Mover ou não mover. Essa é uma questão que já assombrou animadores de todas as épocas. Em muitos casos, a economia de animação é válida, principalmente quando se trata de movimentos muito sutis, personagens figurantes ou cenários ao fundo, estes muitas vezes grandes pinturas estáticas. Porém, Quando os Dias Eram Eternos assume para toda a sua duração a mesma postura que o Butoh japonês tem em relação ao corpo na dança: a de constante movimento, mesmo que muito pouco, bem devagar e supercontrolado.

A animação de Marcus Vinicius Vasconcelos compartilha dessas qualidades na constante renovação dos quadros na tela, numa rotoscopia que se permite traços abstratos, livres, mas em conflito com o suposto limite das formas reconhecíveis. Nessa lógica, a tela pulsa constantemente, em vários níveis, da textura do papel à escuridão das sombras das personagens, do “plano de fundo” dos seus pensamentos. Assim, há um jogo do visível trabalhado com o traço e a montagem, que faz desaparecer de quadro o que é considerado desimportante, e faz os corpos representados, à primeira vista estáticos, renovarem seu traço a cada frame, movendo-se não pelo curso natural dos corpos como conhecemos, mas pela constante energia da sua animação.

Além de conversar com o Butoh através das qualidades específicas da animação, o filme parece discursar dentro do domínio do tempo na tela, reproduzindo as condições de espera e expectativa dos personagens no papel do espectador. Entre o pouco movimento, devagar e controlado, que envolve a relação entre mãe e filho no tratamento de um câncer (também em lenta, constante e infalível disseminação), seus protagonistas parecem estar reféns do inevitável e do imprevisível. Se antes a imagem da criança que podia se estropiar no balanço parecia eterna, agora essa mesma criança deve crescer e entrar pela porta do tempo, encarando sua passagem que, eterna como pensava que era, agora joga contra suas expectativas e, quem sabe, seus sonhos de imortalidade.

Nesse sentido, os personagens de Quando os Dias Eram Eternos buscam formas de escapar da prisão do corpo no tempo, seja pela memória abstrata, pelo registro da rotoscopia, pelas qualidades do cinema. Através dessas articulações, a condição de figuras estáticas renovadas pelo traço no papel é constantemente ressaltada. Em conjunto com um desenho de som hipnotizante, elas dão uma dimensão atmosférica temática ao filme, trabalhando várias perspectivas do risco ao papel, e dando vida a personagens angustiadas.

Vale falar ainda como a metamorfose desses mesmos traços carrega relações pessoais com a narrativa, e suas formas abstratas por muito também renovam a energia da tela. Elas oscilam entre pequenas figuras, como um refúgio da mente quando encontra em fios de cabelo soltos a possibilidade de reproduzir pequenos corações.

Se o Butoh, segundo Kazuo Ohno, busca reproduzir movimentos diretos da alma a serem mediados pelo corpo, Quando os Dias Eram Eternos explora, pelos códigos de representação, a ansiedade da alma para desprender-se do tempo, que faz do corpo sua principal vítima. Talvez o cinema (e, mais ainda, a animação) seja sua principal saída para a eternidade.