O expansivo Gildo (Júlio Andrade) volta de São Paulo na véspera do Natal e encontra Luzimar (Irandhir Santos), amigo que não via há algum tempo. Este personagem, discreto trabalhador de uma fábrica de tecelagem típica da região de Cataguases, interior de Minas Gerais, é então arrastado pelos convites sem fim para aquela cerveja entre amigos, de saideira em saideira. Ambos escondem um rancor, não só entre eles, mas para com a cidade: Gildo veste bom humor enquanto se afoga na bebida, enquanto Luzimar, que vive lá, só atravessa a dor com simpatia.

Redemoinho se propõe a uma ficção guiada por personagens cativantes, que são levados pela condição cíclica da memória a reviver um trauma arrastado pelos anos. Num road movie sempre na iminência do fim (ou da última cerveja), Gildo e Luzimar viajam por Cataguases tentando reconhecer os lugares e as pessoas que antes faziam parte de suas vidas, como num grande flashback.

Com uma progressão baseada no quanto sabemos dos personagens, o filme de José Luiz Villamarim revela as entranhas da cidade através das suas tramas familiares e afetivas, desnudando, aos poucos, o trauma que assola seus habitantes; um trauma do passado que inevitavelmente alcança-os no presente e torna-se simbolicamente sua cria.

Apesar de o filme possuir trajetórias próprias no presente – estas materializadas em sujeitos mais instáveis, talvez mais submersos no redemoinho da memória -, sua narrativa por vezes é refém da própria estrutura de flashbacks, quando surgem premeditados pela vontade de progressão e resolução do longa. O resgate do passado, no caso, dos “tempos de criança”, surge como capítulos no meio de um livro colocados estrategicamente pelo seu autor em um momento específico que vai ajudá-lo a terminar de orquestrar sua história, pois passado e presente devem se encontrar no fim.

A narrativa retrospectiva torna-se um acessório para prender a expectativa de quem assiste, o que pode ser uma herança da origem literária da obra, baseada em “O Mundo Inimigo” da série “Inferno Provisório”, do premiado escritor mineiro de Cataguases Luiz Ruffato. Apesar disso, que parece também ser um apelo ao espectador de telenovela, a arte dos cenários e figurinos agracia o público atento, oferecendo mais “pistas” para desvendar o “mistério” com o qual até o filme conspira junto. No fim, cria-se um quebra-cabeça previsível, embora intrincado. E daqueles que formam imagens espetaculares.

Na telona, o filme com fotografia assinada por Walter Carvalho tem composições delicadamente sincronizadas ao movimento e interferência histórica do trem na cidade, este uma sentinela que literalmente margeia a vida das pessoas que vivem lá.

Ainda, a fotografia valoriza a profundidade de campo, reunindo no mesmo plano espaços diferentes das casas do interior, como se suas paredes fossem quase transparentes. Dona Marta, mãe de Gildo, está sempre na escuta de suas alteradas discussões, afogando-se cada vez mais nas provocações do filho, hesitando em responder quando ele chama. Gildo grita para a mãe servir cerveja, alheio a essa lógica do interior. Ele é como um contraponto à prática conspiratória da cidade, o que não significa que ele não a enxergue, acrescentando uma camada política ao seu discurso. Seguindo essa linha, a fotografia ainda reúne os espaços internos e externos às casas, expandindo sua conspiração para as ruas de Cataguases. Afinal, “a cidade é um ovo”.

Dessa “escuta coletiva” deriva também um trabalho de som bem articulado, que valoriza a personagem de Luzimar, o qual usa da sua deficiência auditiva como vantagem para alienar-se da lógica conspiratória da cidade. Do trabalho sonoro, não podemos esquecer o som do trem, que é fundamental para a manutenção dos relacionamentos de Cataguases. Seu barulho censura-os a qualquer momento, interrompendo suas falas e estreitando seus pensamentos. Insiste quatro vezes ao dia, até abafar completamente a consciência de seus atos, dos mais simples aos mais perversos.

Redemoinho fabrica uma expectativa e pode segurá-la até quando quiser. A conjunção dos seus elementos fílmicos cria um grande quadro familiar. Do fio da meada, ou seja, a partir de Gildo e Luzimar, derivam-se os outros personagens da trama, alguns derivados até demais, como é o caso das mulheres que vivem em função dos homens de Cataguases. Por um lado, o filme não parece mesmo dar perspectivas de emancipação feminina naquele lugar. Por outro, elas não deixam de ser figuras complexas e obscuras do interior, que também parecem “carregar toda a loucura da cidade nas costas”.

 

* Filme visto na 10ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte