São 24 de janeiro de 1992 e parece que estamos vendo um filme slasher pelo lado de dentro: uma câmera subjetiva de VHS acompanha sete adolescentes sozinhos que ocupam uma casa nas redondezas de um cafezal. O cenário: vastidão, solidão, propriedade. A sensação de que algo vai acontecer a qualquer momento perdura durante o filme; de saída sabemos que aqueles personagens não existem mais, a não ser como imagens. Fantasmas por natureza.

“Para contar alguma coisa para a câmera tem que ser uma coisa boa, pra posteridade”, diz um dos primos herdeiros esquivando-se da câmera VHS. A imagem como uma cápsula do tempo, registro que fixa o acontecimento – muitas vezes ligada à questão de classes: quem pode ser conservado no tempo? –, é uma ideia constante em Os Jovens Baumann, embora seja de alguma forma subvertida pelo próprio dispositivo que a obra apresenta.

A noção de posteridade relacionada ao vídeo é curiosa. Por um lado, enquanto o filme – a película – está relacionado à permanência, o vídeo nasce com a marca da efemeridade. Ou ainda, a película está para o retrato como o vídeo para o desenho. No longa-metragem de Bruna Carvalho Almeida os personagens parecem brincar justamente com esta relação, posando para a câmera como que para retratos da nobreza – a história dos vencedores contada pela VHS. Afinal, após a natureza absolutamente descartável e acessível do digital, a imagem do VHS adquire a solidez da película, ares de uma mídia conservadora.

Espírito do tempo, o vídeo evoca, ao menos no Brasil, o final dos anos 1980 e início dos anos 1990, em que se deu a popularização da câmera VHS. Período de estabelecimento democrático (ou ilusão de) e de políticas liberais. “O nome deles tinha uma história, a história do café”, diz a narradora do filme, filha de um funcionário da fazenda que herda as fitas malditas com as últimas imagens dos jovens Baumann. Uma história fadada ao desaparecimento.

O desaparecimento, ou a falência econômica de parte da elite brasileira naquele momento, levou a economia de arrasto e desembocou no impeachment de Fernando Collor de Mello. Por outro lado, a narradora não parece lamentar o final trágico daquela dinastia cafeeira. Na boca dos jovens belos e irresponsáveis fantasmas saem brincadeiras como: “a fazenda está cheia de ratos, é consequência da reforma agrária”, ou “vai ter mendigo morando aqui.”. Sorte nossa se estes fantasmas tivessem mesmo desaparecido com a crise econômica e permanecido em 1992…

A estética do vídeo é o que mais encanta no filme de Bruna, e ela não economiza: zoons debochados, fast forwards e rewinds, a liberdade de movimento, a manipulação descarada. A câmera de VHS tem a textura dos primeiros vídeos domésticos: descompromissada, prosaica, inventiva. Tudo o que apaixonou Godard nos anos 1970. A imagem é um playground onde a diretora brinca. A diversão dos jovens ricos, usufruindo da natureza privada e da companhia de seus pares, é a mesma da diretora explorando os recursos desta mídia datada e afetuosa. Lembra o deslumbre de Agnès Varda descobrindo o digital em Os Catadores e Eu (2000).

Na última fita, algo se transforma. A narradora nos prepara para o que será a única provável pista do motivo do desaparecimento da família Baumann. Em seguida, uma cena com câmera lateral, movimentos sutis de subjetiva cinematográfica. Os jovens estão no cafezal e – será impressão? -, uma trilha sonora de suspense desponta ao fundo. Corta e começamos a ver aqueles mesmos personagens através de uma câmera fixa, enquadrada, cenas construídas. Um corredor com velas, duas personagens de costas, contra o sol, quase atuando. O que antes era liberdade e experimentação, torna-se linguagem. Isa aprende a filmar de acordo com as regras do jogo. Os jovens que riam em frente à câmera, da câmera, para a câmera, passam a ignorá-la, torná-la invisível. Sequestrados pelo dispositivo de fixação da sua imagem, os jovens Baumann viram cinema.

 

*Filme visto na 13ª Mostra CineBH