Naquele 22 de maio de 2016, as máquinas de fotógrafos do mundo inteiro se voltaram por alguns segundos para o diretor brasileiro João Paulo Miranda Maria. Na transmissão da TV francesa para o último dia do 69º Festival de Cannes, mais tradicional evento cinematográfico do mundo, o apresentador arranhava o português tentando pronunciar o nome do vencedor da Menção Especial do Júri entre os curtas-metragens: A Moça que Dançou com o Diabo. Com olhar compenetrado, esboçando um leve sorriso sem mostrar os dentes e de posse dos inseparáveis óculos de aros maiores e mais arredondados que o comum, João Paulo ergueu o braço esquerdo e cerrou o punho. Ele parecia marcar, com o ato, a consolidação de uma improvável trajetória, que neste dia 8 de setembro ganha mais um capítulo com a exibição de seu novo curta-metragem, Meninas Formicida, no também histórico Festival de Veneza.

O simbolismo do tradicional gesto de luta, contudo, não passava pela cabeça dele naquela hora. João Paulo se encontrava mais preocupado com o sumiço do diploma que atestava o prêmio recém-recebido. “Eu estava bastante nervoso porque não conseguiam achar o meu ‘canudo’. Como não tinha nada para segurar, precisava fazer alguma pose. (O gesto) Foi algo que veio na hora. Estava explodindo por dentro, de tão forte que estava sendo aquele momento”, recorda.

Cinco dias antes, a equipe do longa-metragem Aquarius, dirigido por Kleber Mendonça Filho, havia feito um protesto erguendo cartazes contra o então recente afastamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado Federal. Pela recepção majoritariamente positiva da crítica internacional, esperava-se que Kleber voltasse a passar pelo tapete vermelho no dia de encerramento, fato que não ocorreu. Sem a notícia aguardada, jornalistas brasileiros não procuraram João Paulo na zona mista (corredor reservado para entrevistas) nem fizeram perguntas para ele na rápida coletiva de imprensa dos vencedores.

Nas redes sociais, que ainda repercutiam os protestos de Aquarius sob o pano de fundo da rápida extinção e recriação do Ministério da Cultura (Minc) pelo governo interino de Michel Temer, grupos conservadores como o Movimento Brasil Livre (MBL) elegeram A Moça que Dançou com o Diabo como o antípoda do trabalho pernambucano. “Filme que foi financiado por rifa venceu em Cannes; Aquarius, que teve milhões em verbas do Minc, não. Ué?”, ironizava um post que trazia congratulações ao curta-metragem.

Conhecedor do trabalho de Kleber, um dos cineastas contemporâneos que mais admira, João Paulo se viu na obrigação de escrever um texto no Facebook em que destacava seu posicionamento contra o impeachment e negava ocupar o posto atribuído a ele pelo MBL. “Tentamos sem sucesso edital estadual para viabilizar o curta. Sabemos que existe esta oportunidade, mas a concorrência no estado de São Paulo é muito grande. Então, eu e minha equipe decidimos de todo modo fazer o filme, mesmo com orçamento baixíssimo. Fazer um filme nestas condições não pode ser visto como regra. Deve-se tentar buscar apoio financeiro, porque quem faz Arte tem que ser reconhecido, aqui no Brasil e em todo lugar”, dizia a publicação.

O orçamento do filme, realizado em Rio Claro, no interior paulista, foi oficialmente de R$ 500, valor proveniente de uma rifa feita com um quadro cedido pela mãe da diretora de arte Marina Butolo. Nada muito diferente do modo de produção dos trabalhos anteriores de João Paulo e do Kino-Olho, grupo criado por ele em 2006. A presença na competição oficial daquele que, além do mais reconhecido festival, também é o principal mercado cinematográfico do mundo, vem mudando aos poucos esse modus operandi.

Os produtores franceses Justin Pechberty e Damien Megherbi, da empresa Les Valseurs, assistiram ao curta A Moça que Dançou com o Diabo no festival e procuraram os brasileiros em seguida visando uma coprodução. “Sentimos que João tinha uma maneira única de contar uma história por meio do cinema. Ele gosta de construir camadas de entendimento, brincar com os detalhes e criar rupturas radicais com o intuito de fazer os espectadores entenderem a história ao mesmo tempo em que várias lacunas são deixadas deliberadamente na narrativa”, dizem. Depois de serem apresentados a uma ideia engavetada há anos pelo cineasta, Justin e Damien toparam a empreitada e, seis meses depois, estavam em Rio Claro para as filmagens de Meninas Formicida.

 

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João Paulo nasceu em Porto Feliz em 1982, mas se mudou ainda criança para Rio Claro – cidade também localizada no interior paulista. Ali, os pais José e Sonia abriram o Restaurante La Picoletta, onde, a partir dos 14 anos, o primogênito entre os três filhos passou a contribuir como garçom e atendente de caixa. A paixão pelo cinema foi precedida pelo gosto pelo futebol e pelo desenho, mas aos 17 anos ele já tinha certeza do caminho profissional que iria seguir.

“No colegial eu tentei fazer um primeiro curta e chamei colegas da minha classe para atuar. Era uma história de um adolescente que sofria bullying, o cenário era tipo uma ‘festa da cueca’. Os colegas acharam tudo muito pirado, pensaram que eu queria fazer uma coisa pornô”, relembra.

O detalhe é que ele não tinha uma câmera, mas acabou conseguindo equipamento de graça com uma produtora local que gravava casamentos. Graças à falta de expertise na área, as filmagens nunca foram terminadas e o trabalho jamais ganhou conclusão, mas a história serve como prenúncio de duas coisas com as quais o cineasta se depararia constantemente em sua trajetória: escassas condições financeiras e incompreensão de moradores da cidade a respeito de seu trabalho.

Como é comum em muitos municípios brasileiros longe dos grandes centros urbanos, a chegada do vestibular também significou para João Paulo a escolha de uma nova cidade para morar. O Rio de Janeiro surgiu como caminho natural, muito por conta de uma experiência familiar. Localizada no município vizinho, a Fazenda Santa Gertrudes é conhecida por abrigar até hoje diversas gravações de telenovelas. Durante uma dessas produções, o pai de João Paulo ficou responsável pela alimentação da equipe e levou o filho para ajudar.

“Veio aquela ideia clichê de ir pra lá porque é onde se fazem as novelas e tem a Globo. Eu nem gostava de novela, mas pensava que era onde estava o dinheiro e que seria o local em que talvez eu pudesse viver fazendo algo que gostava. Depois vi que não poderia criar ali a realidade que eu queria de cinema, e que eles também não teriam essa abertura”, conta João Paulo, que chegou a estagiar em produções globais como a série A Grande Família e o filme Lisbela e o Prisioneiro na época em que estudava cinema na faculdade particular Estácio.

No período em que esteve no Rio de Janeiro, João Paulo morava na zona oeste, perto de Jacarepaguá, e pegava ônibus para ir até a faculdade, localizada em um bairro mais rico, o da Barra da Tijuca. “Claro que fiz algumas amizades por lá, mas quem estudava na Estácio era, na maioria, um monte de ‘riquinho’. Eu não conseguia me identificar com eles, não tinha um diálogo. Foi por isso que eu naturalmente vi que aquele não era mesmo o meu grupo”, conta.

Sem conseguir – e nem desejar – se adaptar ao custo de vida e ao modo de trabalho carioca, ele retornou a Rio Claro, local em que tinha moradia e comida garantidas na casa dos pais, mas onde também necessitava lidar com a ideia de fracasso atribuída a quem retorna ao interior sem obter o sucesso esperado na metrópole. De volta ao lar, ele iniciou um projeto de mestrado na Unicamp (“se tudo desse errado, eu poderia tentar um concurso”) e entrou em contato com o centro cultural da cidade para organizar um cineclube no local. O embrião do grupo Kino-Olho estava posto.

 

O cineasta João Paulo Miranda Maria

 

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O centro cultural de Rio Claro leva o nome de Roberto Palmari (1934-1992), ator, roteirista, produtor e cineasta que filmou na região um dos seus longas-metragens, O Diário da Província, que tinha nomes de peso no elenco, como José Lewgoy, Gianfrancesco Guarnieri e Beatriz Segall. Apesar da referência cinematográfica no nome, o local não primava por uma programação cuidadosa no campo do cinema antes de 2004, quando João Paulo se voluntariou para programar ali um cineclube.

Entre os moradores da cidade é popular a história de que, ao ser chamado para desentupir o encanamento de um banheiro do centro cultural, um funcionário descobriu que o problema era causado por dezenas de camisinhas descartadas por frequentadores. Verdade ou não, o fato é que bem em frente ao local está a Escola Estadual Raul Fernandes Chanceler, o que propicia a vinda para o Roberto Palmari de alguns alunos que cabulam aulas e nem sempre estão interessados nas atividades oferecidas ali.

Nos primeiros meses de cineclube, alguns dos espectadores faziam parte deste grupo de estudantes mais interessados em namorar ou fazer chacota com os filmes do que em assisti-los e debatê-los. Com a recorrência da situação, João Paulo interrompeu algumas sessões e chegou a ser ameaçado em uma delas por um jovem que lhe mostrou que estava com uma faca. Mesmo assim, ele manteve o convite para que aquelas pessoas se retirassem da sala.

Com o passar do tempo e a insistência de João Paulo, o público das sessões semanais foi mudando de perfil. O que era apenas um cineclube passou a ser também um espaço de reflexão e produção audiovisual, atividades que logo se tornaram as principais do grupo. Utilizando câmeras caseiras ou de celulares levadas pelos próprios alunos, eles realizavam um filme a cada encontro, geralmente curtos, gravados em um único dia e feitos a partir de alguma discussão conceitual levantada pelo professor ou pelos participantes. A esse tipo de produção foi dado o nome de filme-ensaio.

As produções eram feitas partindo da elaboração do diretor a respeito de uma ideia de Cinema Caipira. “As pessoas às vezes confundem, acham que a gente é seguidor do (Amácio) Mazzaropi, mas o conceito vem da busca por olhar o que está em volta, as coisas simples, rotineiras, e encontrar o extraordinário dentro de situações ordinárias. Eu cansei de ouvir gente falando que um grupo de cinema em Rio Claro nunca daria certo porque a cidade não teria nada de interessante. A gente começou a ir contra essa maré e dizer que há coisas interessantes, sim, embora não de uma maneira clássica, bela. Buscamos retratar personagens rústicos, tortos, estranhos, que geralmente são ignorados”, explica.

Com conceito e modo de produção definidos, o coletivo ganhou nome em 2006: Grupo de Pesquisa e Prática Cinematográfica Kino-Olho. Era uma homenagem não só ao cineasta e teórico soviético Dziga Vertov (1896-1954), mas também ao Grupo Dziga Vertov, coletivo de inclinação maoísta criado por Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin nos anos 60 que foi tema da dissertação de mestrado de João Paulo na Unicamp.

O primeiro filme produzido oficialmente pelo coletivo foi uma adaptação do conto O Alienista, de Machado de Assis, protagonizada por pacientes do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) – entidade que atende adultos portadores de transtornos psíquicos severos e persistentes ou com neuroses graves. Uma das pessoas presentes na exibição ocorrida no Centro Cultural Roberto Palmari era Fernanda Tosini, que atualmente é produtora do Kino-Olho e esposa de João Paulo, com quem tem dois filhos. Ela estava ali para acompanhar a tia, que tem esquizofrenia e foi uma das atrizes do filme.

“Naquela época eu só o conhecia de vista, mas me chamou atenção a apresentação que ele fez. Eu nunca tinha visto na minha vida alguém falar do próprio trabalho com tanto amor e entusiasmo. Isso me tocou bastante. Foi uma coisa de ver a pessoa falar e achar bonito”, lembra Fernanda, que só viria a se aproximar novamente do Kino-Olho (e de João Paulo) em 2009, um dos anos marcantes para o crescimento do coletivo.

 

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“Mas o seu sonho é sair do interior e vir morar na capital, não é?”, perguntava a voz do outro lado da linha telefônica. A proposta vinha de uma produtora que oferecia a João Paulo um trabalho como diretor de filmes publicitários em São Paulo. O convite chegou na esteira da primeira premiação importante do Kino-Olho: em um concurso de vídeos gravados com celulares promovido pelo programa The Screening Room, da rede de TV americana CNN, o curta-metragem A Girl and a Gun, produzido pelo grupo de Rio Claro, foi o primeiro colocado e ganhou exibições na grade do veículo.

Àquela altura, João Paulo estava há cerca de cinco anos trabalhando voluntariamente em atividades no centro cultural. Com a repercussão internacional obtida devido à premiação, ele achava que era o momento de ser remunerado pelo trabalho. Foi assim que, ao ser convidado pela prefeitura para uma homenagem devido ao prêmio da CNN, ele preparou um projeto detalhando suas atividades, entre as quais também propunha levar oficinas audiovisuais para crianças locais.

“Chegando lá, eles estavam homenageando também uma casa de meias e um grupo de escoteiros com moções de aplauso. Quando me chamaram, eu fui o único a pegar o microfone e falei: ‘olha, acabei de receber um convite de São Paulo e realmente estou achando que vou ter que ir embora dessa cidade’”. Era um blefe, pois ele já tinha decidido recusar a proposta, mas o discurso chamou a atenção da então vice-prefeita, que providenciou a subvenção da prefeitura às atividades do Kino-Olho, um apoio anual que se estendeu até o fim de 2015.

No acordo estavam incluídas as atividades de formação promovidas pelo coletivo no centro cultural e em escolas municipais, além da criação de uma revista de crítica cinematográfica (Revista Cinema Caipira, que teve mais de 60 edições) e de um festival de cinema (FIIK, que teve sete edições). A prefeitura ainda exigia contrapartidas, como vídeos que documentavam obras e eventos promovidos pelo município, além de filmes para o arquivo público da cidade.

Para João Paulo, a relação com as autoridades da cidade sempre foi problemática. “Eles viam o Kino-Olho como empregado, não como um projeto que já tinha as suas obrigações. Essa coisa do cinema, dos festivais, nunca foi importante para eles, eles não entendiam aquilo. Lembro que um vereador veio dizer que seria mais importante passar um filme da Disney, oferecer pipoca e levar 200 crianças para assistir. Eles pensavam apenas no número, queriam que o projeto de cinema fosse aquilo. Então tinha uma certa humilhação, uma tentativa de diminuir o projeto’, diz.

No final de 2015, houve a aprovação de uma lei que agiu retroativamente nas prestações de conta para o município e fez com que as entidades culturais tivessem que se adequar ao novo modelo, pagando multas para gerar no ano seguinte as notas fiscais que até então não eram exigidas. Mesmo com o problema, o coletivo de cinema conseguiu regularizar sua situação, mas a subvenção não foi aprovada em 2016, alegadamente devido à proximidade das eleições. Em 2017, com a posse da nova gestão, novamente não houve iniciativa visando retornar o apoio ao projeto.

A reportagem entrou em contato por e-mail com a Secretaria de Cultura de Rio Claro com perguntas sobre o relacionamento anterior e atual com o grupo Kino-Olho, mas não obteve retorno até a data de publicação.

 

Espaço em Rio Claro em que as atividades do Kino-Olho começaram

 

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Em 2009, logo após o prêmio concedido pela CNN, a procura pelos encontros semanais do Kino-Olho aumentou bastante, chegando a resultar na ida de 40 interessados num único dia ao centro cultural. Além de Fernanda Tosini, quem entrou no grupo naquele ano foi Claudia do Canto, que viria a se tornar produtora e, recentemente, diretora.

Dois anos depois, quando o então adolescente Bruno Barrenha – atualmente estudante de cinema na Universidade Federal de Pernambuco – conheceu o Kino-Olho, as reuniões já não juntavam tanta gente, mas aconteciam com a mesma regularidade. Aos poucos, foi sendo formado um núcleo profissional, que viria a abrigar também nomes como Léo Bortolin (som), Thiago Ribeiro Pereira (diretor de fotografia), Sasá Carvalho (contrarregra), Diego Squissato (assistente de direção de arte e de produção), Rogério Borges (assistente de direção) e Marina Butolo (diretora de arte). Os dois últimos se tornaram diretores em projetos recentes do coletivo.

O grupo reúne pessoas de diferentes origens que, como admite João Paulo, dificilmente frequentariam os mesmos círculos sociais se não fosse o cinema. Há desde pessoas com estudos na área, como Léo e Bruno, até um engenheiro (Diego), um pintor/pedreiro (Sasá), professores de História (Thiago) e Geografia (Rogério) e uma profissional de moda (Marina). “Prefiro mil vezes pessoas que não tiveram nenhuma experiência e talvez pareçam ter um olhar inocente, mas que tenham muita vontade de fazer algo grande e não tenham medo de arriscar. Esse é o perfil de profissional que eu procuro. Não é a pessoa que vem com um olhar já pronto do que acha que é o bom gosto’, explica João Paulo.

De 2009 a 2014, o grupo produziu diversos filmes, mas poucos deles eram enviados para festivais. “Eu tinha aquela coisa da ‘síndrome de vira-lata’, de achar que não estava bom o suficiente”, confessa. Até então, as produções seguiam o modelo dos filmes-ensaio, que eram ligados mais a conceitos e à construção de atmosferas específicas do que a narrativas. O primeiro filme com o qual o grupo decidiu tentar alçar voos mais altos foi Ida do Diabo. A ideia era arriscar a sorte em algum festival internacional, e o primeiro nome que veio à cabeça dos membros do Kino-Olho foi o de Cannes.

 

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Por uma abordagem equivocada de veículos de comunicação, o Short Film Corner (SFC) virou motivo de chacota entre muitos profissionais de cinema. Em março e abril, sempre que se aguardam novidades a respeito da programação do Festival de Cannes, é comum encontrar matérias de veículos brasileiros dizendo que filmes participantes do SFC foram “selecionados para o Festival de Cannes”, o que é um equívoco.

A seção faz parte do mercado de cinema do evento, e não há uma seleção que vá além do pagamento da taxa de inscrição. Os filmes presentes no Short Film Corner são exibidos em computadores ou em pequenas cabines disponíveis para visualização dos frequentadores. Além disso, o cineasta que for ao evento pode participar de workshops e conferências de profissionais do setor, além de ter acesso a todas as exibições do festival.

A primeira ida de João Paulo a Cannes foi em 2014, justamente para o Short Film Corner. “Eu tive um choque inicial, certamente não era o que eu imaginava, mas eu não vejo como nenhuma desonra [estar no SFC]. No meu caso foi algo que me estimulou, porque pude assistir aos filmes que estavam na competição oficial, e foi aí que eu olhei para aquilo e pude desmistificar Cannes. Em vez de voltar cabisbaixo, eu vi que tínhamos capacidade de estar ali com os nossos filmes”.

Na volta para Rio Claro, o foco foi realizar produções que valorizassem mais a narrativa e deixassem em segundo plano o aspecto ensaístico. Veio dessa vontade o projeto de Command Action, curta-metragem filmado em três diárias na feira do Cervezão, localizada em um bairro popular da cidade. A história é a de um garoto que recebe dinheiro da mãe para fazer compras no local, mas se vê atraído a adquirir o brinquedo cujo nome dá título à obra.

Ao saber das filmagens do trabalho, o então secretário de cultura da cidade não entendeu a escolha do Cervezão como pano de fundo. “Ele me disse que seria melhor registrar o coral da guarda mirim da cidade, que ele achava uma coisa mais bonita”, lembra João Paulo. O conselho foi naturalmente ignorado e o trabalho acabou selecionado em 2015 para a Semana da Crítica, que é, junto com a Quinzena dos Realizadores, o evento independente mais tradicional ocorrendo paralelamente ao Festival de Cannes. Algo a ser notado, principalmente em eventos regidos por interesses não apenas cinematográficos, é que o cineasta garante que não tinha tido até então nenhum contato com representantes da Semana ou outras pessoas com poder de influência na seleção.

Fato é que João Paulo entrou no radar dos mais conhecidos festivais de cinema da Europa ao receber o selo da Semana da Crítica. No final de 2015 ele participou de um laboratório de roteiro na França, ainda a convite da Semana, em parceria com o italiano Torino Lab. No semestre seguinte, A Moça que Dançou com o Diabo, que retrata o cotidiano de uma adolescente filha de um pastor evangélico que descobre sua sexualidade em meio a um contexto de opressão religiosa, foi premiado com Menção Especial do Júri no Festival de Cannes, mesmo evento que no primeiro semestre deste ano selecionou o brasileiro para sua residência artística em Paris.

 

Imagem do filme Command Action

 

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“O Kino-Olho é mais uma família de cinema do que uma equipe de filmagem”, define o produtor francês Justin Pechberty. Ele esteve em Rio Claro há poucos meses para as gravações do curta-metragem Meninas Formicida, que tem como título um termo que se refere a jovens que trabalham aplicando pesticidas em reservas de eucalipto. Roteirista e diretor do trabalho, João Paulo utiliza o simbolismo da profissão retratada para trazer à tona reflexões sobre o machismo enraizado na sociedade brasileira.

Durante a produção do filme ficou evidente para os participantes do processo algumas diferenças entre os modos de trabalho dos franceses, ligado às práticas do mercado cinematográfico, e dos brasileiros, mais informal e calcado na ajuda mútua. “Nosso trabalho foi preservar a singularidade do coletivo ao mesmo tempo em que assegurávamos questões técnicas e de organização da melhor maneira possível. Acho que todos aprenderem muito durante esse processo”, comenta Justin.

Um exemplo deste choque esteve na filmagem de uma cena em frente a um bar da cidade. Os franceses queriam saber quem seriam os figurantes contratados, no que os brasileiros replicaram que quem estivesse ali faria parte da cena. “Para os franceses isso era muito diferente; eles queriam assinar antes os contratos com os figurantes. Mas o próprio modo de a gente trabalhar reflete nos filmes. Nesta mesma cena estava lá um senhor esparramado com a barriga para cima. A gente nunca iria encontrar uma pessoa daquele jeito se fôssemos contratar um figurante”, diz Rogério Borges.

A produção do curta precede o longa-metragem Casa de Antiguidades, que será dirigido por João Paulo e tem previsão de ser filmado na metade de 2018. O roteiro é centrado na figura de um personagem que está reservado para o veterano Antonio Pitanga. Ele é descrito como um senhor taciturno que trabalha no sul do Brasil em um grande laticínio e só consegue se comunicar com os animais. Ao descobrir uma casa abandonada, é estimulado a aflorar o eu lado instintivo e animalesco.

O filme terá coprodução de Brasil (Kino-Olho e Bossa Nova Films) e França (Maneki Films), e já ganhou suporte financeiro do Hubert Bals, um fundo de financiamento ligado ao Festival de Roterdã, na Holanda. Assim como já ocorreu com Meninas Formicida, algumas posições-chave da equipe devem ser ocupadas por pessoas indicadas pelos coprodutores, em comum acordo com o brasileiro.

Depois de uma trajetória marcada pela ida contra os caminhos fáceis e o senso comum, chegou o momento em que uma concessão como essa será feita com gosto por João Paulo.