“A maioria dos diretores, principalmente os estreantes, fala sobre assuntos muito pessoais. Talvez eles disfarcem melhor do que eu”, opina o diretor Fellipe Barbosa quando questionado sobre as inspirações autobiográficas de Casa Grande, seu primeiro longa-metragem.

Quando cursava mestrado em cinema nos EUA, no início dos anos 2000, Fellipe não pôde vivenciar a situação de crise financeira pela qual passou o seu pai no Brasil. “O roteiro é uma fantasia do que teria sido se eu estivesse presente naquele momento”, explica o diretor.

Casa Grande estreou neste ano no Festival de Roterdã, na Holanda, e já foi exibido em mais de 20 eventos. Em solo nacional, o debute aconteceu no Festival de Paulínia, no qual ele recebeu quatro prêmios (ator e atriz coadjuvantes, roteiro e Especial do Júri). Depois de ser escolhido como melhor filme pelo júri popular no recente Festival do Rio, o longa-metragem será exibido na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (veja abaixo as datas das exibições).

O filme conta a história de amadurecimento de seu protagonista, o garoto Jean (Thales Cavalcanti). De família rica do Rio de Janeiro, o personagem está prestes a fazer o vestibular e ainda inicia os seus primeiros relacionamentos amorosos, enquanto seu pai (Marcello Novaes) tenta esconder a piora de sua situação financeira. De modo sutil e bem-humorado, o roteiro explora questões de classe e privilégio na sociedade brasileira, em ponto que remete a filmes como o recente O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho.

Em entrevista ao Cine Festivais, Fellipe Barbosa falou sobre o processo de criação de Casa Grande e trouxe as suas opiniões sobre as questões levantadas pelo filme.

 

Cine Festivais: Como se deu o processo de criação do filme? O que há de autobiográfico no roteiro?

Fellipe Barbosa: Comecei a escrever esse roteiro a partir de 2007. Quatro anos antes, algo semelhante com o que ocorre no filme aconteceu com meu pai, que teve uma perda súbita de dinheiro. Naquela época eu estava cursando mestrado em cinema nos EUA e não pude participar desse momento da minha família. Então o roteiro é uma fantasia do que teria sido se eu estivesse presente naquele momento.

O filme é uma grande ficção que lida com elementos reais. Há personagens muito parecidos com amigos ou pessoas da minha família. Recorri a exageros na caracterização de alguns, e em outros casos recorri a simplificações ou a uma combinação de elementos de várias pessoas. Falam muito disso (traços autobiográficos) sobre o Casa Grande, mas acho que a maioria dos diretores, principalmente estreantes, fala sobre assuntos muito pessoais. Talvez eles disfarcem melhor que eu. Ou talvez o filme tenha uma autenticidade que leve as pessoas a fazer essa pergunta.

 

CF: Por que você acha que o cinema brasileiro fala tão pouco sobre as classes altas? Quais filmes lhe inspiraram nessa abordagem?

FB: Acho que durante muito tempo o cinema brasileiro se voltou para os excluídos. Era uma preocupação legitima em um momento em que o pais enfrentava tantas diferenças sociais e que o próprio fazer cinematográfico era raro, como nos anos 90. Hoje em dia, uma vez que o povo está comendo, a gente pode começar a falar sobre outras questões, às vezes mais pessoais, que são importantes para os cineastas.

Escrever esse filme foi importante para mim. Achava que estava na hora de se colocar no próprio filme. Não fui o primeiro a fazer isso. Aqui no Brasil eu posso citar o Sergio Bianchi e alguns outros. Minha influência veio muito do cinema latino-americano, de filmes como E Sua Mãe Também (de Alfonso Cuarón), A Menina Santa (de Lucrecia Martel), Cama Adentro (de Jorge Gaggero) e A Criada (de Sebastián Silva).

 

CF: Por que você optou por realizar planos longos e ter uma decupagem bem precisa, sem muitos cortes?

FB: Sempre quis fazer assim não só por uma questão de estilo, mas principalmente porque o plano longo realça uma certa teatralidade na qual eu estava interessado para contar a historia dessa família. Não estava preocupado com o impacto de uma cena específica, mas  com aquilo que o acúmulo de cenas iria gerar no espectador.

Outro motivo, que também é importante, é que eu queria que os planos ajudassem a contar a história da casa. Ao repetir cenas de locais específicos, só que com algumas informações diferentes, eu queria colocar o espectador mais dentro do jogo do filme e fazê-lo entender visualmente o que está acontecendo na história.

 

CF: Como você define o humor de seu filme?

FB: É uma comédia de costumes que se apoia em um exagero sutil, em sempre colocar um degrau a mais nas situações. Tento fazer isso, talvez sem muito sucesso, na cena do churrasco. Acho que planos mais longos e abertos favorecem a comédia, porque colocam o espectador em um lugar mais objetivo, podendo rir daquela situação em vez de estar dentro dela. A própria teatralidade ajuda na comédia. Outro aspecto é que eu não acho quase nada engraçado nas comédias brasileiras que tem por aí, então, de certa maneira, o filme era uma reação a isso.

 

CF: Por tratar de privilégios de classe e de relações sociais aparentemente modernas que transbordam traços de arcaísmos, o filme me lembrou um pouco O Som ao Redor. O que você tem a falar sobre isso?

FB: Adoro o Kleber. Sou mega fã de O Som ao Redor, acho um filme miraculoso no nosso cenário. A gente dialoga muito desde que voltei ao Brasil, em 2008. Ele foi decisivo para dois ou três cortes que fiz no Casa Grande e me ajudou a repensar totalmente o final.

Acho que a coisa mais importante de destacar como semelhança é o fato de que ele fala sobre a rua dele e eu falo sobre minha antiga casa. Fora isso, ambos têm um fundo sociológico, mas meu filme é mais de personagem e o dele é sinfônico, formalmente mais ambicioso do que o Casa Grande, que por sua vez é clássico e narrativo.

 

CF: Casa Grande, assim como O Som ao Redor, trata de diversos temas através das entrelinhas, mas há uma cena (a discussão sobre cotas) que destoa dessa opção. O que você pensa sobre isso?

FB: As pessoas falam muito dessa cena. Acho que o discurso que está lá não é meu, e sim do personagem. É uma fala que tem umas falhas, uns problemas, mas o que mais me interessou ali foi expor um certo teatro que é essa discussão sobre cotas. Ninguém está a fim de ouvir e discutir com o outro nesse quesito, todos repetem a mesma cartilha de opiniões formadas. A cena é sobre como o Jean vai se colocar. A questão é se ele vai defender a namorada ou vai ficar do lado do pai.

Os personagens que representam os dois lados da discussão repetem opiniões que ouvimos constantemente nos almoços de família. Queria expor esse teatro. Não tinha a intenção de defender ou atacar as opiniões. De fato, ali as coisas ficam mais verbais mas já estava na hora. Depois de 1 hora e 25 minutos de filme, em algum momento eu tinha que ir pro verbo. Como você citou O Som ao Redor, essa cena lembra o momento da reunião de condomínio no filme do Kleber. Ali a coisa é um pouco mais sutil do que no meu filme, mas quase tudo é dito. Essas cenas têm uma função dramática semelhante.

 

Sessões de Casa Grande na 38ª Mostra de São Paulo

- Dia 18/10, às 20h, no Reserva Cultural 1

- Dia 20/10, às 17h, no CineSesc

- Dia 27/10, às 14h, no Cine Livraria Cultura 1