Em um festival que apresenta em parte da sua programação um recorte temático sobre o cinema brasileiro durante o último período da Ditadura Militar, o filme que mais gerou debates, políticos e de outras naturezas, foi aquele que, pela particularidade de sua proposta, depende radicalmente da forma de exibição e da visão de mundo do espectador para que as suas múltiplas possibilidades reflexivas sejam explicitadas.

A sessão de Um Dia na Vida na noite de sexta (24) na 11ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto foi a primeira exibição “oficial” do trabalho desde o falecimento de Eduardo Coutinho, em 2014. As aspas utilizadas na frase anterior fazem sentido porque o filme não tem autorização para ser exibido comercialmente, graças a questões de direitos autorais.

Filme mais peculiar da filmografia de Coutinho, o trabalho nasceu da gravação ininterrupta de cerca de 19 horas da programação de diversos canais da TV aberta brasileira em outubro de 2009. A partir desse material surgiu o corte de uma hora e meia do documentário, que até o falecimento do diretor só era exibido com a sua presença no local para um debate posterior.

Seguindo a concepção do documentarista, a CineOP promoveu neste sábado (25) um debate sobre Um Dia na Vida que contou com a mediação do curador Francis Vogner dos Reis e as participações de Cezar Migliorin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Consuelo Lins, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e João Moreira Salles, cineasta e produtor de filmes de Coutinho a partir de 1999. Ao contrário da sessão no Cine Vila Rica, que estava bem aquém da sua capacidade de lotação, a conversa pós-filme lotou a sala do Centro de Convenções.

Em sua fala inicial, Consuelo relacionou as imagens do documentário com os tempos políticos atuais. “Vejo um diálogo desse filme com a sessão (da Câmara dos Deputados) que votou o impeachment da Dilma; acho que aquela transmissão foi uma espécie de contraplano de Um Dia na Vida”, opinou Consuelo.

Cezar destacou a frontalidade do discurso televisivo. “A preservação é ali entendida como uso extensivo do botox ou da pena de morte. Como diz o pastor, se é verdade, é verdade e ponto final. Há um esfacelamento da crítica, tudo está às claras. É no fora de quadro que Um Dia na Vida existe; por isso, vem a necessidade da fala, da reflexão, da crítica”, disse.

Já João Moreira Salles aproveitou o longo período de convivência com Coutinho para contar sobre as motivações do amigo à época da realização de Um Dia na Vida. Tal como diz o letreiro inicial do documentário, o diretor tinha a intenção de utilizar aquelas imagens como objeto de pesquisa para um novo filme, em que as cenas seria reinterpretadas por atores, como em Jogo de Cena. No entanto, a ideia não foi para frente.

“O Coutinho chegou à conclusão de que esse novo trabalho seria uma diminuição da experiência real do que já existia. Não dá para fazer o papel de um pastor melhor do que o pastor verdadeiro. Ele me dizia que os pastores são ‘atores extraordinários’. Além disso, ele não faria nunca o filme em uma chave irônica, olhando de cima para baixo, com o objetivo de fazer galhofa”, contou.

João Moreira Salles trouxe para Ouro Preto dois cadernos nos quais Coutinho guardava classificados curiosos de jornais e até páginas arrancadas de livros, prática à qual ele recorria quando queria separar partes que lhe interessavam. Uma das preciosidades, que provocou risos da plateia, é um anúncio de um detetive particular coletado pelo documentarista no mesmo dia em que captou as imagens de Um Dia na Vida.

Nessas pequenas lembranças trazidas à tona transpareceu no debate um dos motivos para que o cinema de Eduardo Coutinho fosse tão particular. “Ele tinha uma curiosidade avassaladora, não havia nada que não o interessasse”, resumiu João.

 

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>>> Texto sobre Um Dia na Vida

>>> Cobertura da 11ª CineOP

 

*O repórter viajou a convite do festival

 

Foto: Alexandre Mota/Universo Produção