O curta-metragem Fervendo foi um dos filmes exibidos neste 7º Olhar de Cinema dentro de um programa que tinha como conexão entre os filmes o reposicionamento de personagens mulheres em lugares usualmente ocupados por homens. Foram exibidos na mesma sessão os filmes Antonio e Catarina, Sweet Heart e Estamos Todos Aqui (sobre o qual escrevi anteriormente). Escolho falar sobre o curta de Camila Gregório por ele me parecer o mais consciente dos ruídos e rupturas não apenas com o lugar de sua protagonista no filme, mas com o próprio exercício de fazer cinema a partir de formulações muito conectadas com o seu próprio tempo.

A trajetória da protagonista Ticiane é marcada por duas questões que intrigam, a principio: a jovem passa horas no banheiro mexendo no celular, conversando com amigas, vendo e gravando Stories do Instagram. E, ao mesmo tempo, sugere carregar alguma tensão interna e pessoal que ganha dimensão (que ferve) à medida que as horas e os dias passam.

O primeiro movimento de deslocamento que o filme propõe está na escolha de que Ticiane, enquanto personagem, não apenas atue no filme, mas o dirija. O espaço em que ela mais habita será o espaço no qual mais habitaremos. Se ela escolhe filmar algo com o celular, a câmera do filme passa a ser a câmera do celular. Se ela decide colocar este mesmo celular no chão e nos deixar no escuro enquanto toma banho, então é no escuro que ficaremos. A autoridade (termo que no cinema nos remete sempre a uma tradição branca e masculina) sobre a autoria do filme muda de lugar e há um movimento de ruptura potente a partir dessa opção.

O segundo movimento que desloca o filme se encontra na dimensão de que existe toda uma narrativa subjetiva na maneira como Ticiane faz uso do celular em seu cotidiano. E, mais do que isso, na maneira como essa relação instantânea com a câmera faz surgirem novos códigos de uma relação ficcional com o mundo. E essa relação progride ao ponto de o celular se tornar literalmente o olhar subjetivo da própria personagem, numa fusão de imagens que responde de maneira bastante única a um movimento de nosso próprio tempo (e que aqui ultrapassa até mesmo propostas como a de Sean Baker em Tangerine, por exemplo). O único momento de ruído nessa altura do filme se dá com relação a quem exatamente está atravessando o processo de aborto, se Ticiane (a primeira personagem que vemos) ou se sua amiga (que surgirá momentos mais tarde). E muito deste ruído surge porque é natural entendermos que mais dramática que a situação da amiga de uma mulher que fará um aborto é somente a situação da própria mulher que sofrerá este aborto. Mesmo tentando tornar essa dúvida parte da proposta, nesse sentido parece haver mesmo uma lacuna de roteiro.

Chegamos então ao terceiro movimento, que conjuga os dois anteriores e dá coesão a este curta-metragem do Recôncavo Baiano. Este é o trecho mais complexo do filme e sua complexidade existe a partir de uma escolha simples: reduzir o tempo de surgimento de algumas cartelas finais. Assim, a sequência é: tela preta. Pouquíssimos segundos e letreiros com informações acompanhados de uma nova voz off indicam procedimentos mais seguros de aborto e fontes mais confiáveis de ajuda para mulheres nessa situação. Porém, ao contrário de tantos outros filmes, esses letreiros informativos não estão aqui desconectados do restante do curta, nem interrompem a diegese do filme. Para melhor explicar, recorro ao literal: pessoalmente, o que me veio à mente assim que os letreiros e a voz off surgiram não foi que eu estava ali vendo cartelas informativas somente, mas algo que poderia ser, por exemplo, um vídeo do Youtube sendo visto em “tempo real” por uma das duas personagens.

É através dessa dubiedade sobre o que está “dentro” ou “fora” do filme que Fervendo dá seu salto final para ir ainda mais longe e deixar no pulo uma certeza: os filmes feitos no Recôncavo Baiano sinalizam cada vez mais para o surgimento de uma geração de cineastas promissores. Aliás, promissoras.

 

Leia também:

>>> Entrevista com Camila Gregório