Por Juliana Domingos de Lima*

 

O cinema hollywoodiano se esmerou em narrar as histórias dos vencedores. Ainda que eles atravessem dificuldades e se apresentem como ganhadores pouco a pouco ao longo de uma jornada de esforço e superação, no fim ultrapassam seu próprio limite e deixam o espectador com a fábula de que tudo consegue quem trabalha duro.

O sucesso desse modelo narrativo é evidente em alguns filmes de boxe. Rocky e Touro Indomável, por exemplo, são produções em que a jornada árdua do boxeador o conduz a um teste – a luta, clímax desses filmes -, e depois à redenção.

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki, primeiro longa-metragem do finlandês Juho Kuosmanen, é a história de um perdedor. Olli Mäki foi o primeiro boxeador da Finlândia a disputar o mundial de boxe na categoria peso-pena, em 1962. Foi derrotado, em apenas dois rounds, pelo campeão americano Davey Moore.

É preciso se perguntar: por que contar essa história agora? Por que assim?

Em 16mm, com fotografia em preto e branco e granulada, estética que talvez emule o filme que teria sido feito no ano em que Mäki perdeu para o americano. Uma espécie de sagração do título perdido, um hino àquele (ou àqueles) que não chegou lá. Por quê?

Mais do que uma releitura ficcional de um episódio histórico, há uma proposição moral e filosófica colocada pelo filme. E essa proposição escarra orgulhosamente nas narrativas de superação, no cinema de vencedores e na vida contada através de méritos e medalhas.

O conflito central da trama está nas tensões causadas pelos sentimentos de Olli por Raija, uma professora de sua cidade natal com quem mantém um relacionamento, e na necessidade de se concentrar no desafio iminente contra o campeão mundial americano.

Tensionando ao máximo a corda para o lado da vitória está o treinador, Elis, um ex-campeão que hospeda Mäki em sua casa em Helsinque, cheia de filhos e uma esposa enfurecida. Elis faz de tudo para conseguir patrocinadores e publicidade para seu boxeador – em parte por fé, e em parte porque está com a corda no pescoço e precisa levar algum dinheiro para casa.

Mäki precisa perder peso para poder competir na categoria peso-pena, na qual seu treinador o encaixou. Precisa treinar duro, mas só quer ficar perto de Raija. Na trajetória ideal de sucesso individual de um atleta não há espaço para pensar nos outros, nem mesmo para se apaixonar.

A questão moral enunciada, então, está entre esses dois âmbitos de uma vida – um feito extraordinário, provavelmente plantado e regado a sacrifícios de ordem pessoal, ou uma vida feliz ao lado de quem se ama, na qual a excelência é menos importante. Aqui, ambos são excludentes.

O lutador se esforça e deseja o título, mas pende para o lado de quem ama. E o filme corrobora em demonstrar o quanto ele se tornou mais feliz e livre quando tudo acabou e não havia mais expectativas sobre si, gente de elite querendo posar para fotos ao seu lado, encenações e assédios que destoam completamente de seu caráter simples e modesto.

Como em outras produções da linhagem dos filmes de boxe, o momento da luta também é o nó de resolução dos conflitos colocados ao longo do enredo. Mas é um nó que se desamarra sem catarse ou superação, engendrando uma derrota silenciosa. Sem melodrama: para que a catarse do público que não se deu pela vitória também não se dê através do choro da perda.

Tal qual na vida, em que um evento precedido muitas vezes de grande espera e ansiedade vem e passa sem cerimônia, despido da grandiosidade da antecipação, a cena do enfrentamento entre os dois oponentes é breve – não o suficiente para não angustiar um pouco o espectador – e de resolução rápida, sem grandes viradas. Mesmo Mäki, um pouco desnorteado pelos socos levados, se surpreende quando ela chega ao fim sumariamente.

Alguns repetiam que aquele – o dia em que talvez se tornaria o campeão mundial pela Finlândia – seria o dia mais feliz de sua vida. O título do filme, que poderia, à primeira vista, parecer uma ironia, não o é.

Mäki fica poucos minutos em um jantar de celebração depois da vitória do americano sobre ele. Decide ir embora com Raija e não atende ao chamado do treinador para que vá até sua mesa. Já não deve nada a ninguém. O gesto marca uma ruptura, em oposição às vezes em que suas obrigações o afastaram dela. Saem os dois para passear à beira de um lago, no qual atiram pedras e contemplam o começo de um futuro conjunto. Ao cruzarem com um casal de velhos, figurantes ilustres – os próprios Raija e Olli da vida real -, se perguntam: “seremos assim? seremos felizes?”.

O dia em que foi vencido foi mesmo o dia mais feliz de sua vida: com ele, a aceitação agridoce de não ser o melhor, mas de finalmente estar livre.

 

Sessão do filme na 40ª Mostra de São Paulo

Dia 27/10 – 15h50 – Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca 2

 

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