Na pacata Newport, um campus universitário se agita na expectativa pela chegada de Abe Lucas (Joaquin Phoenix), o novo professor de filosofia. A fama de galã desequilibrado entusiasma principalmente Jill (Emma Stone), universitária dedicada, que irá estreitar relações com Abe e conhecer melhor sua personalidade controversa. Logo na primeira festa, o professor tenta a sorte na famosa roleta russa  (“brincadeira” de deixar apenas uma bala no tambor do revólver, girá-lo e puxar o gatilho, sem saber onde a bala está). Nada gratuita, a cena já evidenciaria a importância do acaso na história que será contada. O primeiro deles a ter grandes consequências acontece num restaurante e se configura num ato existencial para Abe.

Se fosse qualquer outro o roteirista, este turn point, assim como outras viradas e o próprio desenlace final do longa seriam considerados ridículos. Mas uma das marcas de Woody Allen é justamente essa: tratar acontecimentos inverossímeis e motivações completamente sem pé nem cabeça como se fossem a coisa mais natural do mundo. Ele compra a própria ideia, mesmo se for ruim, como poucos, costurando-a à espinha narrativa e fazendo que embarquemos rapidamente na trama.

Na obra de Allen, a condição estruturante da aleatoriedade, tão nítida em Homem Irracional, ajuda a explicar por que sua carreira é tão prolífica. Os roteiros não dependem tanto da originalidade ou da força autônoma das ideias, mas sim da funcionalidade delas num texto que terá outros atributos marcantes. Com seu humor irônico e autorreferente, Allen é muito desenvolto na construção de personagens problemáticos – geralmente abatidos por crises existenciais que contaminam todas as dimensões da vida – e talvez seja, junto a Billy Wilder, o maior dialoguista da história do cinema.

Timidamente, aqui o angustiado Abe encontra a persona de um ator que dedicou os últimos anos a papéis melancólicos e auto-destrutivos. Quando soube que Joaquin Phoenix faria o longa, fiquei dividido: por ser o “loser” da vez no cinema americano, a parceria com Allen fazia sentido, mas James Gray, Spike Jonze e Paul Thomas Anderson lhe deram personagens graves, carrancudos demais, distantes daquele “atormentado charmoso” que costuma fazer a festa na obra de Allen. De fato, a minha impressão é a de que os carismas – do ator e do personagem – não se completaram e falta saturação ao protagonista.

Estrelando pela 2ª vez consecutiva um filme de Woody, Emma Stone cavou espaço próprio no panteão de musas do diretor. É difícil disputar com a presença de Diane Keaton e Mia Farrow na obra pretérita e mesmo com a densidade dramática da sedução que Scarlett Johansson oferece na recente “fase européia” da filmografia. O encanto, agora, parece ter a ver com a juventude e com uma perspectiva enérgica mas flutuante, quiçá ingênua, diante da vida. Nesse aspecto, Sophie, de Magia ao Luar, e a univeristária Jill se aparentam; ambas ilustram uma fantasia que uma hora terá seu fim. O delírio de Jill, nesse caso, nasce a partir da relação, típica nos filmes de Woody, de devoção entre um jovem – faminto e potente – e uma figura mais velha, cujas inteligência e índole rabugenta são atrativos afrodisíacos.

Como o título faz crer, a ironia da hora aponta para o papel da razão no mundo contemporâneo. O “homem irracional” é justamente um professor universitário. Filosoficamente cético, descrente quanto a ideias progressistas e dostoievskiano nas reflexões sobre o comportamento humano. É por este ideário que Jill se apaixona, mas entra no relacionamento também disposta a energizar o depressivo Abe. A dialética entre os dois personagens é dinâmica, sustenta a maior parte do falatório e, mais do que tudo, diverte.

Nota: 7,0/10 (Bom)