Já parasitada pela generalização da vista grossa criminosa, muito da memória brasileira vem sendo brutalmente assaltada pelas correntes efêmeras de informação, daquelas repletas de anacronismos históricos, muito representativas da era da pós-verdade. Nesse passo, o que será da memória das futuras gerações? Torre, de Nádia Mangolini, atravessa essa questão ao abrir a fenda pela qual é possível revisitar os efeitos sociais lacerantes da Ditadura Militar no Brasil, por meio da perspectiva de quem viveu a infância sob a opressão violenta do regime.

Dando voz exclusivamente aos herdeiros do trauma, o filme restaura a longevidade e o peso da memória para novos públicos, facilitado pela estrutura de uma narrativa que, na direção oposta ao esquecimento, bebe da lembrança mais recente do período (e mais tímida) até a mais distante (e mais vívida).

Consciente ao mesmo tempo de seu fardo e do seu esvaecimento, a memória no filme é visualmente profunda e pulsante. Dos fragmentos sinestésicos que sobram às primeiras memórias da vida à clara lembrança do abuso e desmembramento da família, as vozes dos quatro filhos de Ilda Martins da Silva compartilham acontecimentos que ganham novos acabamentos na animação, do esmaecido rascunho à tinta em relevo. Na (in)coerência da opressão, pela mesma medida em que as recordações vão se tornando mais vívidas, elas gradualmente tornam-se avessas às vozes documentadas.

Lidando ao mesmo tempo com o resgate e o distanciamento da memória violenta de um período obscuro, o filme não tem um perfil sanguinolento. De outra forma, assistimos a uma história de desaparecimento e mistério, em que a animação desenha o sequestro dos pais de Isabel, Gregório, Virgílio e Vlademir, dando àqueles a condição de fantasmas, figuras que atravessam a tela no vazio, devido a suas diferentes camadas.

Entre essas mesmas camadas por onde a ausência no filme é articulada, atinge-se grande profundidade na montagem, daquela que parece ser impossível alcançar fora do âmbito do cinema de animação. É pelas brechas dessas estruturas que compartilhamos da visão da mãe encarcerada na infame “torre das donzelas” do Presídio Tiradentes, assistindo aos seus quatro filhos crescerem ao longe enquanto acenam. Não estamos somente dividindo do ponto de vista dela, mas também da sua condição espectral na cena. Da torre, ela não consegue ser vista de volta, interagindo somente através de uma fenda.

Nessa direção, o filme serve-nos de transparências e espelhamentos, num esforço de representar essa e outras barreiras (mais ou menos visíveis) que o regime militar impôs entre pais e filhos. A formação do traço animado na tela transforma a perspectiva livremente para enxergarmos não somente o isolamento entre as gerações, mas também a alienação das crianças, que parecem afogar lentamente num processo de força incontrolável cuja única saída aparenta ser a de drenar toda a água, ao invés de encontrar a superfície novamente.

Para construir essas imagens, Torre valoriza o protagonismo das suas falas e, através do formato do documentário animado, enfrenta muito significativamente suas questões de representação.

Com estética que espelha as escolhas de Quando Os Dias Eram Eternos, produção anterior do mesmo estúdio, a confecção de cada frame assume a sua reconstrução por parte da mão dos realizadores, responsabilizando a construção poética-documental do filme assertivamente. Sua vitalidade política é chave para escapar das armadilhas da autoindulgência das quais já se referia o crítico e teórico da memória cultural Andreas Huyssen.

Muito além de um mero registro, a animação documental intervém no paradoxo da lembrança do trauma, cujo indício fotográfico pode ser auto-destrutivo. Se por um lado a figura desaparecida do pai é inquietante, ao mesmo tempo a confirmação física do seu falecimento e tortura é igualmente ou mais perturbadora. O sadismo dessa lógica rasga os Direitos Humanos impunemente, e aumenta a distância entre as gerações no filme.

Assim, o último frame da animação não é vazio ou em branco. Se há algo a ser assimilado depois do fim, mesmo que apenas para persistir na retina, não é o enfraquecido relance de uma memória incipiente ou resguardada, mas sim a imagem em movimento dessas pessoas reunidas, provas vivas de uma memória que merece nossa vigilância, ainda que um dia só nos reste o vislumbre lapidado no tempo de Torre, através da fenda na janela do cinema.

 

*Torre foi selecionado para o 28º Festival Internacional de Curtas de São Paulo e para o 50º Festival de Brasília