A onda de manifestações conhecida como Primavera Árabe, que foi iniciada no final de 2010 e levou milhares de pessoas às ruas para exigir a saída de governos autoritários na Ásia e na África, teve como principal símbolo os protestos no Egito, mais especificamente na Praça Tahrir, localizada na capital Cairo.

A queda do ditador Hosni Mubarak, que permaneceu quase 30 anos no poder, era a grande reivindicação da população que foi às ruas, mas a simples deposição do ditador não serviu para acalmar a ebulição política do país africano, que teria, posteriormente, uma eleição democrática e outra série de protestos, desta vez contra o presidente eleito Mohammed Morsi.

No cinema, o cenário político movimentado foi contado sob o ponto de vista de um grupo de manifestantes em The Square, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2014. Em comparação com este trabalho, o filme I Am the People, dirigido pela francesa Anna Roussillon, tem como diferencial o fato de acompanhar os protestos de longe, buscando entender a visão de um grupo de moradores pobres do sul do país a respeito das transformações sofridas pelo Egito.

Uma antena de TV instalada no pequeno vilarejo é a janela dos moradores para os acontecimentos que levaram o país africano a figurar durante meses nas manchetes mundiais. Fatos como o do jovem tunisiano que ateou fogo ao próprio corpo, ato que posteriormente foi tido como pontapé inicial da Primavera Árabe, são recebidos com espanto e certa ingenuidade pelas crianças do vilarejo.

Longe das telas que atualizam as notícias vindas da capital, uma mulher não demonstra grande interesse pelas mudanças políticas. Em um lugar em que a presença do Estado é invisível, o aumento do custo de vida se torna um fator que influencia uma percepção de que as coisas estavam melhor nos tempos de Mubarak.

O contraponto desse viés comodista se faz presente na trajetória do agricultor chefe de família que se torna figura-chave no documentário. Ele compra uma máquina moedora pensando em garantir o sustento dos filhos a longo prazo, mas não deixa de atentar para o futuro do país.

Em uma das cenas mais marcantes do documentário, o agricultor ara a terra enquanto discute com a diretora do filme, demonstrando clara desilusão com os rumos do governo de Mohammed Morsi, em quem ele havia votado e confiado, e questionando a interferência estrangeira na região. Neste momento, o próprio alcance do filme, todo guiado por um olhar “de fora”, é posto em xeque.

Através do retrato deste homem complexo, que toma o documentário para si e justifica o título do filme (“Eu Sou o Povo”), o trabalho acaba por mostrar uma parcela da população que aprendeu a ter esperanças em um futuro melhor mesmo entendendo que o caminho é tortuoso, cheio de idas e vindas e muitas decepções. Afinal, como repete o agricultor algumas vezes, o recomeço sempre será possível para esta e as outras gerações, pois “sempre haverá a Praça Tahrir”.

Nota: 7,5/10 (Bom)

 

*Filme visto no 4º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

 

Sessões de I Am the People no 4º Olhar de Cinema:

- 14/6, às 16h30 (Shopping Curitiba – Cinesystem – Sala 4)

 

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