Quem vai a uma sessão do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, cuja 25ª edição acontece até o dia 31 de agosto, pode escolher entre programas brasileiros, mostras internacionais e latino-americanas ou algum dos programas especiais. Na sala de cinema, a exibição conterá, geralmente, cinco ou mais filmes de diversos gêneros e oriundos de diferentes países. Nem todos sabem, porém, que o engenho da extensa programação é fruto do trabalho de um comitê de selecionadores que passam o ano inteiro analisando inscrições; 3 mil por ano, em média.

“São muitos filmes para ver, implica em um certo sacrifício, então só acontece se houver prazer”, diz Anne Fryszman, responsável pelo comitê de seleção da Mostra Internacional do Festival. “Na primeira fase, dividimos os filmes por região geográfica. Para isso, tento saber um pouco dos selecionadores, do que eles gostam, para que eles tenham prazer”, revela a curadora.

Ela própria aponta alguns filmes interessantes, como o canadense Nevermind, que traz uma atriz improvisando uma situação em que uma mulher volta ao hotel onde estava quando o roqueiro Kurt Cobain se suicidou, e o austríaco River Plate, um retrato, em preto e branco, que o aclamado fotógrafo Josef Daberning faz de uma família à beira de um rio.

 

Unidos pela diversidade

O processo de curadoria do festival se organiza a partir de comitês mistos, recebendo, ano a ano, selecionadores novos que se juntam a antigos membros. “É um pouco como trocar a água de um aquário, tem que trocar por parte”, compara Anne. “Isso também permite que estabeleçamos uma ponte entre os processos de seleção dos anos anteriores, ao mesmo tempo que traz novos elementos e olhares que contribuem bastante para estabelecer o perfil da seleção a cada ano”, completa Marcio Miranda Perez, organizador dos Programas Latino-Americanos.

O observado até aqui é que a heterogeneidade no time de curadores se reflete numa seleção mais diversificada e inclusiva, mesmo que, para isso, visões pessoais sejam confrontadas, como confessa Marcio: “Muitas vezes, me deparo com um filme que não dialoga diretamente comigo, mas é preciso saber identificar o perfil e as qualidades de um filme de forma mais ampla e junto a vários públicos.”

Potencializado pela pluralidade da programação, o espaço ao curta-metragem independente tem revelado as tendências cinematográficas e os temas mais fortes no Brasil e em cada canto do mundo. Márcio explica que o “curta-metragem é sempre um forte indício das inquietações e questionamentos que enfrenta cada país e cada geração de cineastas”.

Ele identifica dois exemplos concretos no Programa Latino-Americano: o novo cinema chileno, a fim de explorar dramas lentos e a personalidade marcante das paisagens de seu país, e os jovens diretores argentinos (muitos vindos da Universidad del Cine de Buenos Aires), cujos longas de hoje refletem o que trabalharam nos curtas que estiveram no festival há alguns anos. Ele destaca ainda o Centro de Capacitación Cinematográfica do México, que vem se destacando na formação de jovens talentos do cinema.

Na análise da programação internacional, a curadora Anne Fryszman ressalta que, “por ser mais fácil e mais barato de se fazer, o cinema de curta-metragem possui um frescor, uma liberdade e uma atualidade muito grandes”. Para ela, a mostra desse ano acabou trazendo à tona temas como adolescência, infância e família, o que originou o programa especial Diversidade Sexual – Assunto de Família, de temática LGBT.

 

(Na foto acima, a equipe que faz o Festival de Curtas de São Paulo)

 

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