Com o objetivo de ouvir diretores e outros profissionais do cinema brasileiro a respeito de suas trajetórias na área, dando destaque à relação de cada um com os curtas-metragens e com os festivais de cinema, o Cine Festivais realiza o projeto Curtas & Festivais, que é feito em parceria com a produtora Babuíno Filmes. Depois de entrevistas com os diretores Marco Dutra e André Novais Oliveira e com a atriz Maeve Jinkings, a série retorna mostrando a trajetória da cineasta Larissa Figueiredo.

A julgar pelo seu histórico escolar e pelas locações de alguns de seus filmes, Larissa é certamente a cineasta mais internacional entre os integrantes da mais nova geração de diretores brasileiros. Dois grandes nomes do cinema autoral contemporâneo no mundo, o português Miguel Gomes e o tailandês Apichatpong Weerasethakul, foram professores da brasileira e influenciaram diretamente seus conceitos sobre cinema.

Tendo a honra de participar logo com seu primeiro curta-metragem de uma seção de filmes de escola do Festival de Locarno, Larissa voltou ao evento suíço no ano passado para exibir o seu longa-metragem inaugural, O Touro, ainda em uma versão em progresso. Nesse ano, a diretora nascida em Brasília e radicada em Curitiba exibiu este trabalho, já finalizado, no prestigioso festival holandês de Roterdã.

Em entrevista concedida ao Cine Festivais, Larissa Figueiredo falou sobre a sua relação com o cinema, comentou os trabalhos realizados até aqui e ressaltou a importância dos festivais de cinema.

Na playlist abaixo você pode ver os vídeos com as principais falas da entrevista com Larissa Figueiredo. Se preferir ler o que a diretora disse, transcrevemos abaixo a entrevista na íntegra.

 

 

Cine Festivais: Como foi o início da sua relação com o cinema? O que você gostava de assistir, quem influenciou você a gostar de cinema?

Larissa Figueiredo: Minha relação com o cinema começou, talvez, na barriga da minha mãe; ela é uma pessoa que até hoje vai muito ao cinema. Eu nasci em Brasília, onde há uma cultura natural de ir ao cinema. Na cidade há o festival de cinema e foi onde nasceu o primeiro curso de cinema do Brasil.

Fora isso, minha família é de pessoas muito ligadas ao cinema dito de arte, a filmes franceses como os de Godard e Truffaut. Minha mãe e minhas tias sempre gostaram muito desse universo, e eu fui influenciada por este hábito de cinema.

Na adolescência eu comecei a ir muito a videolocadoras. Tinha épocas em que eu via onze filmes num dia no final de semana. Era uma coisa que sempre fez parte da minha vida, não sei nem te dizer exatamente a partir de quando eu comecei a ver tantos filmes.

Não era uma coisa tão consciente o quanto o cinema estava presente na minha vida, até que, fazendo Letras (na Universidade de Brasília), eu pensei que talvez quisesse ir mais além, queria começar a fazer filmes.

Em Letras eu fiz um trabalho sobre o Luiz Fernando Carvalho, que na época tinha acabado de fazer Lavoura Arcaica. Aquilo me impressionou muito, essa ideia entre literatura e cinema, e foi isso que me levou a dar esse passo de largar Letras e começar a estudar Cinema.

 

CF: Como foi a experiência de estudar cinema no exterior? Quais foram os professores que mais te influenciaram?

LF: Quando eu estava estudando Letras na UnB eu tive um professor, chamado Adalberto Muller, que me incentivou muito a seguir para a linha do cinema. Ele tinha uma relação muito forte com uma universidade de Lyon (Université Lumière Lyon 2), e lá justamente havia um trabalho entre cinema e literatura.

Então comecei em Letras no Brasil e terminei em Letras/Cinema na França, mas eram estudos de teoria cinematográfica. Aprendi muitas coisas, mas eu sentia que queria fazer cinema de fato. Enquanto estava na França, participei de uma oficina com o (cineasta chileno) Raúl Ruiz e pude depois tomar um café e conversar com ele, que me incentivou a buscar escolas na Suíça.

Passei no concurso da Haute École d’art et design, que fica em Genebra, e lá tive uma experiência que mudou totalmente minha vida. Ela é uma escola fora do padrão de ensino, sem nenhuma carga disciplinar fixa, que convidava muitos cineastas e artistas contemporâneos para virem dar workshops em que eles decidiam como “ensinar” cinema – sendo este termo entre aspas mesmo, porque a escola partia do principio que ninguém pode ensinar outra pessoa a fazer cinema, mas pode tentar de alguma forma incentivar essa pessoa a olhar para o mundo através de uma maneira que possa ser expressa cinematograficamente.

Fui muito influenciada pelo (diretor português) Miguel Gomes, que quando foi meu professor estava ainda preparando Tabu e tinha questionamentos muitos semelhantes aos meus próprios como pessoa.

A escola também proporcionava viagens de imersão com alguns desses cineastas, e a viagem que de fato mudou a minha vida e que foi fundamental para que eu decidisse o que era o cinema para mim, como eu via essa forma de expressão, foi minha ida para a Tailândia para passar 40 dias com o (cineasta tailandês) Apichatpong Weerasethakul.

Foi uma experiência totalmente de imersão, em um contexto que era fora do padrão do que seria aprender a fazer filmes. A ideia não era aprender a mexer em uma câmera ou fazer um roteiro, mas imergir em uma comunidade isolada sem falar a língua local e sem ter outro meio que não fosse a câmera para poder me expressar e me comunicar com essas pessoas.

A frase que ele falou foi “eu quero que vocês fiquem imersos nesse contexto estrangeiro para vocês e que dele vocês descubram o que impulsiona vocês a ligarem uma câmera e a fazer um filme sobre uma pessoa ou alguma coisa no mundo”. Para mim foi o processo mais rico e que mais carrego comigo em todos os filmes e projetos, na vida.

 

CF: Dessa experiência na Tailândia nasceu o curta-metragem As Águas. Fale sobre o processo de criação dele.

LF: Eu acho que As Águas escancara o que eu passei na Tailândia, o que aconteceu comigo nesse processo com o Apichatpong. Dentro do workshop a ideia era que a turma de 12 estudantes fosse dividida em duplas que iriam para vilarejos e ficariam isoladas entre 10 a 15 dias neles para tentar desvendar essa vontade de cinema que vinha dali.

Depois que voltamos para nossa cidade-base (Chiang Mai) a ideia era que os participantes tivessem um período de férias, pois era ano novo na Tailândia, mas eu queria continuar nesse processo que tinha começado, então pedi para que minhas férias fossem me isolando, dessa vez sozinha, em um novo vilarejo, e é desse novo contexto que nasce As Águas.

Esse vilarejo que eu estava era um pouco mais urbano, mas as crenças tailandesas eram muito explícitas e fortes – não que não fosse assim em outros vilarejos, pois a Tailândia tem mistérios para todos os lados; tudo é sagrado no contexto desse país, mas para mim foi especial ficar nesse lugar específico que tinha uma relação muito forte com as águas. Havia muitas cachoeiras, rios, e cada um deles tinha uma história.

Aquilo me conectou muito com as histórias do imaginário no qual eu cresci. Minha mãe é maranhense, da cidade de São João Batista, e ali as crenças têm importância grande; o imaginário de lá é tão forte quanto na Tailândia. Mesmo sem falar a língua, algo naquele país trazia coisas que já estavam dentro da minha própria cultura.

O curta é uma mistura entre a história brasileira da Iara – índia que se afogou e virou uma deusa das águas que apavora pessoas e mata pescadores – e a sua relação forte com outra deusa da Tailândia, que afoga pescadores e trabalhadores que passem pela beira do rio.

As Águas é isso: esses rios que se cruzam na minha própria vida e que eu encontro eles na Tailândia, isolada.

 

CF: Você participou de festivais com As Águas?

LF: Eu demorei muito tempo para começar a pensar em mandá-lo para festivais. Como o filme foi fruto de um exercício e carrega coisas de uma experiência única, eu achava que aquilo já era suficiente. Até que vim para o Brasil e comecei a trabalhar com a (produtora) Tu i Tam Filmes, e ali tanto o Rafael (Urban) quanto o João (Castelo Branco) olharam o filme e falaram que deveríamos mandá-lo para festivais, pois ele tinha potencial e era importante que o público conhecesse esse primeiro trabalho, que fala muitas coisas sobre como eu me relaciono com o cinema.

A gente começou a mandar o filme para festivais em 2014. Ele passou no Panorama Coisa de Cinema, em Salvador, no Olhar de Cinema, em Curitiba, mas foi uma carreira que acabou sendo atropelada por outros filmes da produtora que estavam prontos naquela época, na qual já estávamos concentrados nos próximos projetos.

 

CF: Você se lembra de sua primeira experiência em festivais?

LF: Comecei a ter uma primeira pequena experiência com festivais de cinema com meu primeiro curta-metragem, que na verdade não é o As Águas. É um trabalho que se chama Tempos de Abril, feito no meu primeiro ano na escola de Genebra.

Ele não tinha ambição de circular por festivais, mas eu acabei participando da Locarno Film Academy, na qual o filme foi exibido nesse contexto de estudo dentro do Festival de Locarno.

Tive meu primeiro contato com festivais nesse imenso e incrível festival que é Locarno, dentro de um contexto em que, mesmo muito jovem – eu tinha acabado de fazer 20 anos – o festival entregava uma série de coisas que já faziam a gente visualizar o que é esse novo mundo.

O festival nos fez não só exibir os filmes, mas falar sobre eles; a organização programava encontros com curadores e produtores de outros países, alguns tão inexperientes quanto eu. Isso foi muito rico, foi minha imersão nesse universo.

 

CF: Esse filme está disponível na internet?

LF: Na verdade não. Eu acabei participando de muitos pequenos workshops dentro da escola em Genebra para finalizar o filme, mas hoje eu percebo que o corte final talvez tenha ultrapassado um pouco os passos, e que eu gostaria de remontá-lo a um estágio anterior e, aí sim, talvez disponibilizá-lo na internet. Eu simplesmente tirei uma voz off e queria voltar com ela e ver o que acontece. Seria divertido voltar a esse primeiro trabalho.

 

CF: Em termos de trabalho individual e colaborativo, qual foi a importância para você da entrada na produtora Tu i Tam Filmes?

LF: Minha entrada na Tu i Tam é uma virada e um encontro em vários sentidos da minha vida, começando pelo encontro com o Rafael (Urban), que hoje é meu marido e que é um dos sócios-fundadores da empresa, e também com o João (Castelo Branco), outro sócio da produtora e que se tornou o fotógrafo de todos os filmes que fiz desde então.

Outras pessoas que eu acabei trazendo para trabalhar comigo nos meus filmes como diretora já tinham trabalhado em projetos anteriores da produtora e são super importantes. Esses encontros foram muito significativos, pois ajudaram na maneira com a qual eu quero trabalhar, que é muito familiar, com uma equipe reduzida que dialoga o tempo inteiro.

A produtora foi para mim um tipo de começo mesmo, um encontro com uma família cinematográfica com a qual eu sei que vou junta agora.

 

CF: Fale sobre o seu curta-metragem seguinte, Fui à Capadócia e Lembrei de Você.

LF: Este foi um filme que fiz na Turquia quando estava na transição entre voltar de vez para o Brasil e morar na Europa, mas eu já estava trabalhando com a Tu i Tam na época. O curta é fruto de uma residência artística de 40 dias que fiz na Capadócia na qual eu também fiquei imersa e sozinha tentando descobrir algumas coisas que hoje trabalho em um longa-metragem a vir que chama Matar um Dragão na Capadócia.

Desse estudo acabou vindo esse primeiro filme de alguma forma ancorado no Brasil, que já tem uma presença forte da Tu i Tam. Também foi nele que tive uma primeira colaboração com o Fábio Baldo, que é um grande parceiro e que depois fez o som de O Touro e O Rei.

Com esse filme acabo voltando de vez para o Brasil. É ele que me coloca no contexto dos festivais brasileiros pela primeira vez. Ele foi exibido na Mostra de Tiradentes, na Mostra do Filme Livre, no Festival de Curtas de BH. Acho que foi um bom começo.

 

O Touro é o primeiro longa-metragem de Larissa Figueiredo

O Touro é o primeiro longa-metragem de Larissa Figueiredo

 

CF: Fale sobre a concepção do curta-metragem O Rei e do longa-metragem O Touro? Como a experiência na Suíça e na Tailândia influenciou os filmes?

LF: O Rei e O Touro são um projeto comum; foram filmados ao mesmo tempo, mesmo que já naquele momento da filmagem a gente soubesse que iriam existir dois filmes. São os mesmos personagens e o mesmo espaço, mas são formas diferentes. Eles tratam da historia da Ilha de Lençóis, que fica na fronteira entre o Pará e o Maranhão, e lá os habitantes acreditam ser descendentes do rei Dom Sebastião, português que desapareceu no século XVI no Marrocos, na Batalha de Alcácer-Quibir.

Logo depois que o rei desaparece Portugal vai para o domínio espanhol e começa um declínio daquele grande império português. Então surge lá o sentimento de sebastianismo, uma esperança de que o rei pudesse voltar e restaurar o império.

Como o corpo dele nunca foi encontrado, há indícios de que este rei pudesse estar vivo em algum lugar. Este tipo de mito/crença viajou até o Brasil, a ponto de pessoas acreditarem que talvez Dom Sebastião tivesse viajado para se esconder aqui. Nessa ilha isso ficou muito forte. São 450 habitantes no local, que recontam a chegada do rei, quantas pessoas ele trouxe e como ele fundou um reino encantado embaixo das dunas dessa ilha.

Meu pai é português e minha mãe, maranhense, então essa história se conecta muito com as minhas origens, além de levantar a questão da força do imaginário na vida das pessoas, que me interessa muito desde As Águas.

Existe uma relação forte sobre como é possível se aproximar mais das pessoas quanto mais você se aproxima do imaginário delas. Então, quanto mais perto da fantasia, mais perto do real você chegaria. Essa é uma lógica que nasce para mim na Tailândia e que me inspira a fazer O Touro e O Rei.

 

CF: Como você pensou a diferença entre o curta e o longa-metragem nesse projeto?

LF: Acho que há uma diferença bem marcada que vem do formato. O Rei é um curta um pouco longo, de 25 minutos, mas para mim ele é todo pensado em uma estrutura de curta-metragem, em qual é a disponibilidade do público para esse formato e, sobretudo, no que é possível contar em um formato curto.

O Touro, por ser um longa, parte do principio de imersão total; quer convidar o espectador a entrar nessa ilha e conviver com os personagens como Joana conviveu, a ter a experiência do dia a dia com a comunidade e a sentir como o passar desse tempo faz com que ela entre de fato no imaginário das pessoas e se conecte com eles.

O curta já é uma observação exterior, tem uma voz off de divagação do próprio rei, apontando como ele veria a chegada de Joana. Ele é um processo de reflexão sobre esta história; está olhando de fora, não pede a imersão, o que é exatamente o oposto do longa.

 

CF: Qual é a sua relação com os formatos de curta e longa-metragem? Pensa em seguir fazendo curtas-metragens?

LF: Eu não penso muito sobre se vou fazer curta ou longa-metragem. Acho que tem histórias que pedem um longa e outras que pedem um curta. Tentar fazer uma história que exige imersão, aprofundamento não só meu, mas do espectador… Um curta pode exigir um aprofundamento de estudo tão grande quanto um longa, mas existe a questão de como isso se apresenta para o espectador.

Para mim as histórias, os temas, as vontades é que decidem a duração do filme. Espero fazer tanto longas, quanto médias, curtas, séries de TV… Tudo é questão dos temas e dos desejos que aparecem. Eles que decidem o que vai ser o filme.

 

CF: Fale sobre a experiência de exibição de O Touro no Festival de Locarno em 2014.

LF: O Touro teve uma primeira exibição como trabalho em progresso dentro da Carte Blanche do Festival de Locarno. Para mim foi muito especial e importante fazer essa primeira exibição lá. O festival é cuidadoso e tenta te trazer as melhores possibilidades de encontro, de projeção. Eles assessoram muito o diretor, principalmente nessa exibição que é ainda em progresso.

Para mim foi especial voltar a Locarno, que foi o primeiro festival a que fui na vida. Foi incrível poder estar lá desta vez com um longa, sendo que primeiro curta foi exibido também ali, mesmo que em um contexto não oficial, mas acho que a coisa mais importante foi mostrar o filme e ouvir o feedback sobre o estágio em que ele estava.

A gente apresentou o filme cru, no seu corte quase final, mas sem trabalho de som ou cor, então foi bom poder ouvir sobre os últimos retoques que poderiam ser feitos, isso foi essencial. O filme passou de 85 para 78 minutos depois de Locarno. Como o elemento fantástico do filme se pauta muito no trabalho sonoro, a exibição em progresso foi muito importante para ouvir feedbacks e pensar como estruturar essa fase do filme.

 

CF: Já em Roterdã, em 2015, o filme teve a sua estreia oficial. Como foi a experiência neste festival?

LF: Não teria lugar melhor para estrear o filme. A gente achava que poderia ser complicado para um público estrangeiro acessá-lo, mas foi surpreendente; as seis projeções foram praticamente lotadas, e foi muito maravilhoso ter o retorno desse público estrangeiro que não só entendeu a motivação do filme, mas se interessou em saber quem são essas pessoas que aparecem nele, como elas vivem, o que fazem, o porquê de eu estar colocando essa fronteira entre documentário e ficção. O público de Roterdã foi muito especial, talvez por já estar acostumado, com o festival, a ver filmes que tomam todos os tipos de risco. Foi muito gratificante poder ter essa discussão com eles.

 

CF: Qual é a sua relação geral com os festivais de cinema? Qual é a importância deles como palco para relacionamentos profissionais e pessoais?

LF: Gosto muito de festivais. Acho que eles têm uma função fundamental para o fazer cinematográfico no mundo, para que a motivação aconteça, continue, se alimente, porque a gente faz filmes para o mundo, né… para poder comunicar, estar em contato com outras pessoas, e o ambiente de festivais proporciona muito isso.

Não só o contato profissional – que acho que isso é muito claro, pois é através dos festivais que a gente consegue conhecer futuros parceiros, que às vezes estão do outro lado do mundo, veem o seu filme e entendem que você tem uma conexão plena com aquilo que eles acreditam e trabalham -, mas acho que eles também têm outra função que é humana, desses encontros.

Eu sou uma prova viva disso por ter conhecido o meu marido em um desses festivais. A gente se conheceu, eu e Rafael, no Festival de Roterdã de 2012, e eu conheço inúmeras histórias de pessoas que acabam conhecendo seus futuros maridos ou esposas em festivais assim.

Acho que isso é simplesmente um reflexo de como as coisas funcionam nesse universo. Ali é um lugar em que está todo mundo disponível para se encontrar, conversar e trocar experiências de vida, de filmes, de tudo.

 

CF: Os festivais trazem geralmente um público de nicho, que não se repete quando os filmes entram no circuito comercial. Como você lida com essa questão do espectador?

LF: Alcançar um público maior em cinema é uma coisa que depende de muitas coisas, principalmente de uma cultura cinematográfica mais estabelecida. A experiência que eu tive em Roterdã não foi com um público de festivais, mas com pessoas acostumadas a ir ao cinema em Roterdã, assim como o público francês é conhecido por ir muito ao cinema. Quando isso acontece, o público não busca o cinema só pelo entretenimento, ele busca descobrir outras coisas.

Acho que esse alcance depende de muitos fatores, não só do filme. O trabalho também dita quem vai ser esse público, sem dúvida alguma, mas os filmes tem que ser o que são, o que podem ser, o que pretendem ser, e não devem se condicionar à expectativa do publico.

Se fosse assim a gente não teria o Godard – não que eu ache que todos filmes têm que ser Godard; o mundo tem que ter todos os tipos de filmes – mas o exemplo é esse. Quando o filme do Godard entra em cartaz, vai ter um público que quer assistir, que quer ver o cinema em todas as formas que ele se apresenta.

O público de festivais obviamente está em busca de outro cinema, pois eles proporcionam esse cinema que talvez não entre em sala comercial, mas a definição desse público não depende exclusivamente dos filmes.

 

CF: Qual é a sua visão sobre o atual momento da produção brasileira, tendo em vista a inserção desses trabalhos nos festivais internacionais?

LF: Acho que o cinema brasileiro passa agora por um processo interessante que é também resultado do momento em que a gente vive, no qual há editais de cinema, há leis de incentivo, uma renovação da Ancine e a vontade de que haja uma internacionalização dos filmes brasileiros, vista, por exemplo, no incentivo à coprodução, na vontade de dialogar com esse mundo que está lá fora.

Eu vejo como bastante positivo o fato de os filmes brasileiros não serem mais exclusivamente do padrão que entra nas competições principais dos festivais maiores, porque nos filmes que eu vejo nas mostras paralelas destes festivais ou nos festivais ditos mais alternativos, como Roterdã, eu enxergo uma vontade do cinema de se renovar, tentar formas novas.

Eu vejo isso nessa geração que me acompanha na realização de filmes, percebo um desejo constante de dialogar com outras coisas, inclusive em uma fronteira entre o que é documentário e ficção, o que é cinema e arte contemporânea.

Acho que isso é rico e não anula de maneira alguma a possibilidade de esses realizadores de hoje que estão produzindo filmes um pouco fora dessa ideia de mercado façam filmes de maior porte, que talvez tenham condições de estrear em mostras maiores.

Também acho que o cinema como um todo hoje no mundo também está se atualizando e há um desejo de que mostras também se abram para outras linguagens. É um movimento duplo: daqui, de exploração de novas linguagens, e de lá, de abertura. Em algum momento essas duas coisas vão se encontrar, e acho isso extremamente positivo. Acho incrível que o cinema brasileiro esteja bem dentro disso que está acontecendo hoje.

 

A Última das Minas é a primeira codireção entre Larissa Figueiredo e Rafael Urban

 

CF: Como se deu o processo de criação de seu última curta-metragem, A Última das Minas?

LF: A Última das Minas é um trabalho que parte de várias pesquisas que tenho feito já há bastante tempo no Maranhão, principalmente voltadas à cultura do Tambor de Mina, às religiões afro-brasileiras e às pessoas que movimentam e fazem parte do que é a identidade da cultura maranhense e brasileira. De alguma forma, a ideia é documentar as pessoas, guardar o que ainda resta delas.

O que eu sinto no Maranhão, que tem uma cultura popular pulsante, é que há um período de mudança em que vejo que as casas mais antigas de Tambor e de Candomblé, por exemplo, estão aos poucos fechando, perdendo continuidade. Há uma desconstrução de uma cultura popular e a transformação disso em algo mais pop, não popular.

Não acho isso maléfico; o mundo gira, as coisas se transformam, mas há um desejo em mim de tentar resgatar essas coisas, e de alguma forma trabalho em cima dessas memórias.

A Última das Minas vem de um encontro que tive desde 2011 com a Dona Deni Prata Jardim, que era a última vodunsi, representante líder da Casa das Minas, casa de Tambor de Mina mais antiga do Brasil, fundada em 1817.

A gente conseguiu um edital da Fundação Palmares que previa a preservação da memória desses anciões da cultura negra no Brasil. O filme também nasce, sobretudo, de uma pesquisa para meu próximo longa-metragem, chamado Agontimé, que conta a história de uma rainha africana que foi vendida como escrava para o Brasil e que foi a fundadora dessa Casa das Minas.

O curta foi realizado com a intenção de fazer um retrato dessa senhora, Dona Deni, e de servir também como uma pesquisa. Ela acabou falecendo alguns meses depois das filmagens e nunca viu o filme pronto, e isso de alguma forma só me conecta mais com essa ideia de seguir fazendo esses retratos, esses documentos dessas pessoas.

Foi muito importante fazer este filme em codireção com o Rafael Urban, que já tem um trabalho, desenvolvido há muitos anos de documentar pessoas, a vida delas, o que elas têm a dizer, o que a gente tem a guardar delas. Acho que esse é o ponto, então foi muito rico que a gente justamente se encontrasse na direção nesse projeto.

 

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