Os cineastas portugueses Joaquim Pinto e Nuno Leonel filmaram entre dezembro de 1999 e dezembro de 2001 os moradores da pequena comunidade de Rabo de Peixe, localizada no arquipélago dos Açores. O material resultou na época em um especial para a TV portuguesa, mas só recentemente foi retomado pelos diretores, que deram versão definitiva ao filme.

Apesar desse grande intervalo de tempo entre as filmagens e a exibição, o trabalho, que foi exibido na abertura do 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba – não passa a impressão de ser datado. O distanciamento temporal ajuda indiretamente a destacar um dos temas tratados pela obra: a dificuldade de sobrevivência da memória cultural e pessoal em meio ao avanço predatório do progresso capitalista.

Joaquim e Nuno se interessaram por Rabo de Peixe graças à amizade com o pescador Pedro. A partir dessa relação, eles encontraram no local uma série de outras pessoas que viriam a ser retratadas no documentário, entre elas Artur, Rui, Emanuel e Preto.

O filme mostra o cotidiano da população local tanto durante quanto após os trabalhos pesqueiros, com destaque para as belas imagens subaquáticas capturadas pela câmera de Nuno Leonel. A construção da confiança mútua entre realizadores e moradores talvez tenha como momento mais representativo o gesto de ceder a câmera para que os moradores realizem algumas imagens.

Longe de buscar um distanciamento que resulte em um relato pretensamente objetivo, os diretores se incluem no filme tanto pela imersão efetiva no local (eles passaram um longo período morando ali) quanto pela bem utilizada narração em off, que assim como no ótimo E Agora? Lembra-Me, filme anterior da dupla portuguesa, traz um tom poético e íntimo para a obra, colocando o espectador no papel de confidente dos diretores, que se revezam nas falas.

Joaquim e Nuno focam o microcosmo daquelas pessoas, mas não deixam de atentar para fatores históricos, políticos e econômicos que o rodeiam. A introdução lembra a sensação de liberdade associada à ida ao mar, e a relação de trabalho dos pescadores, que dividem igualmente os lucros e não fazem contratos entre si, é contraposta ao avanço dos grandes navios pesqueiros estrangeiros que exportam produtos explorados na região para o mundo todo.

Apostando em uma abordagem poética e humanista, os diretores dizem muito mais sobre a causa ambiental do que um documentário panfletário a respeito do assunto poderia expressar.

Um senão em relação ao trabalho fica por conta da acentuada perda de ritmo que acontece em sua segunda metade. O momento final, contudo, é muito bem escolhido, fazendo referência ao início da circulação do Euro e, indiretamente, tratando da tentativa de padronização cultural e econômica à qual os moradores de Rabo de Peixe resistem dia após dia.

Nota: 7,5/10 (Bom)

 

PS: Os diretores enviaram um vídeo de agradecimento ao Olhar de Cinema que é belíssimo. Assista aqui.

 

*Filme visto no 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

 

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