A noção tradicional de filmes de episódios é posta em xeque em O Animal Sonhado, longa-metragem cearense dirigido por seis cineastas (Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima e Victor Costa Lopes) que fez a sua estreia na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes. A escolha pela não revelação do cineasta que escreveu e dirigiu cada episódio, que poderia soar como mero capricho de iniciantes, faz todo sentido aqui devido à montagem fluida e sem transições abruptas que é adotada, com forma e conteúdo sendo complementares.

O tema que permeia os seis segmentos é o desejo. Quase todas as partes trazem histórias com foco em personagens jovens: os meninos que veem a atração entre si aumentar; os garotos que vão a uma festa em que não conhecem ninguém; a mulher que sente prazer sexual com exercícios físicos; a turma de amigos que passa o dia em uma casa com piscina; e a mulher que não consegue controlar seus desejos. A exceção é o personagem do pai que tem uma compulsão sexual doentia pela própria filha.

Mais do que a efetivação do ato sexual, que só não acontece em um dos núcleos narrativos, o que as histórias trazem com força é a busca pela captação da imaginação e das vontades libidinosas de seus personagens.

Essa característica se acentua nas duas últimas partes a ponto de embaralhar sonhos com acontecimentos da história. Indo mais longe, essa noção onírica cabe a todo o filme, que pode ser tomado como um fluxo único em que a ausência de cortes bruscos entre as histórias faz com que a carga sensorial e narrativa de um segmento seja transferida para o posterior, gerando uma inquietação e uma tentativa de criar relações lógicas entre as partes que ajuda a inserir o espectador nesse mundo de desejos.

No filme, a satisfação dos personagens não chega necessariamente pelo sexo. Na história que envolve os garotos, a atração é construída desde a cena inicial no banheiro e ganha atenção especial em passagens no quarto e no banheiro, embora a progressão narrativa leve ao encontro sexual; no episódio ocorrido na festa, o sexo é precedido pela vontade inicial do garoto de despir uma desconhecida e é permeado por uma história de infância que atiça nossa imaginação a respeito das sensações do personagem.

O segmento que envolve o pai trata não só de imagens mentais, mas também físicas. A ação constante de rebobinar cria uma relação entre passado e presente na narrativa e mostra um homem que consome vorazmente um VHS no qual a filha aparece. A questão ali é até que ponto este produto imagético poderá suprir os desejos doentios do personagem.

A passagem para a história da academia marca o retorno a uma construção de imaginário, na qual esse ambiente exerce a função de estabelecer padrões de beleza que estão intimamente ligados à sexualidade. O filme transmite isso muito bem em passagens como a da simulação de sexo advinda do movimento de um homem fazendo flexões de braço e de uma mulher realizando abdominais. Em uma leitura possível, o orgasmo da personagem estaria ligado a uma busca por um padrão de beleza predominante, enquanto que, na prática, isso costuma gerar mais decepções (inclusive sexuais) do que realizações a quem o tem como meta.

Já no episódio da casa com piscina, há uma certa relativização da diferença entre o agir e o pensar. Uma boa cena para ilustrar essa questão é aquela em que os personagens estão sentados em uma mesa à noite. Ali, basta mostrar os rostos daquelas pessoas e utilizar cortes mais rápidos do que aqueles que vinham sendo realizados para sugerir uma tensão sexual, evidenciada depois pelas cenas (de imaginação ou não) de sexo.

Na história derradeira, essa imaginação, que já era permeada pelo padrão de beleza na história da academia, ganha seu ponto máximo de idealização na figura de um “fantasma” que guia a personagem feminina. Ali, todo o desejo acumulado é condensado, e já não há mais limites para o deleite físico, a não ser a morte.

Nota: 7,5/10 (Bom)

 

* Filme visto na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes