Começar este texto requer um breve devaneio pessoal. Isto porque parte constante do meu exercício crítico ainda recente se implica em crises. Crises não apenas com meu papel de pensar e projetar conhecimentos possíveis a partir e através dos filmes, mas também de me colocar sempre num estado de vigilância que jamais permita ilusões nesta minha condição minoritária e privilegiada ao mesmo tempo (sou um crítico negro e jovem em espaços ainda predominantemente brancos, mas também aos 22 anos estou escrevendo sobre filmes num país que mata jovens como eu antes dos 25 anos). É tarefa diária evitar que este espaço de elaboração e reflexão crie em mim qualquer ilusão de suficiência diante do apocalipse que parece, cada vez mais, nos aguardar entre as esquinas. E é exatamente nesta lacuna que o curta Eles Vêm Aí se desenvolve. Filme mexicano do diretor Ezequiel Reyes visto na mostra competitiva de curtas deste 7º Olhar de Cinema, em Curitiba, o filme traz como centro duas questões, uma formal, a outra narrativa.

O aspecto narrativo se dá na composição do poema Los Muertos, de Maria Rivera, como força motriz do filme; suas inflexões, suas entonações, sua voz por vezes furiosa e por vezes embargada pelo efeito das imagens sugeridas pelo próprio poema. O caminho percorrido pela narração de Rivera (num áudio retirado de uma leitura feita pela própria poeta, sete anos atrás, em praça pública) convoca a uma energia que ultrapassa o filme justamente por trazer a sensação de que, bem, o que vemos é apenas um filme. Explico melhor mais abaixo.

Ao traço narrativo do filme se atrela sua decisão formal mais importante, em termos de imagens propriamente ditas. Isto porque a segunda escolha de Reyes está em sobrepor a narração do poema de Rivera às imagens de arquivo feitas por famílias mexicanas desconhecidas e de classe média, provavelmente entre os anos 60 e 80. Quando o poema de Rivera fala de crianças, de meninos e meninas, por exemplo, a edição das imagens de arquivo nos sugere também imagens de crianças, e a óbvia diferença entre a atmosfera do poema e a atmosfera dos arquivos cria uma cisão de sentidos: não vemos o que é dito, e nessa dupla invisibilidade (literal e simbólica) o filme acumula sua energia.

Porque a dimensão das imagens do poema não se resolve num filme, não se acomoda apenas na capacidade de representar a violência, a opressão, as atrocidades inerentes às estruturas sociais de países forjados por violências culturais, sociais e, acima de tudo, institucionais. Eles Vêm Aí é, em resumo, manifestação contrária à ilusão do domínio intelectual sobre as marcas da realidade. É preciso que o corpo esteja na disputa, embora seja extenuante; é preciso que a carne mutilada seja também a carne dos corpos em movimento; é preciso que a descrença se transforme em fúria. Foi assim com os Panteras Negras, foi assim com as disputas do Cangaço, foi assim com a revolução zapatista, foi assim com a revolução de Burkina Faso. Não seria diferente agora.

Sabemos quem mais mata. Sabemos quem mais morre. Por isso, aliás, dizer que Eles Vêm Aí se entende apenas como um filme não se dá num sentido auto indulgente, mas de uma escolha formal bastante consciente de não apaziguar a energia do filme mesmo ao seu próprio final porque, bem, e é isto que Eles Vêm Aí sugere acima de tudo: o filme não encerra o poema de Rivera e o poema de Rivera não encerra a realidade mexicana. É preciso sair desse texto para compreender o filme; é preciso sair do filme para compreender o poema; é preciso sair do poema para compreender a realidade.