Sem Data, Sem Assinatura explora um personagem triste vivendo um dilema moral que é bastante curioso em sua formulação e incômodo na perspectiva perturbadora de seus efeitos futuros.

O personagem é Nariman, um médico patologista forense. O roteiro não se aprofunda em sua vida pregressa nem descreve as cores de sua personalidade, mas pinta sua condição: é um homem solitário e vive com a mãe, já em estado terminal, padecendo numa cama.

O dilema se constrói a partir de uma noite em que Nariman causa um acidente de trânsito ao entrar em choque com um motoqueiro, que levava na garupa a esposa e seus dois filhos: um bebê e um menino de oito anos, que acaba se ferindo. Nariman presta toda a ajuda e recomenda que o garoto vá ao hospital, mas o pai não segue o conselho.

No dia seguinte, o hospital recebe o corpo do garoto, mas a autópsia indica botulismo como causa da morte. Nariman, então, ciente do acidente que causara horas antes, desconfia da precisão do exame, feito por sua chefe.

A ironia do dilema se instaura já na profissão do protagonista, pois realizar uma autópsia é a tradução médica para “atribuir culpa”. Quem levou uma vida como perscrutador das causas e responsabilidades alheias agora também ocupa lugar no outro lado da fronteira científica.

Questionar a autópsia e considerar a exumação do cadáver para um novo procedimento significa causar mais dor à família e polarizar a solução: se o garoto morreu por causa do acidente, a culpa se consolida como um estorvo individualizado, recaindo sobre os ombros de Marinan; mas se de fato a causa é o botulismo, o pai se sentirá responsável pela má alimentação do garoto, o que resultaria numa projeção social da culpa, implicando toda uma cadeia de “responsáveis”.

O roteiro é esperto, não fica urubuzando o sofrimento do protagonista. Prefere se debruçar sobre os procedimentos, nas suas circularidades, nos seus protocolos e burocracias. É uma escolha que permite ao diretor Vahid Jalilvand repetir cenas com variações sutis, escolhendo 3 ou 4 tipos de sequências que preenchem o filme e são filmadas com algum grau de virtuosismo, a exemplo das cenas de carros.

Também permite mais clareza na visualização do conflito-rei, que é a insuficiência (e os problemas diversos) do estatuto técnico-científico de verdade. Ficam as perguntas: para quê e por que a verdade? A quem ela conforta? Será ela capaz de coagular a dor?