Assistente de direção de Kleber Mendonça Filho em Aquarius, Fellipe Fernandes realizou o seu primeiro curta-metragem como diretor em O Delírio é a Redenção dos Aflitos. O filme acompanha um dia na vida da protagonista Raquel (Nash Laila) e os momentos que antecedem a noite em que ela e sua família desocuparão sua casa em um terreno comprado por uma grande construtora em Olinda. Com um marido ausente e sua filha ainda pequena, a personagem se torna a única responsável pela mudança, processo pelo qual desenvolve uma certa obsessão.

É interessante a forma que o diretor encontrou para representar principalmente os momentos de delírio da personagem. Os ambientes, criados pelo renomado diretor de arte Thales Junqueira (de Que Horas Ela Volta?, Mãe Só Há Uma e A Seita), são extremamente realistas, marcados por uma constante desordem e excesso de objetos, seja no apartamento, no atacadão onde a moça trabalha ou nas ruas repletas de entulho.

Nesse contexto, onde algum acontecimento sobrenatural é improvável, o diretor faz uma imersão lenta e suave nos pesadelos da protagonista. Durante uma cena de conversa entre amigas, o zoom aproxima a câmera pouco a pouco de seu rosto e, de repente, ele já ocupa toda a tela. Tal recurso traduz bem a forma como surgem as obsessões, através de um fluxo de pensamentos que parece inofensivo e aos poucos se torna descontrolado. O movimento da câmera vai ao encontro da ideia de que não há exatamente um início delimitado para o delírio.

Apesar de aterrorizante, é justamente esse delírio descontrolado que acaba por mover a protagonista para fora de seu lugar-comum. Vítima de uma rotina evidentemente estressante e pressionada por todos os lados – o marido que não a compreende, a filha para cuidar, a casa com as horas contadas, o trabalho entediante -, ela é obrigada por sua própria mente a resistir às dificuldades e romper com sua realidade anterior, encontrando ironicamente refúgio em seu próprio universo, agora com valores drasticamente mudados.

Nesse sentido, é emblemática a cena em que, numa mistura de desespero e autoconfiança, ela quebra a janela da loja, simbolizando sua ruptura com a hierarquia de um lugar que lembra o seu ambiente de trabalho e que, agora, representa o teto onde consegue estar em paz e dormir. É o limbo e o alívio que encontra entre o seu passado e um futuro incerto, mas que, diferente da mudança daquela noite, não tem mais pressa para acontecer.

 

* O Delírio é a Redenção dos Aflitos fez a sua estreia mundial na Semana da Crítica, sessão paralela do Festival de Cannes