Quando um estrangeiro resolve fazer um filme sobre algum elemento cultural de outro país, a escolha pela reiteração de estereótipos é meio caminho andado para o fracasso. Felizmente, o diretor francês Georges Gachot não cometeu esse erro quando decidiu realizar um trabalho sobre uma música tipicamente brasileira: O Samba.

O documentário de Gachot se centra em três eixos temáticos: o Carnaval, representado pela escola de samba Unidos de Vila Isabel; o samba propriamente dito, com destaque para suas variações e para sua história; e o cantor Martinho da Vila, protagonista que guia o filme e tem os principais sucessos cantados por ele e por convidados (Ney Matogrosso, Leci Brandão, Paula Lima, entre outros) ao longo da projeção.

Essa falta de um foco único, que aparece sugerido no título escolhido, causa momentos de dispersão, mesmo com os temas estando interligados. O grande espaço dado em tela para Martinho da Vila leva o espectador a pensar que está assistindo a um documentário exclusivamente sobre a carreira do cantor, e “o samba” do título fica por vezes em segundo plano.

Isso poderia ser um empecilho grave para o funcionamento do filme, mas o carisma de Martinho, com seu sorriso fácil e voz inconfundível, o torna um personagem agradável para se acompanhar. De alguma maneira, o artista surge quase como uma personificação do samba, fazendo batuque até com uma faca e criando músicas para tudo o que ronda seu cotidiano, como o seu sítio e algumas árvores de pitomba. O músico também se mostra um conhecedor da história do ritmo, sendo um dos responsáveis pelas poucas falas sobre o assunto.

O filme celebra Martinho, maior expoente da Vila Isabel, mas também dá voz aos “anônimos”, como o mestre de bateria, a ritmista iniciante, os moradores do bairro. Gachot parece entender que a importância do samba vai muito além de um ícone, e está espalhada pelo entorno das grandes celebrações.

Não à toa, em vez de filmar o Carnaval de modo tradicional, dando ênfase ao público que aparece na TV em camarotes e arquibancadas, o diretor opta por mostrar a emoção de passistas anônimos e daqueles que se contentam em observar por uma grade a entrada das escolas no sambódromo.

Nada mais simbólico sobre isso do que a sequência final: os carros alegóricos passam e a câmera fica, mostrando aqueles que estão por trás da festa, como os garis que trabalham com alegria e uma senhora que samba sozinha como se não houvesse amanhã. Está aí uma cena que deveria ser mostrada como resposta sempre que alguém queira saber o que é o samba.

Nota: 7,0/10 (Bom)