Assisti a Branco Sai, Preto Fica pela primeira vez em janeiro, na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Sob uma recepção calorosa da plateia, a obra me causou um impacto gigantesco, sobre o qual falei neste texto.

Depois de duas revisões (na versão paulistana da Mostra de Tiradentes e, agora, no Festival de Brasília), é claro que não mantive o mesmo olhar de descobrimento da primeira exibição, até porque, dessa vez, tinha conhecimento dos trabalhos anteriores do diretor e sabia melhor sobre sua trajetória. Mesmo assim, a impressão de ter visto um trabalho extremamente potente e singular permaneceu.

Para não repetir aquilo que já tinha falado sobre o longa-metragem, vou apenas pontuar algumas questões.

A primeira diz respeito ao modo como o cinema de Adirley Queirós vê a música. Em Rap , o Canto da Ceilândia, seu primeiro curta-metragem, o diretor valoriza este gênero musical como algo que diz muito sobre a criação de identidade da cidade-satélite de Ceilândia. No longa-metragem A Cidade é Uma Só?, uma música que pregava um falso discurso de união do Distrito Federal nos anos 60 serve como condutora da narrativa, mas a busca pela canção (e sua posterior recriação) é, mais uma vez, um modo de afirmação da memória e da cultura local.

Chegamos então a Branco Sai, Preto Fica, no qual a música segue tendo esse papel de afirmação de identidade, mas ganha agora um caráter de enfrentamento. Músicas de mau gosto sob o ponto de vista da elite da capital, o brega, o forró, o rap e o funk fazem parte de uma inventiva bomba. Assim, o pânico dos cidadãos de Brasília viria primeiro por um choque cultural e por um ataque às instituições que representam um poder central opressivo. A necessidade de uma convivência real com o outro é o que mais apavora os que estão no topo, parece dizer o filme.

Outro aspecto que chama atenção no trabalho é a necessidade de reafirmar as suas características documentais mesmo quando a ficção científica parece consolidada. Isto se faz presente com mais força pela opção de mostrar um depoimento típico de um documentário tradicional. A quebra de ritmo parece proposital, como se quisesse nos relembrar que há um drama real por traz daqueles personagens. Além disso, a passagem tem importância narrativa para a história vivida pelo personagem do ator Dilmar Durães.

Por fim, a inventividade da história é tão grande que, mesmo sabendo textualmente o que virá a acontecer, somos impactados pelo final. Isso se dá graças ao absurdo da situação e à solução simples e eficiente encontrada para retratar a destruição de uma bomba sem mostrar um único prédio caindo – o que reitera o simbolismo da vingança proposta pelo filme, que se redobra quando estamos diante de uma plateia lotada em plena cidade de Brasília.