Nos releases de festivais de cinema que exibem uma programação internacional há uma constante: a importância dada para o número total de filmes selecionados e para a quantidade de países com produções contempladas. Tal chamariz pode ser recebido pelos espectadores a partir de uma escala variável que tem em um extremo o puro fetiche (“completar o mapa-múndi do cinema”) e no outro o interesse genuíno pela conexão com outras subjetividades, realidades culturais e possibilidades de linguagem cinematográfica. O impulso de fazer determinadas relações entre geografias diferentes se renova quando nos deparamos com curtas como o iraniano Espreita, de Farnoosh Samadi (exibido no 7º Olhar de Cinema), e o brasileiro Estado Itinerante, de Ana Carolina Soares (exibido no 6º Olhar de Cinema).

A relação mais óbvia a se propor a priori entre esses dois filmes é a temática – afinal, são trabalhos que retratam situações de violência, física e simbólica, contra mulheres. Mas o que se revelou como motivação para este texto é um elo sonoro (o barulho de uma moto) que une esses curtas-metragens a partir de uma noção prolongada de perigo iminente.

No filme brasileiro a personagem de Lira Ribas, uma cobradora de ônibus, vive uma situação de violência doméstica que lhe obriga a vagar pelas ruas de Belo Horizonte sem lugar para voltar ao fim do expediente. A relação com as colegas de trabalho vai aos poucos se tornando suporte para uma superação (mesmo que parcial) desta relação abusiva, e uma cena-chave para esta transição é um encontro da protagonista com três colegas cobradoras em um bar.

Em um primeiro momento (figura 1), um plano frontal mostra as quatro mulheres conversando sobre situações de perigo do dia a dia do trabalho. A protagonista corta o assunto e diz que vai colocar uma música.

 

Figura 1

 

A seguir, um plano mais aberto (figura 2) rompe aquele microcosmo feminino e as reinsere no contexto de uma sociedade em que a violência de gênero é uma realidade. O perigo vem primeiro pelo som e depois se materializa em imagem – homens passam fazendo barulho (um ronco de motor similar ao que ouvimos em Espreita) e empinando suas motos.

 

Figura 2

 

Estabelecida essa situação de perigo, a câmera se posiciona no plano posterior (figura 3) nas costas da protagonista, o que pode remeter à proposição de Godard de que as vítimas deveriam ser filmadas sempre de costas. Em entrevista ao Cine Festivais em 2016 a diretora Ana Carolina Soares negou inspiração prévia nesta máxima do diretor francês e falou assim sobre essa opção: “o que pensei é que a personagem, assim como todas as mulheres que sofrem violência doméstica, não revelaria sua dor pra todos, então o espectador é privado do seu olhar nestes momentos”.

 

Figura 3

 

Saindo do ambiente urbano brasileiro para o iraniano, a mesma preocupação com o olhar (dos personagens e de quem filma) é vital no filme de Farnoosh Samadi. Já no título está inscrita uma ambivalência, já que “espreita” pode significar tanto “observar” quanto “emboscada”. É nesse caminho do verbo para o substantivo que a narrativa do filme avança ao retratar uma mulher que vê um assalto dentro de um ônibus e se recusa a ignorar aquela imagem. Olhar, aqui, é quase um ato de subversão, por isso mesmo sujeito a uma reação de quem se entende como detentor exclusivo dessa possibilidade.

Uma grande diferença entre os curtas se dá na maneira com a qual lidam com a ideia de lar. Se a protagonista de Espreita tem na volta para casa e no reencontro com a filha a sua principal motivação, em Estado Itinerante a personagem deseja justamente romper com um ciclo de violência que advém do ambiente doméstico.

Por outro lado, os dois filmes apontam como elemento narrativo o ônibus – a princípio, um meio facilitador para a ocupação de espaços públicos – e tratam de personagens que se sentem ameaçadas justamente nesses locais, enquanto o trabalho é retratado como espaço aparentemente confortável para ambas – no caso de Estado Itinerante isso se nota principalmente nas conversas entre os turnos.

No desfecho do filme iraniano o rangido da moto deixa de se relacionar com o rosto do homem que perseguiu a protagonista e passa a compor uma ameaça sem face que pode ser disparada novamente em um futuro não tão distante (não só contra ela, mas também contra sua filha).

Já em Estado Itinerante as motos da cena citada acima (cujos motoristas não sabemos quem são, apenas que são homens) multiplicam a ameaça de um agressor específico, e quando a sequência final surge o ato de emancipação da personagem é reinserido dentro de um contexto mais amplo pela simples passagem de um carro que toca uma música com letra misógina no mais alto volume.

Há, enfim, um compartilhamento entre as duas protagonistas de um estado de alerta que tende à perpetuação do medo – e que, como já dito, passa bastante pela concepção sonora destes dois trabalhos, o que dá sentido a essa “sessão dupla” que se completa um ano depois aqui no Olhar de Cinema.