A imagem que se divulga é a do campo de refugiados, da cerca, das pessoas chegando pelo mar. É claro que isso acontece com muita gente, talvez com a maioria dos refugiados, mas eu não queria seguir por esse caminho.

Um dos motivos dessa escolha é o de tentar tocar as pessoas de uma outra maneira. Você olha na rua para uma pessoa excluída e passa reto, nem pensa naquilo. Quando a pessoa tem uma vida mais parecida com a nossa, a situação muda. A família da Lucia exprime isso de forma bem forte. Ela é uma estudante de arquitetura, é linda, tem uma família super feliz, aparece super produzida nas festas… E você fala: “como assim essa pessoa é uma refugiada?” Era essa a intenção, de fugir desse estereótipo padrão, até numa tentativa de mostrar que qualquer um pode passar por uma situação semelhante.

 

Depois que você terminaram a primeira montagem só com as imagens do Kuwait, do que sentiram falta?

Para essa segunda etapa algumas coisas eram necessárias, como as filmagens deles em Curitiba, mas eu também não queria abrir uma outra porta para o dia a dia deles, achava que que isso fugiria um pouco das questões que estavam colocadas até então pelo filme.

Na primeira parte eu sinto uma distinção entre as imagens com a família, que têm bastante espontaneidade, e as conversas por Skype comigo, que são quase um confessionário em que ela vai relatando a viagem e o incômodo que começa a perceber quando sente que sua liberdade está restringida no Kuwait.

Eu sentia falta de tocar mais nesse assunto da saída deles da Síria, um fato que estava só indicado anteriormente. Só algum tempo depois que ela me falou que tinha imagens da Síria no computador deles, e eu pedi para eles separarem. A gente ficou três horas vendo imagens da Lucia e do Abed, desde que eles se conheceram. Tinha muitas outras coisas que não entraram no corte final porque achei que não cabiam no filme.

Acho legal que as fotos e os vídeos também foram feitos por eles. Embora eu estivesse filmando ali, ainda assim as imagens foram produzidas por eles. Eu já tinha essa ideia de tentar manter a mesma pegada imagética da primeira parte; não queria ter um domínio total sobre o filme, queria deixar isso na mão deles. E essas imagens foram super importantes para que isso acontecesse.

 

*O repórter viajou a convite da organização do festival