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Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira

16/10/15 às 01:58 Atualizado em 08/10/19 as 20:27
Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira

Mate-me Por Favor é, em todos os aspectos (temas, formas, vícios e virtudes), a reafirmação da identidade que Anita Rocha da Silveira vinha construindo em seus curtas – O Vampiro do Meio-Dia (2008), Handebol (2010) e Os Mortos-Vivos (2012). Em seu primeiro longa, acompanhamos um grupo de garotas da Barra da Tijuca. Envoltas com os conflitos da adolescência (sexo, prazer, dor, rebeldia, ciúme, ausência, solidão), perturbam-se também com uma onda de assassinatos cujas vítimas possuem o mesmo perfil que elas.

O retrato da juventude vem através de um apanhado honesto e panorâmico dos estereótipos. São personagens e diálogos em conexão com a adolescência no que ela tem de trivial e no que tem de complexo – por exemplo, a estranha percepção de que as fontes de prazer e dor são as mesmas. Além disso, a repetição sistemática de signos visuais (o sangue, o apito), gestos (os beijos de língua demorados, as jogadas de handebol), espaços (o banheiro, a cama de Bia, o matagal do crime, o ponto de ônibus), planos (o campeão é o close bem centralizado) e até falas (“a mãe está?”) cria um forte conjunto cíclico que, se, por um lado, pode dar margem a um cinema ensimesmado e muito cioso de suas próprias escolhas, por outro estabelece um chão confortável para a “realidade” que se quer transpassar – algo essencial para as inserções fantásticas que povoarão o longa.

Anita é uma formalista. Seu cinema é aquele que, exibindo suas marcas, reitera a todo instante a preciosidade de um enquadramento ou a cadência exata de uma ação. Nota-se musicalidade não apenas nos momentos em que, num alto volume, irrompe alguma canção típica de uma jukebox americana, fazendo trilha para uma sequência videoclipesca. A coreografia das cenas já sustenta um flow próprio do filme, marcante em diversas situações.

Mate-me Por Favor é expressivo em sua articulação narrativa e em seu clima peculiar – um dos grandes objetivos de um autor de cinema. Sem menosprezar outras qualidades, contudo, creio que o talento de Anita é mais visível em duas particularidades do filme. A primeira é a fixação de imagens. O matagal iluminado apenas com um foco de luz é, geralmente, a cena mais escolhida pelos programas policiais quando se noticia crimes como os ocorridos no filme. A apresentação do espaço onde tudo aconteceu é concomitante ou até anterior às fotos 3×4 da vítima e do principal suspeito. Outro exemplo são as cenas de uma garota voltando para casa, sozinha, à noite, em lugar ermo. Pode-se estar no local mais seguro do mundo que, ainda assim, o pulso irá acelerar e a respiração ficará mais ofegante. É o resultado prático da formação de figuras traumáticas em nosso imaginário. É com elas que Anita trabalha.

A segunda particularidade é a dinâmica da projeção. Quero crer que o verdadeiro terror não nos domina por simplesmente assistirmos a uma situação horripilante, mas sim por nos projetarmos nela, assumindo, em nossa mente, que poderíamos estar no lugar de algum dos envolvidos, seja a vítima, seja o agressor. O roteiro de Anita ressalta brilhantemente esse lugar de consciência no trato – já sugerido pelo título do filme – que dá à personagem Bia (Valentina Herszage).

Nota: 8,0/10 (Ótimo)

 

* Filme visto na 9ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte

 

Mate-Me Por Favor também está na programação da 39ª Mostra de São Paulo. Veja abaixo os horários das sessões.

– Dia 24/10 – 20h45 – RESERVA CULTURAL 2

– Dia 26/10 – 16h – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1

– Dia 02/11 – 17h – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5

 

>>> Acompanhe a cobertura da 39ª Mostra de São Paulo

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