O Brasil de hoje no restaurante de Inácio

 

Hoje é dia 10 de novembro de 2017, que fique registrado. E ainda reflito sobre quantos personagens vi no último filme da sessão de ontem no X Janela Internacional de Cinema do Recife. Em algum momento jurei poder ser o serial killer Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins, ou quem sabe até o Coringa de Heath Ledger. No entanto, o que eu via ali não podia ser equiparado ao trabalho dos atores citados, tanto no filme O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme, quanto em Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, mas era um filme infectado não só por estes personagens, mas por tantos outros psychos frios e calculistas que o cinema de gênero suspense e terror já apresentou. O tipo que me levou a fazer tais relações é Inácio, dono de um restaurante chique na cidade de São Paulo no qual se concentram as ações de O Animal Cordial, primeiro longa-metragem da diretora Gabriela Amaral Almeida.

Inácio é interpretado por Murilo Benício, que dividiu o prêmio de melhor ator com Daniel de Oliveira (em Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor) no Festival do Rio deste ano. Benício segue não só um raciocínio psycho na construção psicológica de seu personagem, como também constrói uma postura corporal que progride em paralelo à claustrofobia proporcionada pela mise-en-scène da obra. Este corpo, ao mesmo tempo em que parece esconder um clown obscuro, é também um corpo automático e cristalizado ao seu ambiente de trabalho. A cada gesto, é quase possível notar os fios que manipulam seu movimento de marionete, friamente calculado. Um corpo ausente de afeto, manipulado por um cérebro, assim como os robôs guiados por uma inteligência artificial nos filmes de sci-fi. A excelente atuação de Murilo Benício no filme de Gabriela é só o melhor exemplo da proporção que o trabalho com todo o elenco alcança em cena.

A direção de Gabriela é sistemática e calculada. O controle sobre a obra, tratando-se de uma narrativa de gênero com forma clássica, consegue agitar o espectador com uma decupagem milimetricamente pensada. O espectador também está em jogo e imerso; ele está preso àquele pequeno espaço do restaurante e não consegue nem assimilar a possibilidade de saída. Este controle sobre a obra é unido às sutilezas que a diretora acrescenta à narrativa, e que tornam O Animal Cordial tão especial. Tal feito pode ser visto na construção do roteiro e dos personagens, notando-se, assim, quebras de convenções do gênero, principalmente no que diz respeito à representação feminina dentro de cânones do cinema.

Sara (Luciana Paes), braço direito de Inácio, é um exemplo desta quebra da representação. Apesar de ser subalterna ao personagem de Benício, situação parecida à dos demais empregados, ela idealiza um romance com o dono do estabelecimento. O amor alimentado por ela, contudo, não limita os questionamentos da personagem. Em algumas vezes, a personagem apaixonada de Sara está em primeiro plano; em outras, quem está é a Sara mulher e operária, e dentro dela todos os questionamentos que podem emergir neste contexto social. Por aspectos como esse, Gabriela traz um frescor aos teus personagens e não os submete apenas a ações determinadas e às suas consequências, mas os traz junto ao espectador para um momento de questionamento, possibilitando, assim, a emersão de questões próprias destas relações sociais; o ambiente de trabalho, com uma quantidade diversa de clientes e funcionários imprevisíveis, é a cereja do bolo na construção arquetípica de cada um.

Gabriela Amaral Almeida carrega de sua herança curta-metragista uma ótima construção do outro – sutilezas próprias de uma observadora. Em A Mão que Afaga (2012) ou em Uma Primavera (2011), a temática envolvendo mães solitárias em situações contemporâneas é o mote de cada uma das histórias, e as personagens apresentadas, na possibilidade de falha como mãe, ficam diante de um terreno obscuro, próprio do acaso. Neste abismo criado pela falha, um monstro pode emergir a partir dos medos das próprias personagens. Como disse Gabriela no debate após a sessão de O Animal Cordial no X Janela Internacional de Cinema: “É com a noção de monstro que eu gosto de trabalhar”. No cinema dela, o ser humano, a pessoa comum, é sempre posta em xeque. Nele não existe bem ou mal, ou uma personalidade que tende apenas para um lado da força. O ser humano é dúbio, bom e mal, diverso.

Por fim, o restaurante de Inácio traz uma reflexão política bem atual, e pode ser lido como uma bela síntese dos questionamentos feitos hoje no País. Em O Animal Cordial, a intolerância a pessoas LGBTTs, ou especificamente a transexuais, é uma das questões levantadas, tema cuja importância foi reafirmada pela diretora no debate pós-sessão e que pode se somar para tornar o filme de Gabriela Amaral Almeida tão completo e rico.