algo perturbador em Olga Hepnarová, assassina em massa e última mulher sentenciada à morte na Tchecoslováquia. Logo, os diretores de Eu, Olga Hepnarová deixam sua marca no desenvolvimento de uma personagem tão ambígua quanto seu legado.

Assisti-la ser enquadrada frequentemente diante de seus juízes (família, psicólogo, advogado) pode gerar alguma empatia sob o pretexto de uma mentalidade instável. Mais além, os cineastas não medem esforços para expor Olga reduzida entre as figuras enormes dos homens ou em comparação com outras mulheres que, ordeiramente, “não usam calças ou cheiram a gasolina. Contudo, a condição autoconsciente de Olga é de longe o que mais chama atenção no filme. Uma psicopata autointitulada, em busca da própria martirização, faz refletir sobre até que ponto seu comportamento subversivo é fruto de uma corrupção social.

Paralelamente, o filme é estilizado a ponto de criar as próprias estruturas de representação: a partir de certo ponto, ficamos acostumados com cortes anômalos sobre o mesmo eixo (muitas vezes planos próximos que se amontoam, literalmente explorando as “diversas faces” de Olga) e sequências agressivas, que relativizam com frequência a referência de continuidade de tempo. A instabilidade entre os cortes é ainda compensada no interior dos quadros mais duradouros pela tensão que provoca a própria protagonista: diante de outras pessoas, testemunhamos sua figura retraída tragar seu cigarro rapidamente, até sete vezes no mesmo plano.

A forte inferência do estilo no filme dá uma importância para sua potência cinematográfica e deixa em segundo plano alguma pretensão de fidelidade histórica. Esse estilo disruptivo define a distância necessária em relação ao espectador para jogar com sua cumplicidade. Assim, acompanhar as desventuras de Olga justapostas da maneira como estão passa a ser menos interessante para quem procura um retrato fiel de uma psicopata, e mais rico na forma de um comentário sobre o presente status das revoluções de gênero.  

Então, qual seria o limite dessa manipulação estilística, se ela por diversas vezes se faz tão visível? O filme biográfico de Olga passaria a “ser vítima” da própria ficção, das estratégias de composição, do olhar da/para câmera, da forte personalidade dos diretores. Talvez questionar esse limite seja uma importante faceta da obra, nada melhor para aumentar a sensação de instabilidade que parece jogar a favor, mesmo que seus ares possam comprometer (paradoxalmente) a integridade de uma psicopata.

De modo geral, as ambiguidades parecem fazer bem ao filme, e isso vai se refletir mais fortemente em momentos de conflito entre personagens e onde hádesvendamentode alguma motivação interior da protagonista. Nessas condições, os cineastas assumem o desconhecido, ao mesmo tempo em que colocam o espectador no mesmo lugar de onde ouvimos as vozes que julgam Olga: do espaço-fora-da-tela.Ainda, além de aumentar a dimensão da hostilidade astutamente com sonoplastia e vozes em off, o filme deixa livremente quadros vazios para aumentar a tensão sobre o que não se vê.

A discussão sobre se a protagonista é moralmente corrupta ou mentalmente instável acaba sendo impossível e até desnecessária em Eu, Olga Hepnarová. Em vez disso, a martirização da personagem é compactuada pelos cineastas, dando mais valor à criação e desenvolvimento de um próprio Übermensch da personagem. Este, defendido por criadores e criatura, é o que sobrevive até o fim, pelo menos até o ponto em que achamos que conhecemos Olga.

 

Sessões do filme na 40ª Mostra de São Paulo

Dia 21/10 – 21h30 – Cinemark Cidade São Paulo

Dia 22/10 – 17h20 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2

Dia 25/10 – 17h40 – Cinesala

Dia 02/11 – 13h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1