Éramos uma sala de cinema toda chorando. Me perguntei se seria algo específico na narrativa que tocava a todos, e em algum momento olhei para o lado pra me certificar e tentar entender o fenômeno.

Acho que na verdade o entendimento é bem complexo, e não foi apenas observando as pessoas que cheguei  a ele. No entanto, a análise que faço não abarca um terço do que o filme pode representar em outros contextos de vida, ou sua possível relação com outras diversas subjetividades, mas fala o quanto ele pôde ressoar em mim, e quanto o cinema foi ressignificado aqui.

Los Silencios, segundo longa-metragem de Beatriz Seigner, conta a história de Amparo e seus dois filhos (Nuria e Fábio). O trio deixa o local de origem, na Colômbia, em decorrência de conflitos entre as Farc e o governo colombiano, e se refugia numa ilha situada na tríplice-fronteira Brasil-Colômbia-Peru, chamada de  “Ilha da Fantasia”, local que não pertence a nenhum dos países e é autogerido por aqueles que vieram de diversos lugares. Ali, Amparo tenta recomeçar sua vida enquanto aguarda notícias sobre Adão, seu marido que é dado como um desaparecido político.

O filme de Beatriz abarca discussões sócio-políticas contemporâneas (especulação imobiliária, imigração, tolerância e políticas para refugiados) comuns a muitos países da região, e se revela uma obra essencial para despertar um olhar latino-americano que nos iguala como humanos vítimas de um mesmo sistema, ou de nós mesmos.

Como prenuncia o título do filme, desde o início encontramos fagulhas de silêncio que reverberam em cada subjetividade. Creio que este seja um fenômeno comum em todos que tiverem a oportunidade de assistir ao longa: os silêncios dos personagens, que demarcam tamanha trajetória de cada um deles naquela vida; o silêncio da pausa, que demonstra a cumplicidade da câmera com cada personagem frente a ela. Uma direção que, frente ou atrás das câmeras, fala junto, e não sobre o outro.

O filme ainda traz impressa uma grande influência imagética asiática, presente desde a saturação das cores até o enquadramento composto por linhas diagonais, que tira seu olho do ponto fixo para percorrer o quadro e pensar naquilo que está adiante. A câmera aqui não é mero instrumento técnico; ela é participativa, podendo ser vista como personagem, ou até mesmo como objeto de cena, vez ou outra compondo a mise-en-scène, e com presença afetiva, sendo enxergada. Ela sempre está presente sem que a vejamos fisicamente.

Aqui, uma ética documental e antropológica em relação ao outro está muito próxima daquela que o cineasta Apichatpong Weerasethakul havia alcançado em O objeto misterioso ao meio-dia (2000). É bonito como a presença da câmera é, nos dois casos, afetuosa, participativa e uma parceira de cena. Além disso, a forma como Beatriz retrata o roubo da infância em sua tamanha violência é incrivelmente digna e sutil.

Los Silêncios é a libertação e liberdade para qualquer povo. É a renúncia, e também o fortalecimento sem fronteiras. É o olhar para dentro e encontrar o outro. É saber que se continua mesmo com uma possível morte presente. É ser mulher forte, mesmo que sinônimos.

Mas Los Silencios também é um exercício em equipe reflexo de uma movida não só de uma diretora, mas dos demais olhares que estiveram juntos na construção do filme, e estes olhares são femininos, visto que todas as cabeças de equipe são mulheres, e geograficamente diversos, dada a grande presença de pessoas da região fronteiriça, como também de profissionais de países como Venezuela e Cuba.

E quanto aos conflitos presentes na história de tantas pessoas como Amparo, o filme vem e desperta para a questão: o exército, os paramilitares, as Farc, todos são compostos pela população mais pobre da Colômbia, jogados pelo sistema uns contra os outros, manipulados de maneira tal. Já não se sabe pelo que lutam e contra quem, apenas lutam entre eles mesmos, defendendo um sistema que talvez não os represente de maneira efetiva, ou que apenas não faça pensar o outro como um igual. Este ponto de reflexão em Los Silencios é de uma humanidade sem tamanha, e de uma felicidade sem igual.

No mais, o filme é muito maior do que se possa dizer aqui, mas nos lembra que as culturas amazônica, negra e indígena precisam de espaço em nossos olhares, assim como toda cultura latino-americana. Acho que este foi um dos recados do longa-metragem: é preciso quebrar com os estereótipos começando com o que produzimos como representação, e o resultado que se vê em tela está marcado também por quem está na equipe.

Vamos transgredir e construir juntxs!

Que filme profundo, que feliz foi poder assisti-lo!

 

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