Muito se diz, com boa dose de razão, que a coprodução internacional é passo importante para inserir um filme nos festivais europeus mais tradicionais. No caso de Mulher do Pai, primeiro longa-metragem de Cristiane Oliveira e selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim, o esforço burocrático de realizar o trabalho em conjunto com uma produtora uruguaia se reflete em tela de modo orgânico, uma vez que a primeira palavra que vem à mente para enquadrar os principais conflitos do trabalho é fronteira, seja ela relacionada a idade, posição na ordem familiar, território, sexualidade, escolha profissional, etc.

No plano de abertura, a diretora demonstra uma capacidade de síntese que estará presente em outras passagens do filme. Nele, uma tomada panorâmica mostra um homem de meia-idade trabalhando em um tear junto com uma senhora mais velha, enquanto uma jovem que também tece deixa de lado a prática para atender ao telefonema de uma amiga. Estabelece-se, desde então, a ideia de ruptura de uma ordem pré-estabelecida, reiterada pela morte da matriarca logo nos primeiros minutos de projeção.

Aqueles que ficam são Nalu (Maria Galant) e Ruben (Marat Descartes), personagens submetidos a certo grau de opacidade pelo roteiro. Não se explicita desde o início, por exemplo, a cegueira do segundo. A impressão inicial é de que ele possa ser portador de outro tipo de deficiência, dada a sua dificuldade de se expressar corporal e verbalmente, mas as situações desencadeadas posteriormente associam aquele comportamento à psicologia – notadamente ao tipo de relação que ele nutria com a mãe –, e não a alguma patologia.

No caso da protagonista Nalu, os conflitos se multiplicam à medida que aumenta a necessidade de sair de um território conhecido. Isso se dá tanto fisicamente – na sua vontade de cruzar a fronteira e conhecer o Uruguai e na insistência da amiga em lhe mostrar a mudança para Porto Alegre como o melhor caminho possível – quanto simbolicamente – pela sua súbita ascensão a “mulher da casa” e pelo início de relação com um estrangeiro sobre quem se sabe muito pouco.

O que há de mais interessante no filme é a maneira com que Nalu e Ruben se afetam mutuamente enquanto passam por seus respectivos processos de transformação, e também como a obra consegue sugerir o estranhamento com a sexualidade do outro como principal elemento de reação individual de cada um dos personagens. Ao mesmo tempo, a obra não ultrapassa a linha da abjeção que este tipo de tensão entre pai e filha inevitavelmente coloca como opção – tema sobre o qual não interessa ao filme tratar frontalmente.

A vida de reclusão do pai começa a mudar justamente no plano seguinte após ele ouvir uma conversa telefônica em que Nalu conta a uma amiga sobre seu encontro amoroso; já a filha altera seu comportamento quando se depara com uma faceta até então desconhecida de Ruben – e com a qual ela não sabe muito bem como lidar.

Há ali implicitamente uma relação que varia entre o fraternal e o paternal, e o filme cresce quando se lança a esse território do inominável, em momentos como a espiada em direção ao banho do pai ou na masturbação feminina em cima de uma malha – objeto que desde o início da obra guarda relação com uma ideia de legado genealógico.

Embora seja possível enxergar com nitidez alguns tipos de esquematismos do roteiro – a exemplo do uso metafórico um tanto óbvio das aulas de argila e da necessidade de explicitar o que ocorreu com a mãe de Nalu -, além de certa limitação dramatúrgica em algumas cenas mais exigentes emocionalmente, o que coloca o trabalho de Cristiane Oliveira acima da média na produção de jovens realizadores no País é a sua precisão nos enquadramentos e a paciência para dar aos planos a duração que necessitam, deixando sempre alguma espécie de intangibilidade à espreita.

Cenas como a da passagem de uma boiada (remetendo mais uma vez à ideia de fronteira) e da inserção diegética de um funk surgem como fendas em uma estrutura muito bem delineada, e são estes momentos de aparente falta de controle que elevam o patamar de Mulher do Pai.

 

*Filme visto na 20ª Mostra de Tiradentes