Uma das questões que mais têm despertado meu interesse recentemente é a capacidade e a possibilidade de transformarmos, através do cinema, questões acerca da experiência coletiva de opressões em diálogo com o que entendemos por filmes de gênero (suas convenções de forma, de narrativa, de tempo, de luz, de som).

Há nesse processo uma subversão talvez ainda maior do que a existente em registros de natureza mais usual (o documentário clássico, os filmes naturalistas). Isso porque ao transformar a dinâmica de uma determinada opressão em dramaturgia de gênero a questão originária pode ser transportada para um novo lugar, ao passo que as características do cinema enquanto forma são alteradas para outras chaves.

Em um dos programas de curtas da mostra Outros Olhares incluído na programação deste 7º Olhar de Cinema, dois filmes adotam essas escolhas e as conduzem com tal maestria que seria impossível não escrever ao menos algumas linhas sobre ambos e a respeito dos diálogos possíveis de serem gerados a partir deles.

O primeiro caso é o de O Cemitério se Alumbra, do diretor Luis Alejandro Yero. O curta cubano assume como premissa os efeitos dos processos de embargos econômicos impostos à ilha que produzem impactos diretos nos modelos de vida de seus habitantes até hoje. A inversão da lógica (Cuba não é uma ilha que se isola, mas uma ilha que isolam) abre espaço para a construção dramatúrgica, poética e formal do filme.

A idéia da ausência de luz como a morte na era tecnológica constrói mais do que uma alegoria, moldando na verdade um espaço narrativo bastante autônomo, com uma dinâmica também muito própria. A fotografia de Natalia Medina Leiva também é parte fundamental da direção geral. A balada em que jovens dançam, por exemplo, a partir apenas do jogo de luzes, torna-se aos poucos uma comunhão de criaturas fantásticas. Meio vampiras, meio zumbis, porque essencialmente humanas. Assim como a cidade-prisão de John Carpenter em Fuga de Nova York, a Havana de O Cemitério se Alumbra forma um universo próprio. De quem é a culpa pela criação desse universo para além do filme é outra história.

Seguindo, o curta Hair Wolf, da diretora Mariama Diallo (e que conta, vale dizer, com uma equipe quase inteiramente de mulheres negras) assume um jogo de referências para formar sua própria dramaturgia a partir de questões muito próprias de uma juventude negra dos EUA, mas que em muito ecoam em países como o Brasil. A luz e as cores lembram Suspiria, de Dario Argento. O tempo cômico e a transformação de signos (a jovem branca que é uma vampira sedenta por cabelos crespos) remetem a produções recentes como a série Atlanta, de Donald Glover. O desenho de som e a estilização lembram as fases mais “radicalmente negras” de Michael Jackson (Thriller é um filme de terror, afinal). Digo “lembram” porque Diallo assume essas referências justamente para subvertê-las ao seu próprio gosto, jogando com as contradições e convicções presentes no processo de formação da juventude à qual o filme parece se direcionar mais fortemente.

A oportunidade de ver estes dois filmes em seqüência aumentou em muito suas potências através dos diálogos implícitos. O Cemitério se Alumbra, produção cubana a tratar das sombras, da escuridão, da ausência de luz. Hair Wolf, produção norte-americana a tratar dos excessos de luz, de cor, de encenação. Filmes tão distintos e ao mesmo tempo tão próximos. Filmes de gênero do nosso tempo.