Causar. Esse verbo, hoje reapropriado em gíria, talvez defina bem o maior talento de Carlos Imperial, ele “causava”. Causou em tantas áreas que não soa pueril quem o define pelo genérico “homem de entretenimento”. Era em busca de sucesso e visibilidade, para ele e para seus amigos, que Carlos Imperial extravasava o melhor (ou o pior?) de sua personalidade: a pilantragem, a vocação para a mentira, a libidinagem insaciável e a curtição desenfreada da vida. Ou pelo menos essa é uma impressão provável para quem assiste ao documentário Eu Sou Carlos Imperial, de Renato Terra e Ricardo Calil, em competição no festival É Tudo Verdade.

No campo musical, Imperial era o recorrente (na época e ainda hoje) produtor centralizador e paternalista, que mostra o caminho do sucesso ao pupilo e toma conta do repertório ao corte de cabelo do artista. Assim, apadrinhou figuras renomadas como Roberto Carlos, Elis Regina e Clara Nunes. Não raro vários desses cantores renegavam o começo de carreira e partiam para outras direções musicais. Mas Imperial carimbou seu nome na aproximação com a Jovem Guarda e na composição de clássicos como O Bom, A Praça e Mamãe Passou Açúcar em Mim, de Wilson Simonal, um de seus grandes amigos e parceiros. O sucesso era imperativo no show business. Se não ocorresse por bem, seria por mal: Imperial inventava casos, forjava brigas e polemizava falsas questões para colocar seus artistas em evidência. Registrou músicas de domínio público, a exemplo de Meu Limão, meu Limoeiro, como sendo suas.

Carlos Imperial teve programas de TV, criou bordões (“Dez, nota dez!”), dirigiu e atuou em diversas pornochanchadas e foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro em 1982. Apesar da abrangência de setores, vêm do universo musical as figuraças com os depoimentos mais interessantes: Tony Tornado, Eduardo Araújo, Erasmo Carlos. Eles conseguem transmitir algo do que deve ter sido a experiência de conviver com Imperial e suas maluquices. Eis um acerto da abordagem do filme, pois não há a ambição da integralidade, de rastrear por completo a pessoa íntima ou mesmo a pública. Não sabemos detalhes factuais frios (como números e datas) e não há cronologias. A dupla de diretores fez do filme uma contação de histórias divertidas, centradas nos principais traços de Imperial, e é assim que a expressividade de seu personagem salta à tela.

A sensação geral é a de que Imperial era uma figura amada, mas contar casos em sequência sempre ativa um imaginário maior e multifacetado na construção do personagem. O emocionante depoimento dos filhos de Imperial, em especial o de Marco Antônio, e as reservas dos próprios artistas quanto às pilantragens dão maior intensidade ao retrato, ajudando a colorir um conjunto vibrante de entrevistados.

Nota: 8,5/10 (Ótimo)

 

Sessões no 20º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários:

- 12/4/2015 – 19h – Cine Livraria Cultura (São Paulo)

- 13/4/2015 – 15h – Cine Livraria Cultura (São Paulo)

- 17/4/2015 – 21h – Espaço Itaú Botafogo (Rio de Janeiro)

- 18/4/2015 – 15h – Espaço Itaú Botafogo (Rio de Janeiro)