Por Juliana Domingos de Lima

 

Provocados por uma sessão do curta Na Missão, com Kadu (2016), registro documental da atuação de um líder comunitário que seria assassinado, um amigo e eu ponderamos, há tempos, sobre as seguintes questões: i) era cinema ou estaria mais próximo do registro jornalístico? ii) admitindo a segunda hipótese, o cinema (até por seu tempo mais alongado de produção), seria incapaz de incorporar, interpretar e reagir à realidade imediata, sobretudo aos acontecimentos políticos?

O letreiro final de O Processo, que incluiu no filme sobre o impeachment de Dilma o registro da prisão de Lula no dia 4 de abril de 2018 (somente uma semana antes da exibição para a imprensa à qual assisti, no dia 10 de abril), é um sinal espantoso – e alentador – de que o cinema, ou, em particular, alguns cineastas brasileiros, estão dispostos a disputar a narrativa do presente com outros discursos, como o jornalismo.

A matéria do filme de Maria Augusta Ramos é, à primeira vista, anti-cinematográfica. Tirando os respiros de planos da tão monumental quanto alienante arquitetura modernista do Planalto, a ação (distante da idealização dinâmica inventada pelos thrillers políticos) se concentra nos meandros jurídicos e políticos e no cotidiano maçante de um processo que durou meses a fio, nos gabinetes e sessões sem fim de embates entre petistas e a oposição.

Não é como assistir a uma tarde de TV Senado, felizmente. O cinematográfico emerge, na construção de personagens que vão se sobressaindo (Gleisi Hoffmann, Janaína Paschoal, José Eduardo Cardozo), na retórica das bancadas – mas também nos momentos de suspensão e tédio –, na costura de uma sucessão de fatos (da autorização de abertura do processo de impeachment ao afastamento da presidenta) até então dispersos pela avalanche de informação cotidiana.

O partido de “Peões” e “Entreatos” já não está: vem fazendo sua curva descendente. O Processo revela lampejos de autocrítica lúcida, quase inédita, do Partido dos Trabalhadores, estrategicamente ausentes na superfície da atual defesa da inocência de Lula.

Nesses momentos, figuras do PT refletem sobre políticas de governo conservadoras, alianças questionáveis e o afastamento progressivo de sua base, concomitante à aproximação de ricos e poderosos.

Rodar um documentário sobre os acontecimentos políticos recentes é dizer: “agora que tudo que aconteceu, aconteceu, olhe para isso, condensado, consumado, sem interrupções, sem a pulverização desmobilizante de eventos ao longo dos dias e meses”. Proporciona uma apreensão bem-vinda do todo dos acontecimentos, algo que a narrativa fragmentada da imprensa raramente consegue fornecer.

Maria Augusta rompeu com a tradição do documentário brasileiro influenciada por Eduardo Coutinho, que se preocupava em desvelar o aparato fílmico, em mostrar o artifício. Uma questão tão antiga quanto incontornável: sua câmera, aparentemente invisível, imperceptível no espaço, distanciada da interação filmada, tem um peso na mise-en-scène do real que não podemos saber qual é. Que, no limite, nunca saberemos, ouso dizer que nem precisamos saber. O importante é considerar que esse peso existe.

O Processo não é, assim como o jornalismo ou a historiografia nunca foram, registro neutro e desapaixonado dos fatos. É filme: discurso, documento. Não é a “verdade” histórica. Ainda assim, é talvez a oportunidade mais concreta disponível, até o momento, de se acessar uma parte dessa verdade.

 

*O Processo estreia no Brasil no 23º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários