Mali, em tailandês, é o nome dado à flor do jasmim, composta por pequenas pétalas brancas e delicadas. Essa estética pacífica e sensível é marca presente em Malila, segundo longa-metragem da diretora trans Anucha Boonyawatana. Através dos planos estáticos e riquíssimos em detalhes do fotógrafo Chaiyapruek Chalermpornpanich, o filme acompanha o reencontro de Pitch (Anuchit Sapanpong) e Shane (Sukollawat Kanarot), casal de ex-namorados que há alguns anos não se veem.

Pitch é vítima de um câncer que decide não tratar, e a iminência de sua morte torna o terreno propício para uma série de reflexões dos dois sobre espiritualidade e morte. Em um ritmo meditativo, o filme acompanha seus passeios em meio a vastos campos, durante os quais Shane trabalha como jardineiro e Pitch confecciona bai sri, um complexo ornamento de flores budista em que utiliza as flores do jasmim.

O bai sri é feito em rituais budistas como forma de cura espiritual: uma vez que acreditam que o mal-estar é causado pela ausência do espírito, o instrumento serve para trazer o espírito de volta a seu respectivo indivíduo, tornando-o novamente completo. A prática é o único tratamento adotado por Pitch, que parece preparado para seu inevitável destino, apoiando-se em suas crenças. O momento da morte de Pitch, apesar de sentido duramente pelo amado, mostra isso claramente, uma vez que não simboliza o fim do filme, que ainda segue por cerca de uma hora.

A temática da filosofia budista ganha ainda mais força na segunda parte do filme, quando o solitário Shane decide por tornar-se monge e vaga pela floresta em busca de aprendizado. Fica evidente, a partir daí, que não se trata de um enredo sobre uma trágica história de amor, mas sim sobre uma espécie de ensaio sobre a vida após a morte, que caracteriza-se nesta cultura pelo perecimento do corpo e continuidade do espírito. Em um misto de sensibilidade e realismo, a cena em que o espírito de Pitch visita Shane através de um corpo em decomposição se mostra justamente como a materialização dessa ideia.

O filme lembra, nesse aspecto, o aclamado Tio Boonmee, Que Pode Relembrar Suas Vidas Passadas, dirigido pelo também tailandês Apichatpong Weerasethakul, no qual uma família acompanha os últimos dias de um tio doente enquanto recebe visitas de espíritos de outros familiares já falecidos. Ambos os filmes, dadas as devidas circunstâncias, abordam com grande beleza e intensidade o universo da cultura budista de seu país, algo que dificilmente seria feito com a mesma propriedade por outra nacionalidade.

A hesitação de Malila em aprofundar-se na temática gay é, de certa forma, uma renúncia valida nesse sentido, pois possibilita que o filme ganhe um nível filosófico muito mais significativo, pressupondo que a escolha de personagens homossexuais não necessariamente obriga o roteiro a tornar-se uma reflexão sobre eles, mas sim sobre suas percepções sobre outros assuntos, como a religião, assim como qualquer outra sexualidade seria capaz de fazer – e, desta forma, contribuindo tanto quanto ou mais para uma necessária quebra de tabus.

 

*Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo