O absurdo da existência é o mote utilizado pelo cineasta sueco Roy Andersson em seu filme Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência, vencedor do último Festival de Veneza. Seja em cenas em que personagens morrem subitamente ou em passagens em que pessoas fazem coisas absolutamente banais, o estranhamento é o condutor deste mosaico melancólico a respeito do ser humano.

Sem ter a pretensão de contar uma história linear, o filme é formado por pequenas esquetes que resultam em parcos 39 planos ao longo da projeção. Todos eles são fixos (ou seja, não há nenhum movimento de câmera). Outras características completam uma estética bem peculiar: a profundidade de campo é sempre grande e a distribuição dos atores no quadro não é óbvia, o que dá maior liberdade para o olhar do espectador; os atores são pálidos, muitas vezes às custas de uma pesada maquiagem, e as atuações vão de encontro ao naturalismo; e a fotografia com paleta de cores frias acentua a melancolia predominante.

A história se passa majoritariamente em cenários internos, mas muitos enquadramentos valorizam janelas, portas e frestas que apontam para o mundo exterior. É como se o diretor sugerisse as possibilidades não aproveitadas pelos personagens, que estão enclausurados em suas vidas nada empolgantes.

Há dois personagens que aparecem mais regularmente e servem, de forma tênue, como condutores do filme. São vendedores que vão a diferentes lugares dizendo ter por objetivo levar a diversão a outras pessoas através de seus três produtos, entre eles uma máscara e um dente de vampiro. Acontece que a tristeza e a fala monocórdica dos dois contrasta com o nobre objetivo do trabalho, o que acaba gerando um tipo peculiar de humor negro que está presente também em outras cenas, como naquela em que a refeição de uma pessoa recém-falecida é oferecida aos presentes.

O riso é apenas um dos elementos usados por Andersson para tratar da artificialidade e da apatia da vida contemporânea. Outra característica marcante de seu trabalho é o apreço pela repetição, seja de situações ou de locais. Mesmo com idas e voltas no tempo ou com a troca de pessoas, a monotonia prevalece, os diálogos permanecem propositalmente desinteressantes (“está tudo bem?”) e a humanidade cede lugar à mecanicidade.

Ao tratar de temas universais, o filme permite uma leitura mais brasileira: ao longo dos seus 101 minutos, parece que observamos “aquelas pessoas da sala de jantar” da música d’Os Mutantes, que estão somente ocupadas “em nascer e morrer”. A questão é que, pelo humor e pelo estranhamento, o trabalho passa longe de qualquer pretensão catártica – não são eles, somos nós – e consegue inserir o espectador em sua reflexão existencial.

Nota: 8,0/10 (Ótimo)

 

*Filme visto na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo