No momento em que se completam 30 anos da volta – embora por via indireta na ocasião – de um civil à Presidência da República, as evidentes lacunas de memória e os resquícios de práticas e mentalidades da Ditadura Militar em nosso cotidiano têm servido como impulso para filmes que discutem o período sem recorrer a simplificações ou meros discursos para “convertidos”.

Este é o caso dos ótimos longas-metragens Orestes, de Rodrigo Siqueira, e Retratos de Identificação, de Anita Leandro, e também, em menor escala, do curta-metragem Uma Família Ilustre, de Beth Formaggini, que faz a sua estreia mundial no 26º Festival Internacional de Curtas de São Paulo.

O trabalho de Formaggini tem como foco uma conversa entre Cláudio Guerra, agente responsável por mortes e desaparecimentos de cadáveres de militantes contra a Ditadura Militar, e Eduardo Passos, psicólogo defensor dos direitos humanos. A escolha de Passos, e não da diretora, para conduzir o diálogo, se revela um acerto devido ao caráter no mínimo contraditório da trajetória de Guerra.

De Bíblia na mão e pedindo para ser chamado de pastor – cargo que ocupa atualmente em uma igreja evangélica -, o entrevistado conta algumas das suas práticas como agente da Ditadura. Um tiro na cabeça de um militante detido é descrito por ele como uma atitude de “misericórdia”, em um exemplo de entrecruzamento peculiar de conceitos repressivos e religiosos; quando rostos surgem em uma projeção dentro da sala de entrevista, Guerra não demonstra emotividade ao apontar para fotos 3×4 e citar os nomes de pessoas assassinadas ou incineradas por ele mesmo.

A revelação dos modos de incineração dos corpos dos militantes de esquerda em um forno de uma usina de açúcar faz lembrar métodos utilizados pelos nazistas no Holocausto. Referência nesse tema, o monumental documentário Shoah, do francês Claude Lanzmann, surge como um paralelo possível com o filme de Formaggini não só pela brutalidade das violações cometidas, mas pelo teor da defesa de quem praticou crimes bárbaros. Assim como no caso de muitos alemães dos anos 40, Guerra se diz apenas um cumpridor de ordens, embora admita que sentia prazer em ter poder e ser temido pela posição que ocupava no regime militar.

Um ponto a ser destacado é o tratamento sóbrio dado pela direção ao entrevistado. Não é preciso o uso de uma trilha sonora emotiva ou de métodos para constranger Guerra; o ex-delegado revela os crimes que cometeu, a sua visão dos fatos e o caminho que a sua vida veio a tomar, deixando ao espectador a mesma indagação que ele sugere em certo momento do filme (“tem gente que não acredita na minha mudança”).

A frieza com que se refere a assassinatos é um dos fatores que colocam Guerra no centro do documentário e mantém a atenção (e a perplexidade) do espectador, mas a tentativa de inserir a história da mulher de um ex-militante morto pelo agente de repressão enfraquece o filme narrativamente.

A própria diretora admite, em voz off no início do documentário, que um dos objetivos iniciais (esclarecer a morte do militante Itair José Veloso) não foi alcançado, e o filme deixou mais dúvidas do que respostas. Ao optar por manter na montagem final a história da viúva de Itair, Beth Formaggini certamente deu visibilidade a um caso de sofrimento que merece ser conhecido, porém diluiu um pouco a força daquilo que seu filme tem de melhor: ser uma investigação dolorosa, mas honesta, sobre a crueldade humana.

Nota: 7,5/10 (Bom)

 

Sessões de Uma Família Ilustre no 26º Festival Internacional de Curtas de São Paulo:

25/8 – Terça – 17h – Centro Cultural São Paulo (Mostra Brasil 2)

28/8 – Sexta – 19h – Cinusp Paulo Emílio (Mostra Rastros de Ódio)

 

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