Por fatores como a movimentação dos pugilistas, o poder de superação individual e a imprevisibilidade da disputa, o boxe é tido como um dos esportes com maior potencial cinematográfico, como provam clássicos do naipe de Touro Indomável, de Martin Scorsese. Quem acompanha combates, contudo, sabe que, em boa parte do tempo, as ações dentro do ringue não provocam grande emoção nos espectadores. O filme eslovaco Koza, de Ivan Ostrochovský, parece ter levado isso em conta ao trilhar o caminho da desglamorização das lutas.

As imagens que abrem o filme, trazendo a participação de Peter “Koza” Baláž nas Olimpíadas de 1996, relembram um tempo de glória totalmente diferente do presente do protagonista. A dificuldade de adequação ao tempo atual é reiterada sutilmente, por exemplo, na recorrência no longa-metragem de situações em que o idioma inglês é falado, nas quais ele só sabe recitar, com certa dificuldade, os números de um a dez naquela língua.

Interpretado pelo próprio Koza, em mais uma aposta do cinema contemporâneo em borrar as fronteiras entre ficção e documentário, o esportista agora trabalha em um ferro-velho e precisa sustentar a mulher e a filha. Acontece que a esposa engravida novamente e não pretende ter a criança. Mesmo contra essa decisão, o personagem-título aceita voltar aos ringues para obter o dinheiro necessário para o aborto.

Com a companhia de um empresário aproveitador e de um técnico beberrão, Koza segue de cidade em cidade em busca de novos desafios. Acontece que o seu desempenho não apresenta nem mesmo um resquício dos tempos de atleta olímpico. Luta após luta, o pugilista é derrotado facilmente por seus adversários, e as escolhas da direção de Ostrochovský nem permitem que tenhamos outra expectativa: todos os combates são acompanhados em planos quase sempre abertos e fixos, sem cortes, e têm duração bem rápida. É como se o diretor não quisesse acentuar os vexames de Koza.

Esta opção da direção também se verifica durante todo o filme. Embora carregue semelhanças com filmes recentes vindos do Leste Europeu (A Lição) ou mesmo da Bélgica (Dois Dias, Uma Noite e outros dos irmãos Dardenne) no que tange à situação do indivíduo levado ao esgotamento físico e emocional, Koza não adota o estilo recorrente da câmera na mão quase grudada à pele de protagonistas. Ostrochovský prefere ter uma distância um pouco maior dos personagens, com enquadramentos sempre bem realizados em planos fixos que permitem uma observação mais precisa da rotina sofrida daqueles personagens.

O filme tampouco recorre a sentimentalismos para fazer o espectador se associar aos dramas do protagonista. Pouco sabemos do passado de Koza além da sua participação nas Olimpíadas, e não temos grande conhecimento da relação dele com a mulher, já que o longa-metragem inclusive oculta uma de suas conversas por telefone. Até mesmo a possibilidade de um final feliz, ao menos como aquele em que o protagonista tem em mente, é sabotada previamente pelo roteiro.

Para Koza, a maior redenção possível é a sobrevivência diária.

Nota: 8,0/10 (Ótimo)

 

*Filme visto no 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

 

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