Desde 2010, quando entrou no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará, Leonardo Mouramateus (Lição de Esqui, A Era de Ouro, O Completo Estranho) vem trilhando uma carreira prolífica e premiada nos curtas-metragens. No último mês de março o cineasta recebeu pela segunda vez o troféu principal para filmes do formato no festival francês de documentários Cinéma du Réel, no qual havia saído vencedor em 2013 com Mauro em Caiena. A honraria deste ano foi concedida a A Festa e os Cães, seu mais recente trabalho, que terá as primeiras exibições no Brasil durante o 20º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários (veja abaixo os horários das sessões).

Quando finalizava mais um de seus curtas-metragens (o ainda inédito História de Uma Pena), Mouramateus comprou uma máquina fotográfica analógica, com a qual fotografou seus amigos, as festas e as ruas de Fortaleza. Este material serviu como base para que ele roteirizasse A Festa e os Cães.

Atualmente morando em Lisboa (Portugal), onde cursa mestrado em Arte Multimídia, o diretor conversou por e-mail com o Cine Festivais a respeito de seu novo trabalho.

 

Cine Festivais: Em que momento você se deu conta que aquelas fotografias que estava tirando poderiam servir como base para um filme? O que o levou a fazer essa associação entre os cães de rua e os jovens festeiros de Fortaleza?

Leonardo Mouramateus: Não há um momento específico. Há sobretudo um gesto contínuo. A cada foto ampliada, a impressão de que aquilo poderia constituir um filme aumentava. Nesse caminho as dúvidas eclodiam tanto quanto as fotos. Não era como um roteiro que eu escrevesse. Eu tinha então a oportunidade de fazer ligações entre as imagens muito diferentes entre si, e que no negativo ficavam lado a lado. A relação entre cães e festas foi uma destas ligações.

 

CF: Temos exemplos de obras-primas do cinema realizadas com fotografias, como é o caso de La Jetée, de Chris Marker. Em A Festa e os Cães, o recurso é utilizado durante quase toda a duração. No que o fato de fazer um filme com fotografias te limitou e, por outro lado, como isso trouxe novas possibilidades para o seu discurso cinematográfico?

LM: Filmar fotos serviu sobretudo para eu me concentrar em aspectos mais essenciais das coisas que me interessam faz um tempo. De maneira mais elementar: cidade, palavra, juventude. As fotos estão em movimento – são passadas pela minha mão – e ao mesmo tempo acusam um movimento, sobre as vidas e as paisagens presentes naquelas fotos. São também a base para as vozes que constituem o filme. O filme talvez possa ser encarado como um plano detalhe de uma mesa, enquanto fotos são mostradas, como em alguns planos de As fotos de Alix, do (Jean) Eustache. É um filme que gosto muito, muito simples e misterioso.

 

CF: A escolha da máquina analógica também tem um aspecto de segurança, por ser menos visada em uma realidade de violência urbana. De maneira menos explícita em Mauro em Caiena, e agora mais à tona em A Festa e os Cães, aparece a questão da necessidade da ocupação do espaço público em conflito com as transformações urbanas predatórias e sem planejamento. Em ambos os filmes, pessoas já saíram (seu tio) ou estão saindo (você) de suas cidades. A ideia de sair de Fortaleza também já acompanhava o personagem de Lição de Esqui. Por que esse tema aparece tão recorrentemente em suas obras?

LM: Minha posição não é a fuga, mas a ocupação, como bem notado. A violência eu não filmo de frente, mas é um tema que está enquadrado em cada uma das fotos, no espaço entre um flash e outro. Para mim e meus amigos uma das maneiras possíveis de viver a cidade é a festa, feita por nós mesmos. Outra maneira é o cinema. Fui embora simplesmente porque sofro desse mal que é o exílio.

 

CF: Por dar voz a outras pessoas da mesma faixa etária, A Festa e os Cães é também uma tentativa de falar sobre os anseios dessa geração? Houve uma roteirização prévia das falas dos outros personagens em A Festa e os Cães?

LM: Eu não pretendo falar de geração. Ali são meus amigos. O filme foi escrito por mim, a partir das conversas que tivemos. Em festas, postos de gasolina, lanchonetes 24 horas. Se as conversas falam bem mais do que só sobre festas e sobre cães é porque há qualquer coisa nas fotos e nas conversas que falam de um coração maior. “Tu sabes como é grande o mundo.”

 

CF: Seus filmes são permeados pelo uso da música, principalmente a eletrônica. Qual é a influência da música durante o seu processo de criação, seja na pré-produção ou na produção dos trabalhos?

LM: Eu escuto muito. Acho que uma ideia de ritmo, de coisas que, mesmo paradas, vibram. Mas cinema não é música. Música é melhor.

 

CF: Seus dois filmes premiados no festival Cinéma du Réel trazem histórias pessoais mas não se contentam em utilizar apenas elementos do documentário tradicional. Pelo contrário, nota-se uma construção ficcional clara, seja no uso de imagens do Godzilla ou de uma garota em uma pista de dança, em Mauro em Caiena, seja na decupagem da cena em que você fala sobre a música eletrônica em A Festa e os Cães. Há mudanças significativas no seu processo de criação entre os filmes enquadrados como “ficção” (O Completo Estranho, Lição de Esqui, A Era de Ouro) e como “documentários” (Mauro em Caiena, A Festa e os Cães)? Esta divisão faz sentido para o seu cinema?

 LM: Não. É a mesma coisa. Talvez nas ficções eu ensaie mais.

 

CF: Indo mais além, qual é a importância, nos dias de hoje, de festivais como o Cinéma du Réel e o É Tudo Verdade, que sejam voltados exclusivamente para documentários?

LM: Dar visibilidade a filmes que em outro lugar nunca seriam exibidos.

 

CF: As duas vitórias no Cinéma du Réel podem servir como porta de entrada para seus próximos filmes em importantes festivais europeus. Essa inserção é um de seus objetivos? Pela sua experiência, como essa nova geração de cineastas brasileiros tem sido recebida pelos olhares estrangeiros?

LM: Quero ter condições para continuar a fazer filmes. Se ser selecionado em grandes festivais e ganhar prêmios ajuda, tanto melhor. Ao mesmo tempo em que há um interesse para uma produção nova e bastante interessante, haverá sempre uma movimento de domesticação desta produção por este mesmo olhar estrangeiro. É ridículo. Clichês de um país e de um certo cinema só são possíveis se houver conivência,

 

CF: Qual é a importância de estrear A Festa e os Cães na seção competitiva do É Tudo Verdade?

LM: Nunca exibi filme lá. É importante, até estranho, exibir esse filme lo-fi num festival tão rico.

 

CF: Como estão os preparativos para o seu primeiro longa-metragem, A Pista de Dança? Do que o filme vai tratar? Como a sua experiência grande, porém de poucos anos, na realização de curtas-metragens, servirá como base para o trabalho?

LM: Estou escrevendo algo parecido com o roteiro. E desenhando. Desenho mais do que escrevo. O filme fala da mesma coisa. Jovens, coração partido, pessoas com idéias estúpidas, festas, Fortaleza. É um filme com muitas pessoas. A diferença desse filme para um dos meus curtas vai ser a duração. E o catering.

 

CF: Qual será a diferença mais significativa em termos de linguagem na passagem dos curtas para os longas? Mesmo depois do longa, você pretende seguir fazendo curtas?

LM: É basicamente a mesma coisa. Acho que talvez mais gente me leve a sério. Mas devo seguir fazendo curtas. Os filmes que dizem quanto devem durar.

 

Sessões de A Festa e os Cães no 20º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários:

- 15/4/2015 – 13h – Cine Livraria Cultura (São Paulo)

- 16/4/2015 – 17h – Espaço Itaú Botafogo (Rio de Janeiro)

- 17/4/2015 – 13h – Espaço Itaú Botafogo (Rio de Janeiro)

- 19/4/2015 – 17h – Centro Cultural São Paulo – Sala Paulo Emílio (São Paulo)