Sempre verei cores no seu cinza

 

“Um preto, um pobre

Um estudante

Uma mulher sozinha

Blue jeans e motocicletas

Pessoas cinzas normais

 

Garotas dentro da noite (…)”

 

Esta música de Belchior me veio à cabeça em 2015 quando li a notícia sobre o trem que passou por cima do corpo de um homem que estava estirado nos trilhos após ser atropelado. Nela constava a abjeta justificativa de que “o trem que trafegou sobre o corpo tinha altura mais do que suficiente para fazer isso sem risco de atingir a vítima”. “Pessoas cinzas normais”, “pessoas cinzas normais”, era o que eu pensava antes de voltar a fazer alguma tarefa cotidiana e esquecer por um longo tempo aquela cena horrorosa. Assistir ao curta-metragem Mesmo com Tanta Agonia me fez retomar essa memória sob outra perspectiva, ressignificando um certo julgamento moralizante sobre uma apatia individual, coletiva e sistêmica que permitiu que aquele trem seguisse o seu caminho.

Estruturado em três partes não enunciadas (o trabalho, o deslocamento e a festa) e um epílogo, o filme de Alice Andrade Drummond apresenta tanto em suas escolhas de direção quanto nas situações criadas pelo roteiro uma preocupação em se relacionar de uma forma particular com o tempo. Isso aparece de maneira mais direta já na sequência inicial, em que as cozinheiras respondem ao chef (“30 segundos!”, “45 segundos!”) quando questionadas sobre o prazo de preparo das refeições. Esta correria é contraposta ao momento do fim do expediente: vê-se ali o laço de amizade entre aquelas pessoas, anuncia-se uma celebração que não sabemos bem como funcionará, tudo a partir de uma montagem que entende a importância da duração de cada plano e de cada sequência para a narrativa.

Se o trajeto até a estação de trem é mostrado com mais planos e mais segundos do que os necessários em termos informativos é porque o peso do tempo traz consequências físicas e psíquicas para Maria (Maria Leite), a mãe que tenta se encaminhar para o aniversário da filha. Tal dilatação temporal atinge outra dimensão na cena em que o sistema de som da estação anuncia que o veículo passará por cima do homem jogado na via. A tela preta que toma conta da imagem por alguns instantes retira a noção de espaço e realça a importância do tempo. Após a imagem retornar, o que nos planos anteriores dentro do vagão era uma perspectiva individual de opressão ganha um sentido coletivo a partir do retrato dos rostos dos passageiros ao lado – há sim uma apatia generalizada, mas o filme está menos interessado em apontá-la do que em vislumbrar outros sentidos àquelas subjetividades.

A sequência posterior impõe um outro estado de ânimo a partir das imagens de celulares filmadas pela filha de Maria e por suas amigas em uma festa que ocorre dentro de uma limousine. Novamente a relação com o tempo é vital: primeiro entramos em um fluxo de vídeos típico da era das redes sociais (transmissões ao vivo, pedidos por likes) para depois entendermos o contexto espacial (um veículo de luxo que circula pela região da Avenida Paulista). Fica patente naquele contexto uma problemática relação de crianças com um mesmo tipo de consumismo e ostentação imagética e material incentivado por adultos, mas as cenas não emitem um julgamento moral; longe disso, servem para Maria como acolhimento – ou simples distração – diante do estado emocional a que havia sido levada pela situação anterior.

A volta para casa de carro, com a mãe ao volante e a filha no banco de trás, coloca Maria num estado de quase conforto para reagir aos acontecimentos do dia – “quase” porque há um desejo de não expor à filha seu lugar de fragilidade. Quem tem acesso a ele somos nós, espectadores, a partir do momento em que aquele plano é prolongado tempo suficiente para que a expressão de angústia daquele rosto se torne inteligível. É aí que no lugar da constatação sociológica da apatia, da “pessoa cinza normal”, o filme nos leva à empatia, à explosão de cores que irradiam nela e dela.

 

*Filme visto no 51º Festival de Brasília