Em um dos debates que participou após a exibição do filme Aqueles que Estão Bem na 41ª Mostra de São Paulo, o diretor suíço Cyril Schäublin ressaltou que os únicos personagens que aparentam uma felicidade genuína na obra são os imigrantes que aparecem confraternizando logo na primeira cena e depois não são mais mostrados. Tal fato reflete a maneira como o primeiro longa-metragem de Cyril capta um estado de tensão na sociedade europeia que favorece uma inútil eleição de bodes expiatórios para aplacar crises (sejam elas relacionadas a segurança, política ou economia).

“A França, a Suíça e outros países europeus tentam dizer que o problema está do lado de fora – na imigração, no terrorismo internacional –, e isso acaba sendo uma grande distração e nos afasta do que realmente deveríamos discutir, que é a desigualdade econômica. No meu filme mostramos toda essa preocupação com a segurança, mas não há uma bomba explodindo. E os crimes que estão sendo investigados ali não foram cometidos por nenhum estrangeiro”, ressaltou o diretor em conversa com o Cine Festivais.

Grosso modo, Aqueles que Estão Bem retrata a história de uma jovem que trabalha em uma empresa de telemarketing e utiliza as informações privilegiadas a que tem acesso para aplicar golpes em senhoras de idade. A tática não é muito diferente do que já vimos em notícias na imprensa brasileira: a personagem se passa pelas netas das vítimas e finge que está necessitando com urgência de um empréstimo financeiro. As senhoras que caem no golpe vão até o caixa eletrônico e entregam os altos valores nas mãos da golpista, que para completar a fraude finge ser uma amiga enviada pelas tais netas.

O filme, que estreou no último Festival de Locarno e levou menção honrosa entre cineastas estreantes, adota uma abordagem narrativa que foge do comum. Várias das cenas não mostram a protagonista, mas sim o entorno da investigação que está sendo feita pela polícia suíça para aplacar os crimes. Muitos dos enquadramentos são bem abertos, atiçando o olhar do espectador para além de um direcionamento para a figura da protagonista, e as cenas externas quase nunca mostram o céu. “Isso foi uma decisão estética com o intuito de valorizar o espaço, a arquitetura. Fazia mais sentido filmar de cima para baixo, e não de maneira horizontal”, explica Cyril.

Outro fator estético que foi ressignificado por esta maneira de filmar a cidade foi o uso do som. Já que as tomadas eram feitas com lentes de longo alcance, havia uma liberdade muito grande para trabalhar a parte sonora da obra. “Quando não temos uma face para nos relacionar e direcionar a nossa atenção, a relação do espectador com o som muda. O curioso é que pensamos em um som bem realista, mostrando a atmosfera da cidade, mas essa simplicidade pode gerar outro tipo de contato com o espectador a partir do momento em que ele não está sendo guiado de uma maneira óbvia através da imagem”, reflete o diretor.

Curiosamente, uma inspiração que o suíço Cyril Schäublin usou para o seu primeiro longa-metragem foram os ensinamentos do premiado cineasta Lav Diaz, que ganhou homenagem e retrospectiva da Mostra de São Paulo em 2013. O filipino, conhecido também pela longa duração de seus filmes – o que contrasta com os 71 minutos de Aqueles que Estão Bem –, foi professor de Cyril no terceiro ano do curso da Academia Alemã de Cinema e Televisão, em Berlim.

“A primeira coisa que Lav nos disse foi que não nos importássemos com o sistema. Ele me deu a liberdade para dar um passo atrás e realmente pensar o que é o cinema. Isso foi muito libertador, porque de repente entendi que havia outras formas de trabalhar. Descobri que os roteiros podem ser trabalhados de outras maneiras. Nos filmes de Lav os personagens são muito complexos, e acho que isso tem a ver com o fato de que ele ouve os atores; ele não cria um personagem no roteiro e fala: ‘pronto, essa pessoa é dessa forma.’ Ele é aberto para como esses personagens estão no mundo, e é isso que eu acho que faz o cinema dele tão rico e inspirador, por mais que nossos filmes sejam diferentes”, conclui o cineasta.