A sinopse oficial de Noite Púrpura nos avisa que é Carnaval, uma festa acontece e Lú entrará no quarto de sua mãe à procura de agulha e linha. É a alça da blusa de Tati que descosturou. Singelo e fortuito, tal pretexto gera a bela ocasião do curta de Caroline Biagi.

O quarto é um recorte temporal e espacial oportuno. Serve de respiro e pausa à atmosfera da sala, banhada em tons da cor púrpura, onde só o que se ouve é música. Como o fumódromo de uma balada ou a sacada de um apartamento em festa, é lugar sedutor às reflexões e desabafos. O quarto em questão carrega, porém, a presença de um personagem ausente, a mãe de Lú, que está doente, hospitalizada. Procurar a agulha significa abrir o guarda-roupa, deparar-se com suas roupas.

O rosto aflito de Lú faz dupla com a energia despreocupada de Tati e ambas deitam na cama (reparam que o colchão é muito duro), olhando para o teto. É bonito o modo como a conversa entre as duas amigas rodeia o assunto grave, enveredando por emendas e desconversas: o diálogo sobre um quadro de que a mãe gostava, o papo sobre a relação entre a lua e o calendário.

Contornada por conexões e simbologias suaves, a consciência de Lú parece inquieta, como se perturbada não apenas pela ausência da mãe, mas pela incerteza do futuro próximo. A atriz protagonista fixa a fotografia desse aprisionamento numa delicada feição quase-choro, importante num filme de não ditos.

Noite Púrpura é daqueles curtas que capturam um momento e o tratam com dignidade. Aqui, o ilustrar de um estado de espírito agônico vem acompanhado de um drama pontual, arquitetado em diálogos metafóricos e atuações mínimas. O conflito de maturação é franco, o retrato geracional é doce. Há encanto.

Nota: 7,0/10 (Bom)

 

Sessões de Noite Púrpura no 5º Olhar de Cinema:

- 10/6 – 21h15 – Espaço Itaú – Sala 3 – Shopping Crystal

- 14/6 – 16h45 - Espaço Itaú – Sala 3 – Shopping Crystal