Maria Cachoeira, filme mineiro dirigido por Pedro Carcereri, situa sua proposta num campo de novos filmes brasileiros (muitos deles feitos na própria Minas Gerais), que chamam atenção por construírem um tipo de ficção bastante específica ao conseguir superar noções de um regionalismo esteticamente turístico, transformando estas mesmas noções num cinema de gênero. Ao falar destas noções falamos mais precisamente de uma vivência comunitária, de códigos e pertencimentos nascidos nos interiores do Brasil sendo aqui transformados num tipo de cosmos com leis (ficcionais, dramatúrgicas e estéticas) bastante próprias, funcionais sobretudo em função de seu próprio reduto.

No procedimento de construção deste Maria Cachoeira existe um reconhecimento bastante notório de que os interiores geográficos e culturais do Brasil, sistematicamente suprimidos, são tão mais interessantes quanto mais subliminares forem seus registros quando postos diante de um mundo externo, com olhos externos.

Parece inevitável neste ponto citar vínculos deste curta mineiro com outro curta, o baiano Nego Fugido (2009), dirigido por Marília Hughes e Claudio Marques. Ambos se assemelham no fazer de um cinema com traços de uma sensibilidade escassa e que poderia ser mais explorada e discutida em festivais e mostras. Isto porque, em Maria Cachoeira, a chave principal está na consciência de não traduzir costumes e condutas interioranas, menos ainda de torná-los exóticos, mas de fazer na verdade com que estas especificidades componham traços de um universo peculiar, a fluir por gêneros ao passo em que eleva os níveis de profundidade e envergadura de personagens (a matriarca do interior, o homem bruto da lavoura, o menino-homem do sertão) que em outros modelos de cinema foram já tão expressas de modo raso, arquetípico, subestimado.

Há um encanto fantasmagórico nas camadas que compõem a protagonista do filme, por exemplo. Uma mulher de traços fortes, de olhar distante, de vida marcada por procedimentos repetitivos (“onde ela vai o balde vai atrás”, alguém comentou na sessão que acompanhei), mas que ao mesmo tempo carrega com absoluta naturalidade sua relação com os fenômenos manifestados no ambiente onde vive. Trata-se sim de um filme de terror, porém dentro de uma construção curiosa e relativamente rara quando capturada em sua essência: o espanto que se move nos aproximados 10 minutos de projeção não surge de reações intermediadas pela protagonista, mas vem curiosamente da completa ausência de espanto na relação daquela mulher com seu lugar (sublinho “seu lugar”).

As assombrações, as aparições, mesmo as transposições de dimensão de Maria são parte de uma terra que brota e finca seus costumes no seio daquela mulher, que abriga formas de entender o mundo nos olhos daquela mulher, a ponto de lugar e mulher não mais se desvencilharem, de serem Maria e a Cachoeira, uma só, afinal. São delas aquelas almas penadas, são delas aqueles encostos. Há quem por ali turiste e se assuste; há quem por ali passe e queira ficar mais.

 

*Filme visto na 21ª Mostra de Tiradentes