Há tempos venho relativizando essa mania, minha e de muitas pessoas, de taxar certo filme de “triste”. Além da subjetividade inerente a esse tipo de julgamento, é comum classificarmos assim o longa que traz algum evento trágico: uma morte inesperada, um sacrifício, uma despedida ou um amor interrompido por uma doença. Mas a força catártica e dramática desses momentos depende de um movimento dialético da trama; não se sofre com uma ruptura se a união não se mostrou virtuosa antes.Porém, há filmes que se revelam em si um organismo triste, exalando dor por todos os poros sempre. Pois Sem Deus, de Ralitza Petrova, é minha definição de “filme triste”. Não há para onde olhar sem ser dementado por graus limítrofes do dissabor da vida.

Para se ter uma ideia: o enredo trata de uma cuidadora de idosos, Gana (Irene Ivanova), que tem como atividade paralela vender os documentos de identidade de seus pacientes para agentes do crime organizado, que gozam da falsidade ideológica, limpando seus nomes (e sujando os dos idosos, claro). O cotidiano de Gana também inclui um namoro furibundo, uma relação indigesta com sua mãe e a paisagem pálida e estéril de uma pequena cidade da Bulgária. O passado dela, saberemos, é traumático. Ou seja, personagem, trama, tema e ambiente formam um universo que afronta qualquer humanidade.

Nesse contexto de desgosto pleno, sinto que analisar a mise-en-scène de Petrova e as opções da cinematografia é ficar empilhando adjetivos e sinônimos para descrever a ideia de secura realista (crueza, frieza, aridez, etc.), com algumas concessões a recursos formais interessantes (todos para pontuar a dor, a solidão ou a indiferença). Vale, porém, reconhecer na atuação de Irene Ivanova um valor maior do filme. Gana é uma personagem maculada pela vida o suficiente para não ter expressão alguma sobre nada. Vive o dia a dia em marcha automática, com a sobrancelha estática e o olhar arruinado. Mesmo em viradas importantes da trama (como quando um cliente descobre o que ela faz com os RGs e ela precisa “silenciá-lo”), não há descontrole, sua ação carece completamente de ênfase emocional.

O brevíssimo feixe de luz que seria evidência de que há alguma alma dentro daquele corpo surge na empatia que Gana sente por Yoan, maestro de um coral de música sacra. É preciso ressaltar o quanto isto é cirúrgico, minúsculo, pois a princípio seria difícil crer que alguém com as feridas de Gana terá qualquer redenção simplesmente por ouvir um coral a capella.

O desafio da interpretação é, portanto, fazer-nos perceber que Gana foi tocada, mesmo mantendo 99% de sua personalidade num estado de pedra bruta, incompatível com um gestual minimamente necessário para representar qualquer transformação. Irene Ivanova consegue encontrar esse cubículo em seu acting e ergue-se uma das melhores atuações do ano. Mas a trama pesada de Sem Deus é implacável e não admite qualquer tipo de purificação, pois, para tal, Gana precisaria de um lugar para onde correr. O que é triste, por fim, é que não é uma questão individual, pois a desgraça incurável está em toda parte.

 

Sessões do filme na 40ª Mostra de São Paulo

Dia 25/10 – 15h – Circuito Spcine Paulo Emilio – CCSP

Dia 29/10 – 15h – Circuito Spcine Olido

Dia 02/11 – 21h30 – Cinearte 2