Entrar em contato com o documentário Máquinas, de Rahul Jain, leva a uma constatação ao mesmo tempo impactante (do ponto de vista artístico) e cruel (sob o viés social) a respeito da atemporalidade de Tempos Modernos, filme lançado por Charles Chaplin em 1936. Na fábrica têxtil indiana visitada pelo longa-metragem de Jain, os trabalhadores ainda realizam movimentos manuais simples e repetitivos em sincronia com os aparatos tecnológicos.

A mesma situação que na obra de Carlitos resultava em gags irônicas e críticas ganha uma abordagem dramática observacional nos primeiros minutos do documentário. Após um plano- sequência inaugural que nos estabelece no ambiente da fábrica, o filme apresenta uma série de planos fixos em que trabalhadores executam suas funções em conjunto com máquinas.

A duração de cada plano e a atenção aos enquadramentos faz com que atentemos aos ritmos dos movimentos desempenhados pelos funcionários, sendo que a ambiguidade do título – que remete à coisificação promovida por um trabalho de baixa demanda intelectual – aparece nesse primeiro momento mais pela via do estudo estético do que da denúncia.

Um pouco adiante o filme começa a mesclar esse viés observacional com entrevistas realizadas majoritariamente dentro da fábrica. Vários dos relatos escancaram as condições de subemprego, e é interessante que isso não se dê necessariamente por falas conscientes dessa exploração. O mesmo trabalhador que aponta que “a pobreza é um assédio” afirma que não se sente explorado pelos patrões e defende que estar naquele local de trabalho é fruto de uma escolha pessoal.

O acesso privilegiado que a equipe teve à fábrica na cidade indiana de Gurajat não se ateve apenas aos trabalhadores. Um dos depoimentos mais marcantes é o do chefe que compara a evolução percentual de seu salário ao aumento que os trabalhadores obtiveram nos últimos dez anos, sugerindo através desse sofisma um contexto positivo irreal. O filtro usual que a câmera documental costuma trazer para as entrevistas não impede o mesmo patrão de defender que, caso o salário fosse maior, a indolência prevaleceria entre os funcionários, discurso que caberia muito bem séculos atrás na boca de um senhor de engenho.

Ao mesmo tempo que se impõe como uma estreia contundente em longas-metragens graças a momentos marcantes desses dois vieses de abordagem – o observacional e o de entrevistas -, Máquinas não alça voos maiores justamente graças à falta de organicidade no contato entre esses “dois filmes”, já que a denúncia socioeconômica se esvazia por uma estetização excessiva para tal propósito.

 

*Filme visto no 6º Olhar de Cinema