Em um nicho de filmes no qual a busca pela autoria passa muitas vezes por opções estéticas supostamente sofisticadas, com falas solenes e tempos mortos a rodo, o alcance da potência cinematográfica através de recursos que parecem simples (como encontros pessoais e histórias familiares), mas que ganham múltiplos significados na tela, é um respiro. Na nova geração de cineastas brasileiros, os nomes de André Novais Oliveira (Ela Volta na Quinta) e Allan Ribeiro podem ser enquadrados nesse grupo. No documentário Mais Do Que Eu Possa Me Reconhecer, apresentado na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Allan constrói um trabalho com ricas possibilidades de apreensão partindo apenas da sua relação de amizade com o artista plástico e videoartista Darel Valença Lins.

A sequência logo no início na qual os dois artistas se filmam para, logo em seguida, Darel apagar as imagens que havia acabado de gravar, já estabelece um embate entre duas visões artísticas que irá permear todo o filme. O entrevistado faz filmes caseiros experimentais nos quais não há falas; Allan, por sua vez, usa como um dos eixos de construção de seu filme as conversas com Darel e utiliza vários trabalhos do artista na construção do longa-metragem. Esta estratégia vai criando uma espécie de comunhão entre os dois, à medida que o limite de distinção entre as características de um e de outro vai ficando mais tênue.

O isolamento e a solidão de Darel Valença Lins são duas características mostradas de diferentes formas pelo filme. As imagens com objetos “voadores” de filmes do artista criam um ambiente quase fantasmagórico que dialoga com a imensidão da casa – 800 metros quadrados, como um letreiro frisa – em contraposição à pequenez daquele único morador. A sensação transmitida por objetos antigos (como um telefone) ou por uma marca de tiro na parede é que o passado e o presente pouco se distinguem naquele ambiente.

A ambientação do filme se dá quase sempre naquela casa fechada e o contato com o mundo exterior é quase sempre negado. Na única vez em que encontra outra pessoa que não seja da equipe de filmagem, Darel recebe uma encomenda de um entregador dos Correios cujo rosto não conseguimos enxergar e logo a descarta na mesa. O carro estacionado na garagem, a engraçada conversa telefônica sobre a multa que ele teria tomado, a fala sobre a falta de vontade de sair de casa e o plano aberto em que ele está na sacada da casa são elementos que solidificam essa noção de isolamento.

Uma das escolhas interessantes da direção é a de dividir o filme em cenas, uma noção vinda de obras de ficção. Darel chega a falar que não é Paul Newman para ficar posando para um filme, mas é evidente que, a partir do momento em que entra em contato com outra pessoa e com a câmera, estará presente ali uma noção de representação, algo que fica visível já na parte em que apaga o vídeo recém-realizado ou nas suas falas sobre como todos os dias são únicos.

Mais do que um estudo exclusivo sobre Darel Valença Lins, o filme é sobre o encontro entre as solidões dele e do diretor Allan Ribeiro. Como diz o artista plástico na fala mais marcante do filme, a mera troca de olhares entre duas pessoas tem o mesmo valor do que um autorretrato sofisticado. Colocando em outras palavras, não interessa ao filme apenas expor as características individuais de Darel e tentar defini-lo de maneira unilateral. O exercício do diretor é o de se colocar como parte construtora do projeto, apostando na força dessa troca de emoções sem nunca querer encontrar interpretações fechadas para definir o entrevistado.

Podemos ver em tela a força desse encontro, dessa troca de olhares, e a comunhão alcançada é tão grande que o isolamento construído ao longo do filme pede por uma expansão. Na obra, isso acontece através de uma rápida sequência de saída para o mundo; fora dela, ela alcança sua potência pelo olhar do espectador.

 

* Filme visto na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes