O diretor chileno Roberto Doveris estreia na direção de longas-metragens com Las Plantas, vencedor do Prêmio Generation 14+ de Melhor Filme no Festival de Berlim. O filme acompanha a vida de Florencia, jovem estudante que vivencia sua sexualidade e o lazer inocente de seus 17 anos, ao mesmo tempo em que é obrigada a lidar com responsabilidades incomuns para sua idade, como cuidar sozinha da casa e de seu irmão em estado vegetativo.

Doveris tem como bagagem audiovisual uma série de curtas e videoclipes dirigidos por ele, alguns dos quais feitos para canções de Violeta Castillo, cantora argentina que é também protagonista do longa. Em sua primeira atuação no cinema, Castillo não chega a construir nenhum momento de interpretação excepcional, mas parece se encaixar de forma bastante natural no papel proposto pelo filme, tanto pela sua aparência jovem quanto pela personalidade introspectiva da personagem, o que não exige a demonstração visual de grandes emoções.

Há uma certa melancolia presente em Florencia, em parte fruto da solidão de viver em uma casa praticamente vazia, onde seu irmão doente é sua principal companhia. Essa sensação pesada é bem explorada pela fotografia do filme através de planos bastante fechados e com pouca luz, gerando em alguns momentos uma atmosfera estranhamente sombria.

O roteiro, porém, não acompanha exatamente essa linguagem, e, ao abordar de forma equilibrada diversos aspectos da vida da protagonista, acaba por diluir-se, sem dar a devida densidade a um conflito ou sentimento específico. Em um grande leque de situações, torna-se difícil saber, afinal, o que aflige a garota: o irmão que precisa de cuidados, os pais ausentes, os amigos que não a compreendem ou sua sexualidade em formação.

Menos claro ainda fica o papel do gibi Las Plantas na história. O suspense sobre plantas que dominam o corpo de humanos é, à primeira vista, uma interessante metáfora entre o conto e o irmão em estado vegetativo. Infelizmente, essa hipótese é pouco explorada e se perde em diálogos superficiais, restringindo o gibi a um mero hobby que intriga Florencia, tornando-se um elemento que sobra em um enredo que poderia perfeitamente existir sem esse detalhe.

Em um conjunto de temáticas com ligações frágeis entre si, o principal conflito dramático que se pode extrair de suas combinações são os contrastes entre as cenas, simbolizando a luta entre a menina e a mulher que disputam espaço dentro de Florencia. Enquanto ensaia coreografias caseiras de música pop com os amigos, em outros momentos a garota flerta com homens mais velhos pela internet, que vão até sua casa em cenas de intensa tensão sexual.

Os pretendentes são instruídos por ela a não ultrapassarem a porta de vidro da casa e se masturbam do outro lado, enquanto Flor observa quase que autoritariamente. O momento em que um deles rompe a barreira que separa seu universo particular do mundo adulto, concretizado nesse caso na hipótese de uma primeira transa, representa um dos auges de sua crise de identidade, na qual realiza seus desejos sexuais e, em seguida, volta para o conforto dos braços do silencioso irmão.

Em síntese, Las Plantas tem cenas e elementos potencialmente interessantes, mas a liga entre eles é tão tênue que talvez teria sido melhor aprofundar-se em uma só temática para traduzir de forma efetiva o caos que é a vida de uma adolescente, principalmente quando recaem sobre ela responsabilidades que não correspondem a sua faixa etária. Ao abarcar muitas ideias inusitadas e, inegavelmente, criativas, o filme acaba não atingindo a relevância que poderia ter e sabota a si mesmo na tentativa de criar uma história diferente.

 

Sessões do filme na 40ª Mostra de São Paulo

Dia 20/10 – 20h20 – Circuito Spcine Paulo Emilio – CCSP

Dia 22/10 – 13h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2

Dia 27/10 – 18h15 – Reserva Cultural 2

Dia 28/10 – 19h15 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 6

Dia 29/10 – 17h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1