Com o objetivo de ouvir diretores e outros profissionais do cinema brasileiro a respeito de suas trajetórias na área, dando destaque à relação de cada um com os curtas-metragens e com os festivais de cinema, o Cine Festivais realiza o projeto Curtas & Festivais, que tem apoio institucional da Associação Cultural Kinoforum e é feito em parceria com a produtora Babuíno Filmes. Depois das conversas com Marco Dutra (assista aos vídeos aqui) e com André Novais Oliveira (acesse a entrevista aqui), a terceira entrevistada da série é a atriz Maeve Jinkings.

Nascida em Brasília e criada em Belém, Maeve cursou a faculdade de Comunicação Social na capital paraense, mas a vontade de ser atriz resultou na vinda à cidade de São Paulo. Depois de várias experiências no teatro, ela atuou profissionalmente em um filme pela primeira vez em Falsa Loura, do paulista Carlos Reichenbach.

Foi no Recife, porém, que a atriz viria a ter o seu período mais prolífico no cinema – que segue até hoje. Lançado em 2013 no circuito comercial, O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, foi o filme que deu visibilidade à atriz, que interpretou a dona de casa Bia na obra. Desde então, ela também se destacou no recém-lançado Amor, Plástico e Barulho, pelo qual recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília de 2013, graças ao papel da cantora de música brega Jaqueline Carvalho.

No mesmo festival, um ano depois, Maeve recebeu o prêmio de melhor atriz em curtas-metragens pelo seu papel em Estátua!, de Gabriela Amaral Almeida. A atuação em curtas, aliás, é outra marca da carreira da atriz, que participou também de trabalhos como Loja de Répteis, de Pedro Severien, e Sem Coração, de Nara Normande e Tião – neste último ela também foi preparadora de elenco.

Na entrevista concedida ao Cine Festivais, Maeve Jinkings falou sobre a sua relação com o cinema, comentou os trabalhos mais importantes da carreira e ressaltou a importância dos festivais.

Na playlist abaixo você pode ver os vídeos com as principais falas da entrevista com Maeve Jinkings. Se preferir ler o que a atriz disse, transcrevemos abaixo a entrevista com a intérprete.

 

 

Cine Festivais: Como foi o início de sua relação com o cinema?

Maeve Jinkings: Eu sou filha de uma fotojornalista, que por sua vez é filha de um livreiro de Belem do Pará. Então esse universo da ficção, de contar histórias, sempre esteve muito presente em casa. Meu pai, um comerciante nordestino que faz parte das gerações dos candangos que foram desbravar Brasília, é um homem super sensível e muito ligado à música e ao cinema.

Quando eu era criança e ia passar férias em Brasília, tinha ali uma locadora de filmes de rolo. Me lembro de assistir a filmes da Disney, de deixar o escritório todo escuro e montar o projetor. É a lembrança mais antiga e mágica que eu tenho. Ir à locadora e ver aquele monte de rolo que não tinha glamour nenhum, e saber que ali havia aquelas histórias fantásticas. Achou que começou ali (minha relação com o cinema).

E também (Charles) Chaplin. Carlitos é certamente uma das referências mais fortes ainda hoje para mim. Sou completamente apaixonada pela linguagem do clown. Lembro que quando tinha oito anos eu estava em Brasília com meu pai e passava uma vez por semana o Festival Carlitos na TV, em um horário bem tarde. Passou toda a filmografia do Chaplin, e a gente tinha um ritual de ficar juntos acordados até tarde aguentando para poder assistir a um filme do Carlitos juntos.

E com minha mãe essa relação se dava com filmes de terror. Me lembro de ver Poltergeist com ela e de não sentir medo. Também ia com minha mãe a sessões de filmes de arte, em um cinema chamado 123. Me recordo de assistir a um filme do Wim Wenders, por exemplo. Como era matinê, lembro de sair daquela caixa escura tomada por aquelas historias e encontrar aquele sol forte rachando, com a luz forte de Belém. Acho que começou aí.

 

CF: Quando você decidiu que seria atriz?

MJ: Eu nunca sei dizer em que momento eu decidi ser atriz. Isso é muito obscuro pra mim ainda. O que é claro é quando começou o meu interesse pela arte. Foi muito através da música e do desenho. Lembro que, quando tinha seis anos, fui assistir a um concerto com meu pai no Teatro Nacional de Brasília, e a orquestra estava tocando a Nona Sinfonia de Beethoven. Quando o coral entrou, no quarto movimento, eu me lembro de começar a chorar, e eu não entendia por que estava chorando, já que não estava triste. Meu pai então me falou que eu estava emocionada.

Depois disso eu tentei estudar violão, mas nunca consegui concluir os estudos, o que é até hoje uma frustração. Mas a música permanece sendo um elemento muito forte para mim. É o que eu mais uso para minha autopreparação emocional como atriz quando vou entrar num set de filmagem. Meu processo de estudo de personagem passa por descobrir o universal musical que cada um deles habita.

 

CF: Pode dar algum exemplo de músicas que te influenciaram em alguma personagem? As músicas vêm do universo da personagem ou servem para te influenciar a chegar em determinado sentimento exigido pelo papel?

MJ: Acontece das duas formas. No Amor, Plástico e Barulho, acho que a importância da musica para o meu processo de criação ficou muito clara e eu acabei estabelecendo uma mecânica que segui em outros papéis.

Quando a Renata (Pinheiro, diretora) me chamou para fazer o filme, eu disse que cresci em Belém do Pará ouvindo brega. Só que eu descobri que esse brega com o qual eu tenho uma relação afetiva só existe em baile da saudade hoje em dia. O brega atual tem influência de música eletrônico do funk… Então quando eu entrei em contato com isso eu julguei muito, achei ruim, disse que as letras eram horríveis, machistas…

Aí teve um dia em que fui assistir ao show de uma musa do brega, mas antes dele havia uma apresentação de um MC. Eram dois garotos com o tronco desnudo, que ficavam simulando movimentos eróticos. Eu estava julgando muito eles, mas passaram uns dez minutos e eu me dei conta de que havia uma beleza ali, e quando terminou o show eu vi que tinha tido uma experiência poderosa.

Essa é uma coisa da música popular. Goste você ou não, independentemente da sua formação humana e intelectual, ela tem um poder de te acessar no corpo para além do racional de uma forma muito poderosa e que eu admiro muito.

Outro exemplo da importância da música ocorreu também no Amor, Plástico e Barulho. Tem uma cena em que eu canto Chupa que é de Uva a capella, e quando estava ensaiando essa música eu pensei na força que tinha aquela mulher cantando a dor dela. Então eu estudei com uma música que não tem absolutamente nada a ver em termos musicais: Strange Fruit. Tem um vídeo da Billie Holliday no Youtube que é muito forte, que traz ela cantando essa música com uma dor, um olhar cortante… Eu me inspirei nesse vídeo e também na interpretação da Nina Simone, que escutava sempre no set. Esse é o poder da música.

 

CF: Por que você decidiu fazer faculdade de Comunicação Social com habilitação em Publicidade?

MJ: Eu passei o meu segundo grau estudando ciências biológicas, pensando que iria fazer faculdade de odontopediatria. Seis meses antes do vestibular, tive uma super crise, minha mãe percebeu que eu não estava nem um pouco motivada e eu fui fazer uma orientação vocacional. Logo na primeira sessão a mulher me disse: “você não está em duvida, está com medo”. Eu cheguei em casa e falei para minha mãe que queria fazer teatro, e ela imediatamente adorou. Só que nessa altura faltavam dois meses pro vestibular de Artes Cênicas na Fuvest (vestibular da Universidade de São Paulo). Como fiquei o meu segundo grau estudando para ciências biológicas, tive que correr atrás do programa de ciências humanas, passei da primeira fase, mas não consegui ser aprovada na Fuvest.

Eu voltei para Belém e nesse intervalo surgiu um curso novo, de Publicidade. Pensei que tinha a ver comigo e comecei o curso, mas já no segundo ano eu sabia que não era aquilo que queria seguir. Então eu decidi terminar a faculdade e ir de novo para São Paulo para tentar fazer teatro. Então eu me formei em Comunicação Social e nunca fui nem buscar meu diploma. Me formei em janeiro de 2000 e em fevereiro já estava saindo de Belém para vir a São Paulo fazer teatro.

 

CF: Qual foi a sua primeira experiência com o cinema?

MJ: No final do meu curso de Publicidade, em 1999, eu já estava tentando me envolver mais com o que havia de movimento audiovisual em Belém. Naquela época eu me lembro que estava começando um edital da prefeitura para apoiar curtas-metragens. Então eu fiz teste para trabalhar como atriz em um curta chamado Dias, do Fernando Segtowick, mas não fui aprovada. Logo depois a produtora executiva me chamou para trabalhar como estagiária de produção do filme e eu aceitei.

Durante as filmagens, tinha uma cena com um acidente, na qual o carro da personagem quase se chocava com um caminhão. A atriz do curta não se sentiu segura para fazer essa cena e eu acabei trabalhando como dublê nela. Então essa foi minha primeira experiência no cinema, como estagiária de produção e dublê de cena de ação.

 

CF: Quando veio para São Paulo você pensava em teatro e cinema como dois caminhos diferentes, ou eram desdobramentos naturais? Como se deu essa transição?

MJ: O início da minha formação profissional como atriz é de uma atriz de teatro, voltada para essa linguagem. No final da EAD (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo) eu me lembro de falar com a direção que a gente não havia dialogado muito com o audiovisual. Então a câmera ainda era uma coisa que me assustava muito, porque de fato são lugares diferentes.

A minha experiência no cinema como atriz profissional foi com o Carlos Reichenbach, no filme Falsa Loura, e eu me lembro muito dessa chavezinha diferente que eu percebi do teatro pro cinema. Tinha uma cena em que as pessoas no set riam, e aí eu internamente pensava “ai, que legal, está funcionando’, que é a relação do ator de teatro, de você perceber a reação ali na hora.

Eu me lembro da Gabi, que fazia som direto no filme, pedindo para eu falar um pouco mais baixo em cena. Ai eu comecei a entender que não estava atuando para quem estava no set, e sim para a câmera. No cinema é muito comum quem está no set achar que o ator não está fazendo quase nada, e quando você vê na tela está tudo ali. Então eu lembro muito desse momento no set do Carlão, de perceber esse outro lugar do ator de teatro e de cinema.

 

CF: A estreia de Falsa Loura no Festival de Brasília de 2007 foi a sua primeira experiência em festivais? Como foi?

MJ: Nossa, foi assustador. Eu lembro que eu falei: “meu deus, essa é a experiência mais próxima do pânico que eu já tive na minha vida”. Nem a noite de estreia no teatro é algo próximo disso, porque no teatro você fica ali ensaiando, tem uma ideia daquilo que você vai apresentar. No caso do cinema é essa coisa muito maluca que você filma, esquece, e um ano depois vê o material pronto, e dependendo da montagem você tem milhares de filmes que podem sair daquele material. Então essa coisa de você não ter ideia do que vai ver daqui a alguns minutos é… nossa gente, eu sentia até dor de barriga (risos).

Eu me lembro que cheguei em Brasília na véspera de a gente estrear o Falsa Loura. Naquele dia iria passar o filme do (José Eduardo) Belmonte, Meu Mundo em Perigo. O Milhem (Cortaz), que eu conhecia de São Paulo, trabalhava nesse filme, e ele estava nervosíssimo antes da exibição. Aí eu pensei: “nossa, mas o Milhem, um ator super experiente, por que será que ele está tão nervoso”.

E no dia seguinte eu estava exatamente daquele jeito, em pânico. Eu não sabia o que o Carlão tinha feito com aquele material todo, era a primeira vez que tinha atuado para uma câmera, e já estava me preparando para lidar com o maior vexame da minha vida. E acabou sendo incrível, todo elenco estava lá, a Rosanne Mulholland, a Djin Sganzerla, a Suzana Alves… Foi uma delícia, uma turma de amigos se divertindo no festival.

Uma coisa que me fascinou foi aquele cotidiano de debates sobre os filmes no dia seguinte da exibição. Não estava acostumada a ver pessoas pensando sobre o audiovisual daquela forma, e até hoje isso é uma das coisas que mais me chama para os festivais, essa troca de visões que eu acho muito rica.

 

CF: Como começou a sua relação profissional e sentimental com Recife?

MJ: Foi em um período em que fui passar férias em Recife. Era para ficar 15 dias, mas acabei ficando três meses. Fiquei apaixonada pela cidade. Nessa época eu conheci o Cláudio Assis, o Lírio Ferreira e o Bidu Queiroz , que foram as primeiras pessoas da comunidade do audiovisual pernambucano com quem eu entrei em contato. No começo de 2009, quando voltei para São Paulo, o Bidu me escreveu, disse que tinha feito um roteiro de um curta e me convidou para filmar em julho daquele ano, e eu aceitei.

Foi justamente naquele momento que meu padrasto, que morava há 35 anos fora de Pernambuco, resolveu voltar a morar em Recife. Eu estava apaixonada pela cidade, teria uma casa para ficar lá, estava namorando um pernambucano e fui fazer um filme ali… Então decidi experimentar viver um tempo em Recife.

Quando fui morar em Recife, em 2010, comecei a fazer um curso profissionalizante de fotografia, e foi lá que fiquei sabendo do teste para O Som ao Redor. Lembro que o Kleber (Mendonça Filho), o Juliano Dornelles e o Daniel Aragão me reconheceram do Falsa Loura, eles adoravam o filme. E o teste foi muito bom, tivemos uma super cumplicidade rapidamente, e um mês depois o Kleber ligou me chamando para fazer a Bia no filme.

 

CF: Qual foi a sua reação ao sucesso de O Som ao Redor e como foi a experiência de exibi-lo em diversos festivais no exterior e no Brasil?

MJ: Acho que o roteiro de O Som ao Redor foi o primeiro que eu achei realmente maduro, eu li como se fosse literatura. Adorei minha personagem, evidentemente, mas o filme como um todo me apaixonou. Eu confesso que tinha uma boa expectativa para o filme, mas não tinha ideia de que seria o que foi.

Para mim foi um conjunto de experiências muito intensas, a primeira vez na Europa, o primeiro festival europeu (o filme estreou em Roterdã, na Holanda). Pudemos conhecer realizadores de outros países, discutir cinema, ter um olhar estrangeiro sobre um filme que trata de um universo muito local, e vimos que as pessoas tinham fascínio por algumas passagens do filme. Depois fui para festivais na Alemanha, no Equador, em Cuba, fora os festivais nacionais.

A gente faz algo que intui que é interessante e poderoso, mas só descobre o filme quando ele está pronto e quando se vê como isso chega no outro. Perceber isso nos festivais foi um processo muito poderoso, de pensar o cinema, de pensar o que a gente tinha feito, e o tanto que eu acho que aprendi sobre a gente também nesse filme.

Tem uma cena em que minha personagem grita com a empregada porque ela queimou um equipamento eletrônico. Esse tipo de relação com a empregada domestica é extremamente comum para quem é de classe média, como eu, e é desconfortável olhar para isso.

Em toda a sessão que eu acompanho de O Som ao Redor vem alguém do público fazer uma piada com o cachorro que minha personagem maltrata no filme, mas apenas duas pessoas em todas as sessões que eu acompanhei – e foram muitas – me criticaram por eu ter tratado a empregada daquela forma. E depois que aconteceu que eu falei: “nossa, que sintomático as pessoas se incomodarem tanto com o cachorro ser maltratado”. Depois disso, quando vinham me falar sobre o cachorro, eu perguntei algumas vezes por que não reclamavam do modo com que eu tratava a empregada, e algumas pessoas ainda conseguiram me responder com a pérola de “ah não, mas ela quebrou o seu produto importado”. Ou seja… eu acho isso tudo muito sintomático, e isso me apaixona em O Som ao Redor e na experiência que foi fazer parte disso como artista.

 

CF: O Som ao Redor foi um ponto de virada na sua carreira no cinema?

MJ: Sem dúvida nenhuma o filme me projetou de uma forma que eu não tinha experimentado ainda. Muitas relações nasceram inclusive de encontros em festivais. Eu conheci a Gabriela Amaral Almeida em um Festival de Gramado, ela adorou o filme, eu também gostei do filme dela (A Mão que Afaga) e depois disso ela me escreveu me convidando para atuar em Estátua!. A Renata Pinheiro, de Amor, Plástico e Barulho, também conheceu meu trabalho por conta de O Som ao Redor.

O filme me possibilitou conhecer realizadores e ter esse crédito de ser chamada para outros papéis na sequência de uma forma muito orgânica. De alguma forma sempre vai ter esse epíteto: “Maeve, a atriz de O Som ao Redor”, aquela da máquina… (risos). E isso se deve também à personagem, que é um tipo extremamente comum. Nas sessões em festivais, as mulheres sempre se identificaram muito com a Bia. Tenho uma gratidão muito grande pelo Kleber por ter me dado a chance de fazer uma personagem tão especial.

 

CF: Como surgiu o convite e como foi o seu processo de criação da personagem em Estátua!

MJ: Eu adorava A Mão que Afaga, filme da Gabriela que vi no Festival de Gramado. Ele tinha duas coisas que me chamaram muita atenção, que era um flerte tanto com os filmes de gênero de suspense como também com um certo humor negro, com uma capacidade de rir de si mesmo que me interessa muito.

O Estátua! foi um filme extremamente difícil, cansativo. Filmamos em dez dias, mas foi algo muito denso. A história se concentra na angústia, no processo de loucura dessa mulher com a maternidade. Eu passei por laboratórios de caminhar pelo bairro com barriga falsa, de pegar metrô e sentar na cadeira especial, de fazer aula de tricô. Houve tanto esse processo físico como um processo estético, que passa por referências de pinturas que interessavam a Gabriela, principalmente O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, e O Grito, de Edvard Munch.

Assisti em casa, evidentemente, a O Bebê de Rosemary, além de outras referências de filmes que interessavam à Gabriela em relação a tipos de interpretação e atmosfera fílmica. Ela é uma diretora extremamente precisa, faz questão de preparar o ator, de estar próxima. A gente tinha conversas longuíssimas a respeito do tema da maternidade e tudo o que diz respeito ali ao filme. Foi um encontro muito forte com a Gabriela, e inclusive temos pelo menos três projetos a serem feitos conjuntamente.

 

CF: Fale sobre a sua participação no curta Loja de Répteis.

MJ: O filme tem uma história de decadência, uma atmosfera sombria que flerta com os gêneros de suspense e horror, só que o Pedro (Severien, diretor) é muito leve, brinca o tempo todo no set. E tem uma coisa também de rir de si mesmo, sabe? O Pedro tem uma sofisticação e um pé no trash ao mesmo tempo, então a gente assistia (Andrei) Tarkovsky e uns filmes de vampiro B na preparação.

E ele me colocou para contracenar com um jacaré, que é uma coisa que até hoje eu não entendo como consegui fazer aquilo. Havia uma cena em que eu tinha que me aproximar do jacaré e a cerquinha que me separava era cenográfica. Eu sempre fui meio metida a ser corajosa, mas na hora em que ele falou “ação” eu não conseguia atuar, fiquei alguns segundos parada. Consegui filmar na segunda tentativa, mas foi um pânico total.

Eu filmei o Loja de Répteis em 2012, antes do Estátua!, então ele foi meu primeiro encontro com esses códigos de filmes de gênero, de brincar com isso, de fazer uma coisa que flerta com o filme trash, se arrastar no chão, levantar a mão em câmera lenta. E foi uma delicia de fazer.

 

CF: Como foi a experiência como preparadora de elenco do curta-metragem Sem Coração, de Nara Normande e Tião, e do longa Big Jato, de Cláudio Assis?

MJ: Eu nunca tinha pensado em ser preparadora, e quando aconteceu foi um susto. Na verdade isso partiu de uma relação de admiração que eu tenho pelo Tião e pela Nara (Normande) e que eles têm pelo meu trabalho. Eles me chamaram, falaram que tinham esse roteiro e queriam uma atriz que eles admiravam para acompanhar e ajudar eles no trabalho com os atores. Era um roteiro poderoso, simples, belíssimo, e eu já era admiradora do trabalho dos dois.

Essa primeira experiência no Sem Coração trouxe uma coisa muito importante para mim, que foi uma forma de eu organizar minha experiência como atriz para poder provocar os outros atores e ajudá-los a chegar em outro lugar, estimular a sensibilidade deles. Isso foi super importante para minha preparação como atriz inclusive.

Eu não pensava em voltar a trabalhar como preparadora, mas surgiu esse convite do Cláudio, e além de meu desejo de trabalhar com ele havia a coincidência de o protagonista de Big Jato, Rafael Nicácio, ser o mesmo ator com quem eu tinha trabalhado em Sem Coração.

Respeito tanto esse ofício (de preparadora de elenco) que ainda estou tentando entender o que é minha relação com ele. Não sei como vai ser daqui em diante, se eu voltarei a exercê-lo, mas foram experiências muito especiais para mim, que me ensinaram muito.

 

CF: A escolha por trabalhar com diretores jovens é consciente? Qual é a sua relação com os curtas-metragens?

MJ: Eu acho que passa muito mais por eu ler um projeto e me identificar com ele e ver alguma coisa potente do que necessariamente por um pensamento de valorizar jovens diretores. Acho que o que acontece muito é que eu me interesso por essa potência que muitos diretores jovens trazem. Talvez eles corram mais riscos, tenham uma certa ousadia que me interessa.

Eu já recusei convite para um trabalho na televisão aqui em São Paulo, de um diretor bastante estabelecido, com duração de nove meses e um bom salário, porque eu achava que devia fazer o Amor, Plástico e Barulho. É muito intuitivo também. Acho que tem a ver com buscar projetos que sejam muito autênticos, e isso tem a ver com a identidade de cada um dos realizadores.

É claro que há projetos de diretores veteranos que me interessam fazer ou que eu gostaria de ter feito, mas eu confesso que tenho uma tendência a projetos que são mais ousados. É muito comum eu ler alguma coisa e pensar: “ah, isso é tão careta, eu já vi isso antes”. Aí depois leio alguma coisa que me interesso e tenho vontade de fazer.

E não importa a duração do filme. De forma alguma eu coloco o curta num lugar menor do que o longa. É evidente que o curta tem uma dificuldade comercial maior, a maioria das pessoas que assiste curtas são aquelas que vão a festivais. Nesse sentido o curta é um pouco mais complicado, mas hoje em dia até isso mudou com a internet. Os filmes, os projetos e as pessoas que estão falando coisas me interessam, independentemente do formato do filme.

 

CF: Por ser o seu primeiro papel de protagonista em um longa-metragem e ter uma personagem desafiadora, Amor, Plástico e Barulho pode ser considerado outro ponto marcante da sua carreira no cinema?

MJ: O Amor, Plástico e Barulho me projetou em outro grau de curva dramática, de uma forma que eu ainda não tinha conseguido experimentar como atriz. Nem no teatro eu havia feito uma personagem com esse espaço na narrativa e com esse grau de protagonismo. Também havia desafios de outras ordens, como cantar. A Bia de O Som ao Redor tinha um corpo e um universo muito mais próximos para mim do que a Jaqueline Carvalho (personagem da atriz em Amor, Plástico e Barulho).

Foi um filme em que eu tive um mês para ensaiar o personagem e me virar para cantar aquelas músicas, e isso foi um super desafio. A relação dela com o álcool também. Eu bebo muito pouco, então isso era uma preocupação: tentar construir essa relação com o alcoolismo sem ser clichê.

A partir do Amor, Plástico e Barulho eu comecei a entender como organizar o material imagético, sonoro, subjetivo, o treinamento técnico, a importância do ambiente, todo esse conjunto de coisas que compõem a personagem. O tamanho dela me obrigou a pensar isso de uma maneira que eu não tinha feito até então.

 

CF: A premiação como melhor atriz no Festival de Brasília de 2013, por sua atuação em Amor, Plástico e Barulho, foi um ponto consagrador na sua carreira no cinema?

MJ: Eu já havia participado do Festival de Brasília em 2007 com Falsa Loura, estive lá como espectadora em 2010 e participei de dois filmes (Boa Sorte, Meu Amor e Era Uma Vez Eu, Verônica) da competição em 2012, mas não pude vir ao festival. E aí em 2013 teve o Amor, Plástico e Barulho. Foram absolutamente emocionantes os aplausos na cena do Chupa que é de Uva. E para além do prêmio que veio depois, eu lembro muito das reações das pessoas vindo falar comigo, muitas mulheres vinham conversar e choravam, e aí eu ficava muito emocionada também. Acho que é esse o momento maior de comunhão.

Eu sempre falo que acho a condição humana extremamente solitária. Por mais pessoas queridas que a gente tenha ao redor, a gente existe aqui dentro, é frequentemente solitário. E nesses momentos (de exibição em festivais) acho que existe um encontro. Quando percebo que a partir dessa entrega você consegue construir uma ponte entre essas solidões, aí eu entendo porque amo tanto fazer isso, porque faz sentido fazer o que a gente faz.

 

CF: Em 2014, mais uma vez você teve experiências marcantes no Festival de Brasília: esteve em três curtas-metragens da competição, foi premiada como melhor atriz em curtas pelo trabalho em Estátua! e participou do júri de longas-metragens. O que ficou dessa nova passagem pelo festival?

MJ: Eu falei isso quando recebi o prêmio de melhor atriz por Estátua!, que eu achava que não fosse possível viver um festival mais intenso e emocionante do que eu tinha vivido em 2013, e aí veio o festival de 2014 com três curtas, foi muito intenso. Como estava no júri, eu subia para apresentar um trabalho, voltava para a cadeira super nervosa, mas precisava ligar uma outra chave e ficar concentrada no outro filme.

Eu tenho uma ligação super forte com o Festival de Brasília. Fazer parte desse júri de pessoas incríveis como Orlando Senna, Hilton Lacerda, Ana Paula Sousa e Anna Luiza Azevedo, ficar ali debatendo os filmes e as nossas impressões e aprender tanto sobre isso, sobre essas subjetividades, e racionalizar isso tudo, foi ótimo. Aprendi muito sobre cinema.

Além disso – pode ser que eu esteja falando isso completamente contaminada pela minha experiência particular nesse festival -, eu achei essa uma edição muito especial, pelo recorte de filmes que a curadoria levou para o festival, pelo que aconteceu na última noite, a coisa de os diretores dividirem o prêmio, pela qualidade dos filmes que estavam ali sendo discutidos… Me senti extremamente privilegiada por me ver no meio de uma edição tão especial nessa condição de artista e também de júri, foi uma experiência fortíssima.

 

CF: Quais são os seus festivais preferidos e quais características você mais aprecia nos festivais?

MJ: Eu tenho uma relação super especial com o Festival de Brasília por toda essa minha história com ele. Acho que os festivais de uma forma geral são uma experiência importante pela cinefilia, pela chance que você tem de assistir a um panorama do que está sendo feito, pela chance de encontrar as pessoas, de ver realizadores falando da própria obra, de poder fazer perguntas. Como artista, você pode presenciar a reação das pessoas – gostando ou não, acho que é sempre uma chance de a gente questionar o que fazemos. Às vezes você reafirma o que quer, ou repensa, é um momento precioso nesse sentido.

Como atriz, quando não estou apresentando filmes, os festivais são um lugar de estudo importantíssimo. Quando eu vou para um set, leio um roteiro ou me envolvo com qualquer trabalho, eu estou o tempo todo habitada pelo meu repertório de imagens, por tudo o que está me alimentando visualmente ou subjetivamente, então esse repertório é muito construído nessas experiências com festivais.

Eu tenho uma relação com o Janela Internacional de Cinema do Recife que passa muito por esse lugar. Eu brinco com o Kleber (Mendonça Filho, diretor do festival) e com a Emilie (Lesclaux, também diretora do evento) que é uma pequena universidade condensada pra mim. Aconteceu de em varias edições do Janela de eu estar em Recife e poder separar aquela semana do festival para poder ficar assistindo filmes, e eram coisas tão preciosas e diferentes entre si que eu me sentia expandindo meu gosto e experimentando estéticas e possibilidades diferentes.

Conheci pessoas incríveis em festivais. Aqui na Mostra de São Paulo eu conheci o Lav Diaz (cineasta filipino) e tivemos conversas incríveis. Eu levei minha avó de 80 e tantos anos para assistir a um “curta” do Lav Diaz de quatro horas, e ela ainda ficou depois no debate fazendo perguntas para ele… São filmes que você não vai encontrar nunca no cinema comercial. Eu acho essa troca entre o espectador e o realizador muito preciosa. São momentos únicos que acontecem nesses lugares.

 

CF: No discurso após receber o prêmio de melhor atriz em curta-metragem no Festival de Brasília de 2014, você falou sobre a necessidade de o cinema brasileiro ter mais personagens femininas, e com um maior aprofundamento psicológico. O que você tem a dizer sobre essa questão?

MJ: Essa inquietação me veio em relação não só ao lugar da mulher no cinema, mas à forma como ela é representada. Já li roteiros extremamente machistas escritos por mulheres.

Sabemos que quantitativamente a mulher está muito menos presente no cinema do que os homens, e isso se reflete na dinâmica do cinema, nas narrativas, na forma como os personagens são vistos e como esse cinema é construído para o espectador. Mas além da presença da mulher no audiovisual, outra questão é como essa mulher se coloca.

Eu tinha algumas inquietações que eram extremamente intuitivas. Quando eu assisti ao documentário A Negação do Brasil, do Joelzito Araújo, que faz uma análise do papel do negro na teledramaturgia brasileira, aquilo me colocou para pensar muito sobre que lugar é esse o do ator, que é um elemento desse discurso e está ali construindo com o corpo e com a sua subjetividade.

Que grau de poder você tem no sentido de ser um agente modificador desse discurso, de levar o seu depoimento? Esse é o papel desse ator autor. No menor grau que seja, nós somos responsáveis também por esse discurso. Eu posso ler um personagem e falar o mesmo texto, mas colocar esse personagem em lugares muito diferentes subjetivamente, dentro de um contexto muito maior.

Eu vivo num mundo machista, a história da humanidade foi essencialmente construída pelo olhar masculino e liderada pelos homens. Existem pequenas mudanças nas últimas gerações e a minha geração faz parte disso, mas quando eu comecei a pensar sobre isso, e eu acho que organizei as ideias mais claramente a partir desse documentário, eu penso sobre a relação do ator com o que ele constrói, o que ele diz. Ela não pode ser ingênua.

Eu me perguntei por que eu nunca tinha pensado sobre isso dessa forma, que eu acho tão fundamental… a gente está construindo discursos, e eu me sinto contribuindo de alguma forma, por menor que seja, para um imaginário coletivo, não só para minha geração, mas também para as próximas.

Então eu me pergunto: como é que eu quero falar da mulher? Que lugar é esse dela na narrativa, como ela se coloca? A partir do momento que eu organizo minimamente essa inquietação eu não consigo mais ler um texto e não considerar essa inquietação ou fingir que eu não penso mais nisso. Não consigo mais ler um texto e não pensar por que a personagem responde dessa forma, por que está nesse lugar, e quanto mais perguntas eu faço, mais perguntas me vêm, e eu tenho sentido vontade inclusive de conversar sobre isso com as pessoas. Tenho feito isso com colegas, inclusive tem sido muito surpreendente e muito bom perceber que eu tenho muitos colegas homens do cinema que tem se mostrados extremamente interessados em discutir esse tema.

 

* Colaborou Ivan Oliveira

 

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