Uma incursão sumária pelo cinema japonês já será capaz de revelar a importância que a cultura nipônica dá à morte e a quem se foi – seja na figura dos antepassados familiares, seja nas diversas crenças orientais sobre o caminho do espírito após a morte do corpo físico. O cineasta Kiyoshi Kurosawa, um dos diretores japoneses mais festejados pelos festivais de cinema hoje, se ancora numa tradição representada por clássicos como Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi, para realizar uma fábula sobre o significado da morte e os conceitos que envolvem o luto; em especial os opostos dúvida/certeza, corpo/alma e aceitação/inconformismo.

Uma professora de piano, Mizuki (Eri Fukatsu), já entregue à melancolia de um cotidiano sem o marido, Yusuke (Tadanobu Asano), morto há três anos, se surpreende quando ele volta para casa. Juntos, embarcam numa jornada na qual visitarão pessoas, vivas e mortas, que foram importantes para a vida de Yusuke.

A trilha do casal segue preceitos do cinema fantástico e os personagens que surgem nesse caminho apresentam cada qual uma relação rica e particular com a vida. É como se a intenção de Yusuke fosse construir um colorido painel de “opções existenciais” para mostrar a Mizuki. Nesse mosaico, destacam-se diferentes relações com o luto, mais essencialmente com a ideia de partir. Há quem se recuse a aceitar a partida de um ente querido, há quem renegue a própria morte como se não quisesse olhar para a realidade finita de uma vida breve e há quem apresente versões poéticas para a passagem que um dia todos farão.

É curioso notar as reações aos óbitos que ocorrem à nossa volta. Tornou-se comum emitir frases como “foi cedo demais”, “está em um lugar melhor agora” ou “descansou”. Mesmo que instáveis no território semântico do senso comum, no qual os significados se atenuam, essas sentenças também revelam a pluralidade de visões que se abate sobre o que talvez seja o tema mais misterioso da condição humana. O casal protagonista de Para o Outro Lado, ao cumprir uma jornada olhando para os outros e recompondo trajetórias sentimentais, busca olhar para si, repensar a relação e compreender uma separação involuntária, causada pela morte.

Cabe observar também como Kiyoshi Kurosawa registra este melodrama. A princípio, não sei bem o que achar da mise-en-scène do cineasta. São inúmeros os momentos em que se percebe não apenas uma boa ideia de cena, como uma manipulação sensível e original do ritmo dos diálogos e ações, assim como a precisão de uma fotografia observadora de detalhes minúsculos, mas de interesse narrativo. Em outras ocasiões, porém, reinam os closes pesados e uma trilha sonora invasiva, quase novelesca, compondo sequências que beiram o cafona.

Nota: 6,5/10 (Regular)

 

*Filme visto na 39ª Mostra de São Paulo