Uma bola de futebol é a protagonista de Me Leve Pra Casa, último curta-metragem de Abbas Kiarostami, diretor iraniano que faleceu recentemente aos 76 anos. O filme, sonorizado apenas pela suave música de Peter Soleymanipour, acompanha a trajetória da bola deixada do lado de fora da casa de um garoto italiano (Biagio di Tonno) através de sua longa viagem por inúmeras escadarias da cidade, impulsionada por uma brisa singela e um toque de acaso.

Numa demonstração empírica das leis da física, o brinquedo quica coreograficamente pelas vielas desertas do sul da Itália, na companhia rara de um ou outro animal. Os planos que acompanham a jornada poderiam ser belas fotografias monocromáticas, não fosse o movimento da onipresente personagem, o que ressalta nos enquadramentos a arquitetura irregular e rústica do local sob uma luz contrastada.

A harmonia entre música e movimento presente no filme promove uma sensação de conforto, em que a ação recorrente não se torna cansativa ou tediosa e, pelo contrário, cria uma expectativa sobre como o objeto se comportará em cada caminho ou qual será seu destino final. Com um roteiro enxuto e de grande delicadeza, é criada uma atmosfera de paz, um sentimento despreocupado típico da infância, no qual pequenas situações já são um grande entretenimento – inclusive para os adultos que assistem, deixando-se levar pelo clima de otimismo e simplicidade.

O interesse de Kiarostami pelo universo infantil é antigo e se deve, em parte, ao início de sua carreira audiovisual, quando trabalhava para o Kanun, Instituto para o Desenvolvimento Intelectual da Criança e do Adolescente, no Irã. Alguns de seus primeiros curtas-metragens, feitos nessa época, se assemelham a Me Leve Pra Casa, como o filme O Pão e o Beco, que aposta também em uma ação sem falas que acontece nas ruas próximas da casa de um garoto.

Ao longo de sua carreira, apesar de abordar outros temas, o diretor continuou a carregar essa certa simplicidade de situação dramática que se encaixa bem na temática infantil, mas que também é capaz de se tornar excepcionalmente interessante quando adaptada para questões mais maduras, como mostram tantos de seus filmes.

Em sua despedida cinematográfica póstuma, Kiarostami deixa o público com um ar de nostalgia, seja por tratar da infância ou por retomar o estilo de seus primeiros filmes, mas acima de tudo por ser inevitavelmente um dos últimos expoentes de sua criatividade que serão vistos de agora em diante.

 

Sessões do filme na 40ª Mostra de São Paulo (sessão conjunta com o documentário 76 Minutos e 15 Segundos com Kiarostami)

Dia 25/10 – 18h – Cinearte 1

Dia 26/10 – 22h20 – CineSesc

Dia 27/10 – 21h20 – Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1

Dia 31/10 – 16h – Cinesala